Semana passada fui ao salão cortar bem curtinho meu cabelo e a cabeleireira me fez duas perguntas que me trouxeram a escrever sobre a beleza, não que esse tema já não exista em minhas reflexões, pois acredito que desde sempre,o que é ser belo esteve presente em meus pensamentos e observações de mundo, principalmente porque nunca fui o padrão de beleza das épocas em que vivi e portanto, sempre fui descriminada por isso.

A moça me perguntou se meu marido não ligava para que eu cortasse meu cabelo tão curto assim: – Homem gosta de mulher com cabelo comprido. E, logo em seguida me disse que muitas poucas mulheres ficam bonitas com cabelo tão curto, dando a entender que eu não ficaria. (risos).

Nessas perguntas, e como é um tema que me acompanha desde sempre, ressuscitam dentro de mim duas temáticas a serem pensadas por aqui, a primeira é sobre o poder masculino no padrão de beleza feminino, e a segunda é sobre a importância da beleza para as mulheres. Esses dois temas serão, portanto meus eixos centrais em minhas reflexões nesse texto.

 O que é ser belo?


 

Desde a Grécia Antiga refletir sobre a beleza e os julgamentos do que é considerado belo e bom, é uma temática presente até os dias atuais na Filosofia. Diversos filósofos indagam entre outras questões, se a beleza é universal ou relativa de acordo com as diferentes culturas e épocas, e o que ser belo significa para as sociedades e pessoas que nelas habitam.

Algumas perguntas acompanham os filósofos, independente da época, em suas reflexões sobre o belo, como por exemplo, será que o que é belo para mim é da mesma forma belo para todos? Ao longo da história da humanidade, o conceito de beleza sempre foi o mesmo? Ou ainda, por que desde sempre os sujeitos buscam a beleza como algo bom e talvez seja, uma das qualidades humanas mais perseguidas pelas mulheres?

Todos esses questionamentos são importantes porque nos fazem pensar sobre a invenção do que é ser belo e da ligação da conquista da beleza com felicidade e aprovação social principalmente para mulheres, que aprendem desde pequenas que a beleza é fundamental.

Na década de 90, com a liberação das importações no Brasil, segundo Denise Sant’Anna em seu livro A história da beleza no Brasil, explica que” (…) o mercado de maquiagem para crianças ganhou uma visibilidade inusitada na mídia. Segundo a Anvisa, o Brasil se transformou num dos maiores mercados de cosméticos infantis. (…) O Brasil é o segundo no ranking mundial do consumo de produtos infantis para a beleza e higiene, abaixo apenas dos Estados Unidos e seguido pela China em terceiro lugar.”

Embelezar crianças é um grande atrativo financeiro a empresas de moda, cosméticos, maquiagem, etc. Sant’Anna mostra que a partir de 2000 apareceram salões de cabeleireiro infantis em muitas cidades brasileiras, o concurso de miss também invadiu o universo infantil.

Desde pequenas somos impulsionadas a competir pela beleza, custe o que custar, o surgimento da boneca Barbie e a “barbierização dos padrões”, impulsionam meninas desde muito pequenas a construírem corpos e estilos da boneca a qual brincam e se espelham.

Essas questões são discutidas pelo feminismo há décadas, e de alguma maneira, o levantamento da pauta que a questão de ser bela para a mulher deve ser prioridade na vida feminina, como uma grande farsa de dominação patriarcal.

Se questionarmos o que é ser bela? E fizermos uma análise minuciosa do que se foi belo há alguns séculos atrás, perceberemos que a beleza é uma construção social dos poderes vigentes da época.

Para Umberto Eco no livro História da Beleza, o autor mostra que existe uma associação do belo ao bom, ao correto. E depois dessa afirmação mostra como durante a história humana essa máxima esteve ligada a manutenção da elite pela beleza e bondade. O autor também apresenta as mudanças desse conceito de beleza, demonstrando que o que é ser belo muda e, portanto é uma construção social.

Em outro livro, História da Feiura, Umberto admite que “(…) é divertido buscar a feiura, porque a feiura é mais interessante que a beleza. A beleza frequentemente é entediante. Todo o mundo sabe o que é a beleza.”

Portanto, se a beleza é um conceito mutável, a feiura é o oposto daquilo que se decidiu culturalmente normatizar pelo melhor, o belo. As mulheres sofrem com essa imposição social, e para se libertarem é preciso uma busca para entender essa construção histórica/cultural, talvez seja o primeiro passo para desvendar que a beleza exista socialmente e, portanto não é uma regra que deve ser seguida sem questionamentos. Aliás, a beleza não pode ser uma regra na vida das pessoas, já que é uma construção social e veremos como acaba sendo cruel com todas as mulheres, mesmo que mais com umas e menos com outras, todas sofrem com a imposição da busca pela beleza, e como esse conceito nunca será alcançado.

