Verão, água e o corpo: Nem sempre uma experiência positiva

Verão chegando… Calor aumentando… Férias, viagem, praia, rio, piscina, mangueira, e pra acompanhar toda essa delicia: a roupa de banho comum nessa época do ano. Todo mundo, ou quase todo mundo, gosta de água no calor e tem em seu guarda roupa alguma peça para essa ocasião: diversão e relaxar na água, até porque vivemos num país que o calor em dias de verão é insuportável.

Toda criança tem, ou deveria ter, lembranças carinhosas e alegres de momentos na água com a família, vizinhos e amiguinhos, viagens de férias, e se não, brincadeiras dentro da piscina desmontável, caixa d’água ou mangueira no quintal, essas cenas faz parte do cotidiano brasileiro.

Depois vem a adolescência, e o corpo começa a se transformar visivelmente, e com suas transformações e hormônios bombando, aparecem os trajes de banho, os que estão na moda, a marquinha do biquíni, a festinha na piscina de um amigo do amigo, a viagem com a família da amiguinha da escola, e assim vai. Verão é tempo de usar pouca roupa e se divertir, não é mesmo?

Na fase adulta, naqueles dias de calor insuportável, procurar um rio, cachoeira, lago, bacia, mangueira, sei lá o quê para se refrescar e as roupas para se molhar também estão presentes na vida comum de um brasileiro. Top, shortinho, fio dental, cortininha, biquíni de fita, maiô, são diversos os modelos e marcas para usar nesses eventos do calor. Têm de todo preço e em quase todo lugar tem uma loja que vende moda praia.

Ideia comum e normatizada que todo mundo quer ficar na água, se refrescando, colocar pouca roupa e curtir o verão sem sofrer com as altas temperaturas.

Parece um cenário cotidiano, essas apresentadas acima desde nossa infância até a fase adulta, eu mesmo passei por isso. Contudo, quando você aprofunda seu olhar para a diversidade de corpos que existem no país e como esses corpos são excluídos nesses cenários, automaticamente aparece questionamentos: Todo mundo se diverte? Certeza? Todos os corpos são aceitos e têm o direito de se refrescarem e divertirem?

Geral se diverte, a não ser que seu corpo não tenha sido aprovado socialmente. São muitos os corpos reprovados pelo crivo do verão. Sem aprovação social, a mulher gorda é um corpo que não pode nem pensar em se expor, muito menos se divertir nos dias mais quentes do ano, aliás, em nenhum dia esse corpo deve aparecer e ser feliz, mas no verão essa exclusão pode ser ainda mais cruel e danosa as mulheres gordas.

Diversos são os depoimentos que observo nas redes sociais de mulheres que ficaram ou ainda estão, anos sem usar um biquíni ou maiô, sem ir a praia ou piscina, lago ou mangueira, se tiver uma galera junto ai que não vão mesmo.

Top e shortinho nem pensar, são mulheres que abdicam da diversão e refresco que esses momentos trazem na vida do sujeito comum, e que no verão se diverte na água, estando ou não de férias. As cidades grandes, como São Paulo, por exemplo, esvaziam, todos descem para o litoral a procura de água e diversão. As praias, piscinas e mangueiras no quintal lotam de pessoas a procura de sombra e água fresca.

A primeira vez que ouvi um depoimento de uma moça de 18 anos que nunca tinha ido à praia, nem a piscina porque tinha que usar biquíni, e o máximo que ela tinha feito para se refrescar, foi tomar banho no chuveiro gelado pelada de porta fechada pra ninguém ver seu corpo, estremeci.

Lembrei que nos meus 14 anos fiz uma viagem para Mongaguá com a família de uma amiga, íamos todos os dias a praia e estava usando maiô nos primeiros dias, depois de uma semana, ganhei um biquíni, tomei coragem e coloquei encima da marca do maiô, eu nunca fui muito encanada com essas coisas, apesar de já sentir a gordofobia, mas fui perceber e começar entender melhor o que acontecia na fase adulta.

Enfim, estava me divertindo na água, quando o namoradinho da minha amiga comentou com ela na minha frente, sem ao menos disfarçar: – Além de gorda essa marca está horrível. Fez-me mal, muito mal. Mas, ainda bem, me afastei daquele tipo de gente, porque eu queria era ser feliz.

