Chovia muito na noite em que você nasceu.
Eu, como bom pai, comemorei sua vinda. Fumei um charuto e xinguei os marmanjos que agora me falavam que eu passei a ser “fornecedor”. Fornecedor… Até parece… A minha princesinha não. Afinal, seu irmão e eu jamais deixaríamos ninguém fazer nada com você. A gente só pega as novinhas da rua, aqui em casa não. Aqui em casa, só tem mulher direita. Oras!

O tempo foi passando e você foi crescendo.
Você já era mocinha, aprendeu a ajudar sua mãe nas tarefas de casa. Aos 10 anos de idade, já sabia cozinhar mais que muita “femenistazinha” por aí. Aqui em casa, mulher sempre soube o seu lugar.
Você ia pra escola, fazia aulas de ballet. Ficava uma florzinha, a princesinha do papai, com aquela roupinha rosa. Você gostava muito do ballet. Mas filha, você já é mocinha. Essa meia é transparente… esse collant é muito apertadinho. Essa saia não cobre nada. Nem pensar! Óh! Você está muito exposta. Vai acabar feito essas meninas fáceis que tem aqui no bairro. Melhor parar com isso filha. Aqui em casa só tem mulher direita, você sabe disso.
Papai então resolveu te dar um presente. Trouxe bastantes linhas e tecidos. Você agora vai aprender a costurar. Sua mãe precisa mesmo arrumar essas barras das minhas calças. Não gosto de dobrar. Sua mãe sabe disso. Bom que você ajuda sua mãe. E tem algumas camisas pra pôr botão também.

No domingo, meu time perdeu.
Eu fiquei mesmo muito bravo com isso. Esse filho da p&%@ desse juiz. Todo mundo viu que estava impedido. Só ele que não viu.
Aí você veio me pedir pra brincar na rua. Uma hora dessas. Tarde de domingo??? Eu estava nervoso. Gritei com você. Ana, aqui em casa só tem mulher direita! Não é hora de mulher tá na rua!!
Você chorou. Sua mãe foi te consolar.
Quando ela entrou na sala pra falar comigo, eu estava realmente nervoso. Revendo os lances do jogo perdido, você chorando. Aí ainda tenho que aguentar mulher faladeira. Eu joguei a lata nela. Mas não era pra acertar. Era só pra ela calar a boca.
Pedi desculpas. Passei remédio. Coloquei um esparadrapo na testa dela.
Ela chorou e disse pra você que às vezes o papai fica nervoso mesmo. Que é melhor você ficar lá dentro. Que estava tudo bem.

Mais algum tempo se passou.
A campainha tocou.
Era um bilhete contando que eu estava de paquera com aquela vadia que vive na 3ª rua. Que bobagem aquilo. Oh povo fofoqueiro. Aposto que isso é coisas dessas piranhas que não tem nada pra fazer em casa.
Coisa de homem. Conversa de boteco. Só converso com essas vadias quando tem pagode no boteco. Nem vou todo dia! Às vezes quando chego muito estressado do trabalho, passo lá pra tomar uma e esfriar a garganta. Essas vagabundas não podem ver homem. Fico de graça com elas pra me divertir. Não é nada sério.
Você e sua mãe nunca entraram no boteco do bairro. Lá não é lugar de mulher direita.
A minha família é sagrada. Aqui em casa, só tem mulher direita.

Numa noite, depois da igreja, você chegou em casa e me disse que alguém queria conversar comigo.
Tinha um rapaz alto, bem vestido, encostado no carro me esperando lá fora.
Ele veio pedir pra te namorar.
Agora eu vi! Minha princesinha cresceu mesmo.
Ainda bem que ele é filho do nosso vereador. Homem direito. Converso com eles algumas vezes no boteco do bairro. Ele não permite que a mulher e a filha frequentem o lugar. Na casa deles, também só tem mulher direita.
Gustavo, meu agora genro, por vezes vai lá.
Moço trabalhador, se cansa também né? Esses chefes do trabalho, deixam a gente doido. Entendo ele. O importante é que ele é de família. É correto. Vai te dar uma vida boa.