O que é ser bela muda conforme a época e cultura, assim nossos corpos também mudam, contudo a corporeidade não tem conseguido acompanhar toda essa tecnologia atual da beleza, corpos malhados e magros, bocas espessas, seios firmes, cílios grandes e grossos, cinturas finas, cabelos loiros e lisos, e nos últimos anos até a vagina deve ser “perfeita”, etc.

Com o advento do capitalismo e a terceira revolução industrial, o conceito de beleza em nossa sociedade contemporânea muda constantemente os padrões, com uma rapidez assustadora, e talvez não consigamos acompanhar o estabelecido como belo no mundo pós moderno.

O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisa o mundo contemporâneo como sociedade líquida, na qual se caracteriza pela “Incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades autoevidentes”.

Portanto, obedecer ao que é ser belo em tempos atuais chega a ser impróprio e obtuso. Essa cobrança por um padrão que têm sido cada vez mais restritos e exclusor, pode matar mulheres que não percebam a tempo, o que é ser bela no mundo atual.

Segundo o Jornal da USP em fevereiro desse ano, “O Brasil lidera ranking de cirurgia plástica entre jovens.” O sociólogo especialista em Saúde Pública, Francisco Romão Ferreira, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ. Explica que, “Há uma preocupação excessiva com o corpo. Não só em termos de cirurgias plásticas, mas a quantidade de academias, salões de beleza e de farmácias no Brasil é algo gritante quando você compara com outros países. E essa preocupação estética está naturalizada no cotidiano e não para de crescer.”

“No Brasil, existe um padrão estético da vagina perfeita: simétrica, rosa ou branca, sem pelos, sem excesso de gordura”, diz Marcelle Jacinto da Silva, doutoranda em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), que trabalha sobre a questão em sua tese. Com outros dois pesquisadores, ela assina o artigo científico “A vagina pós-orgânica: intervenções e saberes sobre o corpo feminino acerca do embelezamento íntimo”, que trata das cirurgias íntimas realizadas por mulheres brasileiras.

A busca por esses protótipos é tão forte no nosso país que a moda agora é operar a vagina, procedimento chamado de labioplastias, a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) aponta que, “13 mil labioplastias foram realizadas em 2016 no Brasil, com um aumento de 39% em relação ao ano anterior. Segundo especialistas, a maioria desses procedimentos não é realizada por uma questão funcional, mas puramente estética.”
Ela explica para a Carta Capital que, “esse ideal da vagina perfeita é primeiramente imposta pelas mídias, mas também pela indústria pornográfica, cujos conteúdos passaram a ser facilmente acessados na era da internet. Mas o que motiva essas mulheres a se submeterem à dolorida e, muitas vezes desnecessária cirurgia íntima, é o desejo de maridos, namorados e parceiros sexuais.”

De acordo com Marcelle Jacinto da Silva, “o corpo feminino é cada vez mais explorado e hipersexualizado no Brasil. As mulheres são intensamente bombardeadas pelas normas sociais. Há toda uma obrigação de elas serem vaidosas, cuidarem do físico, de manter uma imagem e as mulheres são alvo deste fenômeno.”

Parece que, os sofrimentos dessas intervenções superam a vontade de ser belo, contudo pensemos que, se a beleza é uma ideia abstrata e serve como dispositivo de poder, já que ser bela no mundo atual tem sido uma imposição masculina, branca da elite, a pergunta a ser reformulada é: Somos belas para quem?

Michel Foucault em Vigiar e Punir, explica que o corpo é estabelecido através das relações existentes entre discurso e poder. Dessa maneira, demonstra que a gestão do corpo em nossa sociedade esta intimamente ligada com formas de controle e disciplina.

O poder masculino no padrão de beleza feminino


Naomi Wolf, em seu livro o Mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, já nos alertava em 1991, que a beleza é  uma criação patriarcal para dominação das mulheres, que acabam se detendo a busca pela beleza como principal critério de sobrevivência nas sociedades ocidentais. Para Wolf, “Se o mito da beleza não se baseia na evolução, no sexo, no gênero, na estética, nem em Deus, no que se baseia então? Ele alega dizer respeito à intimidade, ao sexo e à vida, um louvor às mulheres. Na realidade ele é composto de distanciamento emocional, política, finanças e repressão sexual. O mito da beleza não tem absolutamente nada a ver com as mulheres. Ele diz respeito às instituições masculinas e ao poder institucional dos homens.”

A imposição da beleza nas mulheres e essa busca a qualquer custo pelo universo feminino, já vem sendo denunciado pelo feminismo e estudiosos sobre o tema, a beleza sempre foi uma exigência que determinou quais lugares sociais a mulher deveria ocupar, e mesmo as mais belas sempre serão observadas como troféus masculinos.