Daquele dia em diante, tenho evitado gente assim, e ao invés de maiô, prefiro os biquínis e as pessoas que evitam julgamentos desnecessários.

Às vezes consigo, outras vezes não, mas nem sempre todas as mulheres conseguem perceber que você não é obrigada a andar com quem te trata mal, e pior ainda, quando a própria família faz esse tipo de julgamento o tempo todo.

São dessas mulheres que quero falar nesse texto, sobre todas as GORDAS que com corpos grandes, em algum momento da vida ou em vários, fomos julgadas e diminuídas por querer estar onde todos estavam se divertindo na água, usando a roupa do verão.

 

Terrorismo no Verão

Numa das reflexões levantadas pela historiadora Denise Sant’Anna que estuda o corpo gordo e a história da beleza no Brasil, em um artigo bem gostoso de ler, publicado numa revista feminista em 2014, intitulado: “Da gordinha à obesa. Paradoxos de uma história das mulheres” a autora chama a atenção do corpo gordo feminino na praia e as provas de aprovação ou reproche que existe dentre os corpos em trajes de banho no verão.

Sant’Anna explica, que não existe formalmente um júri com jurados conhecidos e provas a serem realizadas, mas que a famosa “prova da praia” existe, ela afirma que sim. “(…) a publicidade de cosméticos investe massivamente nessa imaginária prova, aguçando e necessidade de vigiar a própria aparência com uma tenacidade de fazer inveja aos policiais.”

A mídia e sempre ela, mostra a sociedade como o corpo deve se vestir, estar, medir, principalmente quando está em trajes de banho. Também apresenta massivamente a caça as bruxas dos corpos gordos e a patologização da “obesidade”.  Assim,

(…) nada escaparia aos olhares dirigidos às silhuetas banhadas pela luz solar: qualquer ponta de celulite, todos os quilos a mais ou músculos a menos, além de manchas e flacidez estariam flagrantemente expostos à crítica alheia. O pior é que, segundo aqueles mesmos conselhos, esta revelação da aparência física ainda corre o risco de dar lugar a outras, mais profundas, tais como a suposição de que corpos fora do padrão estariam em desacordo com a vida moderna, indicando uma vontade fraca, “baixa autoestima”, alguma doença, pobreza ou mesmo falta de higiene. ( Sant’Anna, 2014).

 

 

Revistas, programas de TV e anúncios bombam nas mídias com a proposta à melhoria física ao alcance de todos: desafio verão, treino verão, projeto corpo verão, barriga chapada verão, tudo encima pro verão, dieta do verão, treino enxuga pro verão e assim vai…

Segundo a historiadora, existe um ar terrorista em todos os verãos, numa corrida por apresentar o corpo em trajes de banho exatamente como as medias impõem: um corpo magro, malhado e bronzeado de preferência.

Por isso, a fórmula “prepare-se para o sol” – que poderia ser um aviso com gosto de descanso e contentamento, pois coincide com férias, calor, possibilidade de se divertir e repousar – evoca um rol imenso de tarefas a cumprir, com muita disciplina e inabalável esforço: é preciso fazer dieta, nutrir a pele e os cabelos, empenhar-se em exercícios físicos, decidir por cirurgias plásticas, depilações, escova progressiva, ingestão de cápsulas para melhorar o bronzeamento e tantos outros tratamentos que incluem diferentes intervenções no corpo, externas e internas, muito gasto de dinheiro e tempo. Ou seja, para tirar a roupa e expor o corpo quase nu em praias e piscinas é preciso um longo e custoso preparo. Até recentemente na história, era necessário um longo e custoso trabalho para se vestir. Atualmente, o fardo também é de peso para quem quer se despir. (Sant’Anna, 2014).

Assim, que não existe descanso na hora de descansar, nas férias não há divertimento na hora de se divertir, muito pelo contrário, nós mulheres através de uma opressão estética irracional, devemos estar preparadas, com muito esforço e cuidado para apresentar um corpo aceito para que a vitrine social do verão aprove ou reprove nosso corpo nesse cenário.

Junto a essa aprovação social, caminha lado a lado todo um estigma e julgamento daquelas que não conseguirão se esforçar o suficiente para a conquista do corpo perfeito. São fracas, desleixadas, preguiçosas, sujas, inúteis e assim por diante.

