NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM!

Recebi de um grupo no Whatsapp, a foto de comemoração da posse de Bolsonaro com os dizeres: o choro é livre.

O choro é livre nas aldeias indígenas que vêem sua cultura e suas vidas arrasadas. Tendo a demarcação de suas terras sido transferidas para o Ministério da Agricultura.

O choro é livre, quando pensamos que 13 mulheres são assassinadas por dia, no Brasil, e que 40% da violência mundial contra a mulher é praticada por companheiros ou ex-companheiros.

O choro é livre, que diante desses dados alarmantes, possamos cogitar ter uma arma dentro de casa.

O choro é livre, quando olhamos para a taxa de homicídios entre os jovens. O choro é livre, pois sabemos que segundo levantamento, o Brasil bate o recorde mundial de mortes por homofobia. Ainda assim, Bolsonaro assinou uma medida provisória que retira LGBTs das diretrizes de direitos humanos.

O choro livre, incluindo aos que acreditaram optar por uma “ nova política” acordando com a notícia de que o partido do atual presidente mantará o apoio ao Rodrigo Maia para câmara.

O choro é livre, pois estamos vivendo em um estado de exceção de maneira gradual, com um ex presidente sendo mantido como preso político.

O choro é livre, para quem já vive com tão pouco e soube que o mínimo será ainda menor. Para quem sobrevive à margem da sociedade, não tendo escolha sobre sua alimentação ou vestimenta.

O choro é livre, para quem esperava um discurso claro, que demonstrasse quais seriam as providências tomadas para acabar com a miséria ( mais uma vez, pois voltamos a lidar com ela) mas só escutou um discurso incoerente e lotado de ódio.

O choro é livre, aos servidores que acordaram pela manhã estando cientes que não poderiam ter se manifestado com “Ele não”, “Fora, Temer”, “Foi golpe” “Marielle vive” pois será sumariamente demitida

O choro é livre, pois estão debatendo a escolha do tom do vestido da primeira dama, porque é esse lugar que nos reservam, como belas, recatadas e ao lado de um homem.

O choro é livre, pois temos em nossos jornais o Rafael Braga.

O choro é livre, porque mataram Marielle.

O choro é livre, porque nós estamos cada vez mais distantes de sermos.

 

Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.” – The Handmaid’s Tale

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