Você casou.
Aos domingos, vai nos visitar.
Você e sua mãe sempre conversam muito.
Gustavo me faz rir com as piadas que me conta. Ele veio contar da vizinha… uma louca! Deixa a menina dela jogar bola! Deve ser porque não tem filho, menino homem. Desse jeito, a menina vai virar sapatão!
Ainda bem que aqui em casa só tem mulher direita.

Final de semana passada, você estava com o rosto esquisito.
Tinha umas manchas escuras. E você estava andando feito um pato torto.
Quando você chegou, eu ri. Perguntei logo… “Ana minha filha, deu pra imitar pato agora?”. Você sorriu meio de lado e me contou que caiu da escada. Mas que estava tudo bem. Foi só um tombinho bobo.
Escutei um choro vindo do quarto, quando você e sua mãe estavam conversando.
Antes de você ir embora com seu marido, perguntei se estava tudo bem entre vocês. Gustavo, me respondeu que sim. Disse que você estava naqueles dias…sabe como é né? Mulher reclama muito. Falei com ele…Ana é a minha princesa. E ele foi logo dizendo… “sei disso Seu Antônio. Trato a Ana com todo amor que ela merece. Ela só tem que fazer por merecer, né Ana?” E nós dois demos uma larga risada…

Durante a semana, notei sua mãe meio preocupada.
Ela me disse que você reclamou do ciúme do Gustavo. Mas eu a tranquilizei logo…ciúme é amor. Ele cuida de você.
E já falei logo pra ela não se meter. Briga de marido e mulher…já sabe né?

Chegou o domingo e vocês não apareceram.
Tinha jogo do timão. Quando dei por mim, a tarde já estava no fim. A cerveja acabando e sua mãe arrumando mais um tira gosto.
A campainha tocou.
Maria, vai atender a porta! Eu gritei.

Ouvi um grito tão alto, que até larguei o jogo.
“Diaxo” mulher, que gritaria é essa?
Sua mãe estava pálida. Até os olhos dela gritavam de pavor.
Do outro lado da porta, era a polícia.
A vizinhança já estava se aglomerando na porta da nossa casa. Um verdadeiro escândalo.
O carro da polícia estava parado na porta da nossa casa. Gustavo estava dentro do carro, algemado.
Você não estava com ele. Estava na sua casa.
Você estava morta.

Você estava roxa. Mas você não caiu da escada. Ele te bateu.
Ele te sufocou. Mas ninguém deu voz a você.
Ele te toliu. Mas liberdade, é coisa de mulher da vida.
Ele te proibiu de ir a padaria sozinha. Eu concordei. Aquele rapazinho do balcão, sempre te olhou mesmo. Aonde já se viu? Ficar dando bom dia pra mulher casada?

Filha, o que foi que eu fiz?
Eu te ensinei a viver assim.
Eu não te protegi.
Eu não cuidei de você.
Fiz tudo errado.

Você não falava alto.
Esperava sua vez de comer. Sua vez de falar.
Deixava sempre a casa limpa e perfumada.
Andava bem vestida e coberta.
Não era de muitos amigos.

O que eu não percebi, foi que eu criei você pra ser assim.
Calada. Submissa. Reflexo da mesma vida que eu dei pra sua mãe.
Espelho da sociedade que cala e mata.
Sem vida.

Eu que sempre disse que não era machismo. Que esses “ismo” só serviam pra acabar com a família da gente.
Criei minha princesa. Uma mulher direita.
Pra ser um número.
Estatística.
Vítima do machismo que eu fomentei por anos e não percebia.
Vítima das minhas piadas, das minhas punições, das portas que eu fechei na sua vida.
Vítima das escolhas que eu fiz por você.

Me desculpe filha.
Quem matou você não foi somente o Gustavo. Fui eu também, teu pai.

Imagem disponibilizada no Google
Arte: Negahamburger

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here