Nos últimos anos, a indústria do entretenimento vem inserindo cada vez mais em seus produtos o ideal feminista. Diferentemente do que ocorre com a indústria de bens de consumo, que muitas vezes usa frase e personagens características do movimento para lucrar, sem colocar em prática os ideais em sua estrutura interna. Acredito que, quanto mais figuras femininas fortes, que se declarem abertamente feministas, em filmes ou séries, por exemplo, melhor é para a ampliação do debate acerca de “o que é ser feminista” e de “por que o feminismo é importante”. Em resumo, vejo a indústria cultural como nossa aliada nessa jornada que visa tornar real a sentença de Chimanda, “sejamos todos feministas”.

   É evidente que ainda há MUITO a ser feito nessa esfera: as representações raciais seguem desiguais, produtores e roteiristas parecem não compreender que uma personagem não precisa terminar a série casada ou grávida (aproveito para deixar aqui meu pesar com o desfecho de Gilmore Girls)…. No entanto, o motivo que efetivamente me levou a parar para escrever este texto não foi indignação com o que segue equivocado, mas sim admiração por uma estratégia a qual pode ser extremamente bem sucedida na tarefa antes mencionada de levar o movimento a “ambientes inóspitos” e, no atual momento de ameaça constante a direitos já conquistados e ao ideal feminista. A técnica de que falo refere-se ao uso da fantasia (utopias junto a suas antagonistas, as distopias) em obras culturais como séries e livros.

“A mão esquerda da escuridão”, “O Conto da Aia”, “O Poder” – livros todos escritos por mulheres- e o filme “Eu não Sou Um Homem Fácil” – disponível no catálogo da Netflix-, foram algumas das obras que despertaram minha percepção para essa estrutura de criação de enredos. Os dois primeiros livros remontam às décadas de 1970 e 1980. Enquanto o primeiro tenta traçar o funcionamento de uma sociedade livre da binaridade “masculino/feminino”, o segundo constrói atmosfera densa, irrespirável pela violência de gênero extrema pela qual é permeada; a distopia de um governo autoritário e encabeçado por um fanatismo religioso cristão leva à revogação de direitos civis das mulheres (vulgo Brasil bozonarista de 2019) e a exploração de seus corpos como máquinas de fertilidade sujeitas a estupros mensais para suprir as demandas de reprodução do novo Estado (nada muito diferente da arbitrariedade estatal das nações que criminalizam o aborto, mas enfim…). Já os dois últimos são atuais: ambos chegaram ao alcance do público brasileiro no ano de 2018. Outra característica em comum: ambos invertem o sexismo da realidade em que vivemos, colocando as mulheres como líderes da hierarquia social. Assim, pela ausência de limites na esfera ficcional, mulheres passam a ocupar todos os espaços, se tornam maioria e isso, atrelado a altas doses de ironia e opressão reversa, permite a transmissão de uma mensagem essencial aos avanços na mudança de nossa cultura machista, mas que, pela barreira ideológica erigida por alguns homens, dificilmente seria veiculada de outra modo. O recado passado é o de que o cotidiano está sim repleto de pequenas opressões e que o poder historicamente concentrado nas mãos de homens heterossexuais brancos os permite abusar verbal e fisicamente de outros grupos. A essência desses somos nós, mulheres.

Para explicar as afirmações anteriores, vou me ater à obra de Naomi Alderman, “O Poder”. Sintetizando, seu enredo é baseado no surgimento de uma habilidade inédita entre as mulheres, a de lançar raios, eletricidade. Tal capacidade acarreta transformações sociais em todo o mundo. As mulheres àrabes, por exemplo, lideram a instauração de uma nova ordem mundial, já que agora os homens já não tinham audácia suficiente para forçá-las a permanecer nos espaços domésticos, caladas. Logo, a maioria dos cargos políticos passa a ser dominada por mulheres. O poder de emanar raios passa a simbolizar uma ameaça constante aos homens, que não mais podem sair desacompanhados, com medo de serem atacados. Acho que não há meio mais inteligente de se explicar cultura de estupro para um homem que ainda se regojiza ao afirmar que a prática não existe.

E aí reside todo o brilhantismo das mulheres por trás das obras citadas: ao inverter a organização social num universo ficcional, é possível demonstrar em ações a atmosfera violenta a que somos submetidas diariamente e, com isso, quebrar parte do negacionismo de alguns homens o qual impede  que se unam ao movimento.

Por fim, apelo mais uma vez. Que nosso consumo cultural também possa refletir nossas batalhas sociais e ideológicas. Vamos ler mulheres. Vamos assistir a filmes dirigidos por mulheres. Afinal, Conceição Evaristo – escritora nacional que perdeu a eleição da Academia Brasileira de Letras para mais um homem, hétero, branco (a diversidade manda lembranças) no ano passado, Jennifer Kent – única diretorA presente no Festival de Veneza, desrespeitada publicamente por um dos jurados  e as mulheres inexistentes na categoria de melhores diretores do Globo de Ouro são exemplos de nosso triste panorama cultural contemporâneo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here