A violência é o produto da desigualdade de gênero, assimetria de poder e das relações sociais de dominação do homem sobre a mulher. A naturalização das violências contra a mulher se perpetua ao longo da história e se sobressaem nos discursos hierárquicos masculinos, principalmente sobre o corpo feminino. Sabe-se que tal cultura da naturalização das violências contra a mulher gera grandes entraves em sua vida e, principalmente, em sua saúde. De acordo que a violência é ato de desrespeito à dignidade humana, trata-se de tema que deve ser refletido a partir dos princípios bioéticos. A Declaração sobre Eliminação da Violência contra a Mulher, da ONU, define como qualquer ato de violência baseada no gênero que resulte, ou possa resultar, em sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, incluindo ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária de liberdade, seja na vida pública ou privada.

Ano de 2017. Ensino superior completo e egressa (após concorrida seleção pública) para especialização em Residência Multiprofissional da Secretaria de Saúde de São Bernardo do Campo, São Paulo.

Bastou um convite para orientar meu trabalho de conclusão de residência, para que o preceptor -orientador -psicólogo de uma unidade de saúde do município, supor que eu estaria “disponível”. Passou a perguntar da minha vida pessoal, convites para sair com ele, jogos psicológicos e quando percebi me senti na obrigação de ficar preocupada com os sentimentos dele, de não magoá-lo. Frustrado (como o próprio afirmou) passou então a mudar as estratégias. Passou a fazer fofocas sobre o meu desempenho profissional. Segundo ele: “outros profissionais falavam mal sobre eu” e que por isso e, também, por eu “dar um fora nele”, ele ainda estava pensando se me aceitaria para orientação do trabalho ou não, e que eu teria que “fazer algo que o convencesse a me aceitar”. Após essa última mensagem em tom de chantagem e meses de investidas do preceptor, eu renunciei ao estágio na unidade e a sua orientação do trabalho. Sai de férias e voltei decidida a denunciar o que estava acontecendo. 

Muitos foram os sentimentos de medo, insegurança.. Na primeira tentativa fui desencorajada de denunciar pela atual, da época, coordenação direta do programa. Consegui registrar um boletim de ocorrência na delegacia da mulher de SBC. Em uma segunda tentativa institucional, me vi sozinha em uma sala com três mulheres poderosas da saúde de SBC, onde pensei que encontraria apoio e empatia, e ao contrário sai daquela sala me questionando e arrependida por denunciar. Me questionaram algo sobre eu não ter respeitado uma possível hierarquia, sobre quais seriam minhas reais expectativas em relação à denúncia. Mais uma vez, muitos sentimentos, inquietação, indignação, raiva.

Consegui apoio no coletivo junto a outros alunos (residentes). Escrevemos uma carta pedindo esclarecimentos e enviamos ao setor responsável por aquela especialização. O que resultou em mais retaliações. Fomos obrigados (todos que assinaram aquela carta) a comparecer a uma reunião, a qual o objetivo era me expor. Expor meu caso para uma sala cheia. Lembro-me de poucas coisas daquela reunião: dos gritos direcionados a mim, quando pedi para falar e não pude. Fui silenciada. Quando a muito custo consegui relatar que estava me sentindo exposta, ouvi: “você quem se expôs ao escrever essa carta.

Não parou por aí. Duas pessoas que só puderam assinar a carta depois, foram forçadas, quando digo forçadas, quero dizer que foram mantidas individualmente em uma sala por mais de 40 minutos e coagidos verbalmente a assinarem uma advertência sem motivo plausível. (Isso lembra algo parecido com a ditadura?). 

Muitas coisas aconteceram e ainda acontecem nessa especialização da secretaria de saúde de SBC por causa dessa minha denúncia. Eu não sei se me deixarão formar nessa especialização, inclusive. As opressões tem sido constantes e pesadas. Quero desistir todos os dias, tento pensar que está acabando e seguir em frente apesar dos olhares me culpabilização. Apesar da atual coordenação do programa, a única coisa a me falar a respeito, foi que o que aconteceu na opinião dela foi porque eu fui recíproca. Apesar da coordenação ter ido ser testemunha do acusado, saindo assim do lugar de proteger os alunos para um outro, nada neutro. Apesar de toda a perseguição aos colegas que me apoiaram e a mim.

Me senti culpada muitas vezes e por diversas vezes recorri ao dicionário, para o significado, da palavra reciprocidade. 

E não, não foi recíproco, minha senhora. E mesmo se na base da coerção eu tivesse sido “recíproca”, eu tive que abrir mão, parcialmente, do meu sonho de ser especialista em tal área da saúde. Fiquei sem o estágio e sem orientador porque eu não aceitei “namorar” o preceptor. A verdade nua e crua é essa. Não existe reciprocidade que de conta de explicar os muitos prejuízos que venho somando apenas por ter escolhido “dar um fora” num preceptor, por falar “não”, por denunciar uma pessoa hierarquicamente com vantagens sobre eu e que isso vem sendo escancaradamente reforçado a favor dele e de seus interesses políticos mesquinhos.

Apenas consegui outra profissional para orientação muitos meses depois e depois de muita luta e a mesma ainda veio cheia de pré conceitos em relação a minha pessoa. Lido continuamente com aulas ministradas por amigos pessoais desse “profissional “ onde sou avaliada com mais rigor e piadinhas do tipo: “não irei elogiar apresentação x porque se não, irão me denunciar por assédio”.

Carxs, esse é o contexto resumido das mulheres que denunciam alguma forma de violência aqui no Brasil.

Sou branca, graduada, instruída. E não me livrei do processo naturalizado da culpabilização e impunidade. Tenho empatia por milhares e milhares de mulheres que por um medo real não denunciam.

Eu descobri uma causa para me doar e lutar. Não importa se perdi essa briga, a luta é para a vida inteira.

Denunciar e resistir. ✊??

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