Essa imposição e consequentemente a busca por ser bela leva a mulher a focar todas suas forças e ideias nesse campo, se esquecendo que a beleza nunca foi uma característica que preencheu nossas expectativas como felizes, mulheres que buscam ser o que querem ser. A beleza nos trás uma história de tristeza, frustrações e sofrimentos.

Desde os contos de fadas que apesar de serem demonstradores de mulheres boas e que terminam com finais felizes para as brancas e belas, podemos fazer uma releitura das perseguições e tentativas de assassinatos que acontecem contra essas mulheres “belas”. A branca de neve, por exemplo, que precisa fugir e come a maçã envenenada, assassinato cometido por outra mulher que queria ser tão bela como a princesa. Esse fato é apenas uma exemplificação que as mulheres consideradas belas pelo termômetro social acabam pagando preços altíssimos por serem consideradas bonitas.

A competitividade feminina também transpassa pela temática da beleza, quem chama mais atenção, com quem se casou, se os filhos são belos, e assim por diante.

Essa construção de beleza socialmente mata e machuca mulheres até hoje, nos querem bonitas e obedientes, e quando algo sai desse controle masculino nos matam, machucam e excluem.

Numa sociedade patriarcal, onde a mulher é objeto de desejo, cria-se mecanismos de controle no qual as mulheres desde muito pequenas busquem a beleza como objetivo final de sobrevivência. Sem perceberem que essa busca pode anular tudo que se sente e se quer buscar numa vida a ser vivida por si mesma.

A desconstrução da importância da beleza para as Mulheres


Naomi Wolf, em seu livro O mito da beleza nos alerta pra toda essa obsessão pela busca da beleza pelas mulheres, enquanto os homens estudam, viajam e curtem, a mulher aprende desde sempre que a construção de um corpo belo deve ser prioridade em sua vida, tenho ouvido muito a fala: “Se eu não fizesse essa cirurgia não poderia ser feliz”, ou “Se eu não emagrecesse não teria como me sentir bem”, ou ainda “ “se eu não cuidasse do meu corpo não encontraria um cara legal para casar”, mesmo parecendo falas do século passado,  posso garantir que essas afirmações ainda são presentes.

Como disse Wolf, “O mito da beleza tem uma história a contar. A qualidade chamada “beleza” existe de forma objetiva e universal. As mulheres devem querer encarná-la, e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem. Encarnar a beleza é uma obrigação para as mulheres, não para os homens, situação esta necessária e natural por ser biológica, sexual e evolutiva. Os homens fortes lutam pelas mulheres belas, e as mulheres belas têm maior sucesso na reprodução. A beleza da mulher tem relação com sua fertilidade; e, como esse sistema se baseia na seleção sexual, ele é inevitável e imutável. Nada disso é verdade. A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer, sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino. Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo as quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram.”

Estamos dessa maneira destinadas a sermos belas e obedientes aos padrões do que é ser uma mulher “que valha a pena” para o homem. Dentro dessa reflexão, essa imposição é violenta e devastadora, e nem todas estamos dispostas a chegar ao ponto de fazer qualquer coisa para alcançarmos o ideal de beleza estipulado por um mundo masculino e cruel.

Muito pelo contrário, a ditadura da beleza tem sido cada vez mais radical e cruel, e por isso mesmo, têm surgido muitas mulheres que estão se dando conta de como essa tal de “beleza” pode não ser tão importante como lhes ensinaram, que talvez seja mais urgente ser inteligente, forte, viajar, ler bons livros e não passar a vida toda se olhando no espelho, buscando aprovação para ser feliz.

Pode-se ser gorda e ser feliz, pode-se ter cabelos curtos e ser feliz, pode-se ter celulite e ser feliz. Pode-se ser o que se quer ser e viver a vida como se é e em busca de nossos interesses, a revolução será feminina.

 

Para consultar:

Denise Sant’Anna,.  História da Beleza no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

 

Marcelle Jacinto da Silva; Antonio Cristian Saraiva Paiva, Irlena Maria Malheiros da Costa. A vagina pós-orgânica: intervenções e saberes sobre o corpo feminino acerca do “embelezamento íntimo. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832017000100259&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

 

Naomi Wolf. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

 

Umberto ECO. História da feiúra. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record,

2007.

Umberto ECO. História da Beleza. São Paulo: Record, 2004.

 

Zygmunt Bauman. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Zygmunt Bauman. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

 

 

JORNAL USP – https://jornal.usp.br/radio-usp/radioagencia-usp/brasil-lidera-ranking-de-cirurgia-plastica-entre-jovens/

 

Carta Capital – https://www.cartacapital.com.br/saude/por-que-as-brasileiras-sao-obcecadas-por-cirurgias-plasticas

 

 

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