Para qualquer mulher, o tão conhecido “projeto verão” pode se tornar uma experiência triste e traumática, mas para uma mulher gorda, o verão pode ser o grande “projeto terror”, existem mulheres gordas que se suicidam por não conseguirem o corpo magro conquistado por algumas, existem outras ainda, que se mutilam, choram, se isolam e desenvolvem síndrome do pânico, medos sociais, traumas, fobias, etc.

Essas mulheres já sofrem gordofobia o ano todo, mas no verão essa pressão, esse julgamento multiplica e pode ser mais cruel, dependendo de como a mulher gorda está e com quem está acompanhada, as consequencias podem ser doentias.

 

Direitos Humanos: Direitos aos gordos curtirem o verão

A ONU define que: “Os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição.”

Quando falamos que a gordofobia é muito mais profunda que qualquer pressão estética que uma mulher venha sofrer, estamos falando da perda de direitos, direitos esses básicos, como no caso aqui exposto das pessoas gordas curtirem o verão, usarem a roupa de banho que escolherem e se sentirem bem, sem medo a julgamentos e humilhações.

Poder entrar no mar, piscina, mangueira ou caixa d’água do jeito que bem quiser e sorrir, curtir, se refrescar, também é um direito! Todos devem ter o direito a ser feliz, vocês não acham?

A gordofobia nesse caso, já começa na hora de comprar uma roupa de banho numa numeração maior, é quase um martírio e nem a indústria, como o comércio estão preparados para atender essa clientela.

Numa experiência ano retrasado no Rio de Janeiro, duas amigas foram às compras de biquínis, a mulher magra usa numeração 42-44 e a gorda usa 58-60, visitaram dois shoppings e um comércio popular, a amiga magra comprou dois biquínis e um maiô que eram de seu gosto, pode escolher peças que estavam em promoção, provou alguns e encontrou rapidamente o que queria, o tratamento das vendedoras foi atencioso e assertivo no atendimento a cliente magra. Enquanto isso, a amiga com corpo maior, não achou em nenhum estabelecimento trajes de seu tamanho, as vendedoras a trataram com descaso e indicavam lojas com tamanhos “especiais ou maiores”. Exausta de tanto buscar, descobriu na internet, no dia seguinte, uma loja que vendia tamanhos maiores e lá encontrou um biquíni a seu gosto, mas no corpo não se sentiu confortável, assim preferiu comprar um maiô que se sentiu mais confortavelmente, contudo só tinha preto e azul marinho, não tinha nada colorido e alegre, e o preço mais caro que toda a compra que a amiga magra gastou. Como observamos a gordofobia já começa na hora de ter acesso ao consumo do traje de verão.

Ainda sobre sofrer gordofobia a vida toda por ter um corpo maior que o estabelecido, conversei com uma moça de 17 anos que mora em Natal pela net, ela me disse:

Moro bem perto da praia, na minha casa tem piscina, verão aqui na cidade é uma alegria, todos de férias curtindo o mar, a piscina, usando roupas curtas, se refrescando, a família toda se reúne na praia. Pra mim sempre foi um inferno, nunca pude ir a praia como queria, só ia porque minha mãe me obrigava, e de bermuda e camiseta, chorava tanto depois. (…) Já tentei me matar muitas vezes, tenho o braço todo marcado, uma vez tomei uns remédios da caixa da minha mãe de remédios e fiquei internada 15 dias quase fui, queria ter ido, todas as minhas tentativas terminavam em frente ao psiquiatra, tomando remédios. (…) Minha mãe parou de me obrigar ir a praia e emagrecer, nunca mais fui: eu odeio o verão, mas amo a praia. (…) Ano passado estava passando de carro com minha tia na orla da praia e vi um grupo de mulheres gordas com faixas e gritos “Vai ter gorda na praia Sim!” elas infernizaram o verão de Natal, as vi em vários pontos da cidade, eu tive vergonha de chegar perto, mas pesquisei na internet e descobri que tem um monte de mulher gorda, como eu, usando biquíni e indo na praia, fiquei feliz e tive vontade de me juntar a elas. (2018).

 

Parecido a esse depoimento já li inúmeros deles, de diversos lugares do Brasil e América Latina, narrativas que falam sobre mulheres que nunca conseguiram curtir o verão pela gordofobia que sofrem; algumas superam, infelizmente outras não.

