imagens reproduzidas da internet

Cristiano Ronaldo

Recentemente foi reaberto um caso de estupro possivelmente cometido pelo jogador Cristiano Ronaldo em 2009 durante uma passagem por Las Vegas. A vítima Kathryn Mayorga alega que Cristiano a atacou e forçou a relação sexual após ela ter recusado fazer sexo oral nele. Existem rumores também de que ela teria sido coagida a assinar um acordo de confidencialidade, onde se comprometia a manter silêncio sobre o caso, além de destruir as provas. Para alguns de certa forma um acordo desse tipo significa que houve o estupro e com isso uma tentativa de abafamento do caso por parte de Cristiano. Há também indícios da existência de exames médicos que comprovam vestígios de penetração sexual violenta e sem o uso de preservativo.

Johnny Depp

Em 2016 começaram as polêmicas sobre violência doméstica envolvendo o ator Johnny Depp quando vieram à tona relatos de que ele teria agredido sua então esposa Amber Heard. Com o passar do tempo os índicios tornaram-se cada vez mais fortes com a divulgação de fotos das agressões, vídeo de Johnny Depp completamente descontrolado ofendendo Amber, além de inúmeras histórias sobre alcoolismo, possível abuso de drogas, agressividade inclusive no ambiente de trabalho e a incapacidade até mesmo de decorar falas por estar sempre dopado, levando a necessidade da utilização de um ponto eletrônico.

Janet Jackson

Antes de tudo isso, em 2004 ocorreu a maior polêmica da história do Superbowl: durante uma apresentação Justin Timberlake  “acidentalmente” arrancou um pedaço do figurino de Janet Jackson que cobria o seio dela e o deixou amostra por alguns segundos. Dali para frente enquanto Justin “se fingiu de morto”, a carreira de Janet despencou e ela nunca mais conseguiu o sucesso que havia a tornado a maior estrela da família Jackson ao lado do irmão Michael. A sociedade americana extremamente racista, machista e conservadora incentivada pela mídia, promoveu um boicote ao disco seguinte e todo o trabalho de Janet Jackson a seguir, enquanto a carreira de Justin Timberlake decolou.

*os links para ler detalhes dos três casos, além de textos de apoio e informações complementarem estarão disponíveis no fim do texto*

PANORAMA

Quando o assédio envolvendo o produtor de Hollywood Harvey Weinstein se tornou público, iniciou-se no Twitter uma campanha que ficou conhecida como #MeToo, em que mulheres encorajadas por essa denúncia relatavam seus próprios casos de assédio. A iniciativa foi abraçada por atrizes e personalidades femininas em geral e ganhou uma imensa adesão e visibilidade em premiações de cinema. A onda atingiu até mesmo o ator Kevin Spacey denunciado pelo também ator Anthony Rapp que revelou ter sido assediado por Kevin quando tinha apenas 14 anos.

Tanto as acusações contra Harvey Weinstein quanto contra Kevin Spacey deram início a uma avalanche de outras denúncias, comprovando que apesar de profissionais extremamente respeitados no meio e com uma contribuição sólida a sétima arte, a conduta sexual criminosa era um hábito recorrente na vida de ambos. Isso revela além do que nós vamos tratar aqui, o quanto homens poderosos se sentem no direito de assediar e abusar de pessoas da forma mais natural possível.

A carreira de Harvey Weinstein entrou em declínio, mas a de Kevin Spacey foi completamente destruída, já que na época ele foi demitido da série House of Cards pela Netflix, teve sua participação no filme All The Money in the World totalmente removida e substituído por outro ator, além de ter perdido menções em outras produções e ter recebido repúdio público de vários artistas que se diziam seus fãs.

Apesar de importante para demonstrar ao grande público que ninguém é intocável quando se trata de assédio sexual, a punição pública a Kevin Spacey foi uma raridade.