Por isso que o ativismo gordo é responsável, muitas vezes, pelo empoderamento gordo. Estar em contato, conhecer e pesquisar sobre o corpo maior é importante, porque é nele que podemos nos espelhar, vendo mulheres se libertando dessa opressão, vendo gordas empoderadas acaba sendo uma inspiração  de libertação de toda essa humilhação  e entender que ser feliz com o próprio corpo é Nosso Direito.

 

O Ativismo Gordo liberta

 

O MEU CORPO É RESISTÊNCIA

Todo dia uma mulher gorda é xingada na rua. Todo dia uma mulher gorda é mal atendida por um médico. Todo dia uma mulher gorda ouve uma mulher magra dizer que está gorda (e que isso é a coisa mais terrível que pode acontecer em sua vida). Todo dia uma mulher gorda é olhada com desprezo numa academia. Todo dia uma mulher gorda é julgada num restaurante. Todo dia uma mulher gorda é escondida pelo seu namorado (que sente vergonha de amar uma mulher fora dos padrões). Todo dia uma mulher gorda é rejeitada numa entrevista de emprego. Todo dia uma mulher gorda quebra uma cadeira (feita pra pessoas magras). Todo dia uma mulher gorda escuta que ela é bonita, mas apenas de rosto. Todo dia uma mulher gorda é classificada como uma pessoa sem vida sexual. Todo dia uma mulher gorda causa espanto por ser feliz. Todo dia é dia de resistência. (VIEIRA, 2016).

 

 

O Ativismo Gordo tem aparecido nesse cenário para contestar essa padronização do corpo belo magro, mulheres que também sofreram por ser gordas socialmente e tentaram de diversas formas se adequar ao estabelecido, mas por dentro não estavam felizes e não se aceitavam como eram, nem todo mundo consegue ter um corpo magro, existe inúmeros canais anti gordofobia e empoderamento no Brasil e no mundo que reverbera essa situação: Mulheres gordas que mudaram a maneira de ver e sentir o próprio corpo no mundo.

Além dessas experiências, existem pesquisadores-ativistas- sobre a temática contestando o que profissionais da saúde afirmam sobre o corpo gordo ser doente. São pessoas que usam suas pesquisas para propagar essas discussões e que colocam acima de tudo a integridade das pessoas gordas e o direito a existirem e resistirem.

Resistir a esse terrorismo pela beleza de ter um corpo magro faz desses corpos, corporalidades políticas subversivas que mostram ao mundo que existimos e temos o direito a sermos felizes com os corpos que temos.

No livro de Sant’Anna sobre a história da Beleza no Brasil, explica a obediência feminina pela busca do corpo verão, que já acontecia nos anos 60 e 70,

Com a voga internacional dos três S (sun, sex and sea), o corpo jovial, magro e bronzeado transformou-se num grande símbolo de beleza, saúde e sensualidade. Em 1944, havia sido criado o primeiro creme de bronzear Coppertone. Mais tarde, a beleza feminina foi pedir morada entre aquelas que conseguiam uma aparência cujas marcas de biquíni fossem bem nítidas. Para dourar a pele valia tudo: receitas mirabolantes eram trocadas entre garotas obedientes a uma disciplina impecável de exposição ao sol. Elas mais do que eles, dedicaram-se ao bronzeamento em praias, piscinas e quintais: meia hora de frente para o sol, sem se mexer muito, e meia hora deitada de bruços. (Sant”Anna, 2014, p. 128-129).

 

Obediência essa se repete nos dias atuais, e junto a toda essa conformidade, por outro lado, também vem surgindo mulheres que questionam a padronização corporal. Discussões levantadas pelo ativismo gordo, por exemplo, como: para quem emagrecemos e para quem fazemos todos esses esforços de aprovação social de corpo belo e magro? E porque vale tudo para estar magra e bela? O que é mais importante o que os outros pensam de seu corpo ou o que você sente sobre ele?

Mediante a questionamentos dessa natureza, a visão crítica sobre estar no mundo, modifica a consciência dessa imposição sobre o próprio corpo, que também vai passar por um pensamento mais crítico e mais humano perante ao estigma que a sociedade em geral nos apresenta desde a infância.

 

“Conhecer é poder”, já disse Francis Bacon e é disso que trata o ativismo, apresentar outras possibilidades de conhecer e responder as imposições sociais sobre os corpos que não estão nos padrões capitalísticos de consumo, muitas vezes inquestionáveis, apenas obedecidas.