No caso de Cristiano Ronaldo por exemplo, seus patrocinadores apresentaram hesitação e demora em suspender a participação do jogador como garoto propaganda de suas marcas, uma inclusive alegando benefício da dúvida e até o fechamento dessa matéria nem uma oficialmente havia retirado o patrocínio.

Já com Johnny Depp a situação é ainda pior, pois o ator além de ter tido pouquíssimo ou quase nem um respingo em sua imagem pública, teve sua participação em um dos filmes mais importantes dos últimos tempos mantida e protegida por J. K. Rowling autora da franquia Harry Potter e estreante como roterista com “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.

J. K. Rowling era venerada pelos fãs de HP dentre outros motivos por de alguma forma a história abordar a questão das minorias, de abraçar suas diferenças e respeitar as alheias, o fato de a equipe ter ignorado completamente isso e o mantido, demonstra a permissividade com que homens envolvidos em escândalos sexuais ainda são tratados na indústria.

Independente de acordos de confidencialidade, da discussão sobre demora em denunciar, retirada de denúncias e vítimas desmentindo os casos de agressão, o ponto aqui é a diferença clara de tratamento entre homens e mulheres quando se trata de polêmicas, sexualidade e comportamento.

Mas há de ser levar em consideração que além de tudo, pessoas expostas a relacionamentos abusivos e experiências traumáticas passam por um processo de negação da realidade, e o que pode parecer óbvio para quem está de fora, é desconsiderado pela vítima, e pode explicar o “mas por que ela não denunciou?” ou “por que ela retirou a denúcia?”

Voltando a Janet, apesar dos rumores de que o incidente com o figurino teria sido coreografado, ainda que ela estivesse ciente disso, não havia motivo algum para que fosse praticamente excomungada do meio. Ainda mais levando em consideração que é muito mais plausível o fato de ter sido um erro mesmo que não intencional por parte de Justin Timberlake, já que ele foi o responsável por arrancar o pedaço do figurino.

Janet Jackson uma das maiores artistas do planeta com um legado incontestável para a música pop, foi execrada por um incidente e conclusões que de alguma forma ela tenha sido responsável por deixar seu seio à mostra como se isso a desqualificasse, enquanto a mídia e fãs continuam se desdobrando para culpabilizar as vítimas tanto no caso de Johnny Depp quanto no caso de Cristiano Ronaldo.

Ignora-se completamente o fato de que mulheres são constantemente pressionadas a ficarem caladas quando são vítimas de crimes sexuais por parte de homens famosos e que muitas vezes acordos são assinados com base em pressão psicológica, reforçando a ideia de que mulheres precisam ser 100% responsáveis por tudo e aguentar as consequências, inclusive ter suas vidas completamente vasculhados em prol de encontrar qualquer indício que exima os homens da culpa ou de pelo menos responder por seus atos.

Não somos aqui de forma alguma juízas para condenar o ator ou o jogador, o papel é da justiça, mas é extremamente necessário começar a contestar e desconstruir de dentro para fora esse machismo institucionalizado.

Nós como mulheres, consumidoras de entretenimento e portanto parte fundamental disso, além de feministas, precisamos começar a estabelecer critérios justos para colocar na balança até que ponto a vida pessoal de um artista ou uma atitude em relação ao seu próprio corpo pode ser separada de sua vida profissional. Como fãs de homens atores, cantores, jogadores ou que exerçam qualquer trabalho como figuras públicas, precisamos ser as primeiras a exigir que eles respondam por seus atos e nos desprender da ideia de que assédio e abuso “tem cara” e não poderiam ser cometidos por um rostinho bonito ou pelo “cara incrível que atuou no filme que eu amo”.

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Fontes:

Caso Cristiano Ronaldo

Patrocinadora que manteve apoio

Vídeo de Carol Moreira explicando todo o caso Johnny Depp

Caso Janet Jackson

Sobre a campanha #MeToo

Caso Kevin Spacey

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