Michel Foucault explica em seu livro Microfísica do Poder, com diversos argumentos, como nossos corpos vão sendo educados desde que nascemos para seguir o imposto pelos dispositivos de poder, como a beleza, a sensualidade, obediência, aceitação e assim por diante.

O domínio, a consciência de seu próprio corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo (…) tudo isso conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos soldados, sobre o corpo sadio. (Foucault, 1979, p.146)

 

Romper com essa maneira de estar no mundo, é propor um corpo político, que resiste a ser padronizado como belo, saudável e magro. Rotulados, etiquetados e colocados na vitrine verão, como modelo do ideal a ser seguido e conquistado.

Quebrar com isso é revolucionário, porque se resiste à obrigação de ser o que não se é, estar contra o que se é esperado e que não se sintam mal por não estarem dentro do padrão, aceitando seu corpo como é, acaba quebrando toda uma concepção do que é ser belo e feminino na visão capitalística.

Muitas mulheres que fazem parte do ativismo gordo pararam de lutar com a balança, regimes absurdos, plásticas, academias, espelhos e agora se aceitam como são, transformando seus corpos em corpos criativos, políticos de luta.

Essas militantes são felizes, estão felizes porque buscam no mundo o seu lugar como são e não como querem ou estipularam que deveriam ser. Mulheres, que já não aceitam de maneira alguma seguir pela busca, seja como for, pela padronização da estética feminina magra.

É de empoderamento político que estou falando, do empoderar proposto pelo feminismo negro, que Joice Berth explica tão lindamente em seu livro O que é empoderamento?

Partimos daqueles e daquelas que entendem empoderamento como a aliança entre o conscientizar criticamente e transformar na prática algo contestador e revolucionário na sua essência. Partimos de quem entende que os oprimidos devem empoderar-se entre si e o que muitos e muitas podem fazer para contribuir para isso é semear o terreno para tornar o empoderamento fértil, tendo consciência, desde já que ao fazê-lo entramos no terreno do inimaginável: o empoderamento tem a contestação e o novo no seu âmago, revelando, quando presente, uma realidade sequer antes imaginada. É sem dúvidas, uma verdadeira ponte para o futuro. Vale dizer que há a importância de se empoderar no âmbito individual, porém é preciso que também haja um processo conjunto no âmbito coletivo. Quando falamos em empoderamento, estamos falando de um trabalho essencialmente político. (BERTH,2018, p.129-130).

 

Esse novo corpo que faz questão de ocupar os espaços que sempre foram negados a ele é um corpo que acontece, político, assumido e provocativo já que é indesejado.

A proposta de aparecer é subverter a lógica estabelecida e resistir nesses lugares antes proibidos e censurados. Assim, esse corpo gordo da mulher que se impõe é político e provocador, mostrando aos sujeitos que se pode estar no mundo e ser feliz tendo outro corpo que não o estipulado como belo e saudável.

Assim, que acompanhar essas mulheres corajosas e revolucionárias faz bem, impulsiona nosso ser político e contestador das regras verberando uma nova maneira de ver e estar no mundo.

Para Lazzarato em seu livro “As revoluções do capitalismo”, existe um corpo que acontece como resistência ao controle dos corpos, experimentando outros corpos possíveis.

A ação política é uma dupla criação que acolhe simultaneamente a nova distribuição de possibilidades  e  trabalha  por  sua  efetuação  nas  instituições, nos  agenciamentos  coletivos  “correspondentes  à  nova subjetividade”  que  se expressa  através  e  no  acontecimento.  A efetuação de possíveis é, ao mesmo tempo, um processo imprevisível, aberto e arriscado. (LAZZARATO, 2006, p. 20).

 

 

Para Consultar:

BERTH, Joice. O que é Empoderamento? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 17.ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

LAZZARATO, M. As revoluções do capitalismo: A política no império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

ONU. https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/

VIEIRA, T. O meu corpo é resistência. Blog Gorda Zen. Disponível em: http://gordaezen.com.br/selfie-empoderada/o-meu-corpo-e-resistencia. Acesso em 13/ 05/2016.

SANT’ANNA, Denise.  História da Beleza no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

SANT’ANNA, Denise. Da gordinha à obesa. Paradoxos de uma história das mulheres. Disponível em: https://www.labrys.net.br/labrys25/corps/denise.htm

 

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