Ser GORDA em nossa sociedade tem sido cada vez mais uma luta por direito de existir, se aceitar Gorda. Acaba-se levantando uma bandeira pelo existir do jeito que se é. Se você é GORDA e está fazendo regime, malhando e sofrendo muito, tudo bem, isso pode, mas ser GORDA e não querer fazer regime, nem emagrecer isso é abominável no mundo atual.

Em nome de TODAS AS GORDAS NO MUNDO que não querem mais entrar nessa cilada escrevo este texto.

Existem legiões da magreza do corpo que irão humilhar perseguir, excluir até que você queira “tomar uma medida”, geralmente em nome da saúde pessoas passam fome, machucam ou mutilam seus corpos para satisfazer e serem aceitas no grupo social, acredita-se que auto estima vem de fora, e querida acredite isso é uma cilada e você vai entrar em colapso, porque autoestima de fora pra dentro é mentirosa, não são as pessoas que devem gostar de você, muito pelo contrário é você que deve se olhar no espelho se ver fora do padrão e estar tudo bem, porque seu corpo tem história, é o único que você tem e ele merece respeito.

Essa legião de caçadores aos corpos gordos é extensa e nefasta, geralmente começa na família, e desde pequena se é ensinado que para sermos amadas devemos ter o corpo magro, custe o que custar, depois na adolescência se exige um padrão maluco de corpo e alma e continua valendo tudo para se encaixar: tomar remédios, malhação, jejum, vomitar, seja o que for. Na vida adulta é onde as paranóias de uma vida toda, focada em ser magra se caracterizam em depressão, dor, tristeza, chegando a acreditar que vale a pena qualquer coisa para emagrecer e que depois dessa conquista seus problemas acabarão, SQN apenas começarão.

Pensando nessa condição, na qual temos que fazer regime e estar magra, cobrança essa justificada pela saúde, para casar, arrumar namorado, entrar nas calças apertadas, usar biquíni na praia, caber numa cadeira, entre outros milhões…

Somos massacradas por essa ideia desde que nascemos, já que geralmente nossas mães, logo que nascemos querem emagrecer e voltar ao corpo que tinham antes de nosso nascimento, nem chegamos ao mundo e o ser que a gente mais depende já está preocupado em emagrecer, que sentimento é esse que nos é passado desde que damos a nossa primeira mamada: alívio pelo parto, amor pelo filho, mas muita insegurança pelo corpo que mudou, inchou e cresceu.

O que é fato, “natural”, trata-se como abominação, cada vez mais frequente vermos gestantes em academias, dietas, inúmeras matérias, dicas e produtos de como ser uma grávida saudável e fitness, perfis no istagram bombam o passo a passo de mulheres gestantes pegando pesado na malhação.

O pavor de engordar na gestação leva muitas mulheres a fazerem qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, e sempre disfarçada pela preocupação à saúde, sustentado pelo discurso saudável para não engordar nem na gravidez.

O entendimento midiático normatizado de saudável pelo discurso médico, não considera a subjetividade, as histórias de vida, os afetos, as relações familiares, ou seja as dimensões culturais locais, nota-se que no cenário econômico/político mundial a busca pelo corpo saudável caminha na contramão do que pode se considerar saúde.

O filósofo médico francês Georges Canguilhem em 1982 escreveu o livro questionando a concepção de O normal e o patológico, para o autor existe um modelo reducionista, mecanicista e generalizador da Biomedicina que deve ser questionado. Os conceitos de doença e normalidade, patologia e anormalidade devem estar ligados entre o organismo e seu ambiente, essa análise deve ser marcada por construções e valores sociais. Assim que, o saudável, o normal não pode ser definido através de uma média aritmética, ou uma conta como o IMC (Índice de Massa Corporal), muito menos de um tipo ideal, padrão na maioria das análises que existem na área da saúde.

Dessa maneira, Canguilhem explica que o adoecimento não é um fenômeno puramente objetivo e biológico, já que o que acaba sendo considerado normal ou patológico está carregado por uma imensa carga de subjetividade. Resumindo, para o médico filósofo o conceito de saúde deve ter uma dimensão muito mais ampla do que das classificações por cálculos e/ou generalizações preconceituosas.

Outro filósofo que questiona essa concepção do doente e saudável no discurso médico é Michel Foucault (1962-1984) quando em sua obra “O nascimento da clínica” sobre a constituição dos saberes da Medicina, para o autor acaba acontecendo uma substituição sobre a forma de entender, ou olhar a “arte de curar” por uma focalização na doença do corpo. Acaba acontecendo um afastamento do entendimento sensível, da subjetividade, dos seus afetos, histórias e seu processo de adoecimento por uma valorização de um modelo de identificação geral, localizado e classificatório por cada doença. Para o autor, o que existe no Mundo ocidente é a medicina da doença e do doente.

Naomi Wolf explica em seu livro “O Mito da Beleza” é como uma religião, estamos obcecadas e acreditamos fielmente que o corpo magro deve ser conquistado a qualquer custo.

A autora explica no capítulo A Religião, que “A cultura moderna reprime o apetite oral da mulher da mesma forma que a cultura vitoriana, através dos médicos, reprimia o apetite sexual feminino (…). O estado de sua gordura, como no passado o estado de seu hímen, é uma preocupação da comunidade. “Oremos por nossa irmã” se transformou em “Nós todos vamos incentivá-la a perder esse excesso de peso.”

Acaba faltando um questionamento sobre que rumo estamos tomando nessa questão de camuflar obsessão e preconceito com corpos que não estejam no PADRÃO SAUDÁVEL por preocupação com a saúde de corpos que cansaram de seguir esse discurso que causa dor e incompreensão.

Já que estar feliz com o próprio corpo, entender que ninguém é igual a ninguém e que corpo não existe só um tipo: o magro, saúde não tem necessariamente haver com um corpo magro e malhado que passa na TV, aliás, muito pelo contrário, o corpo nesse sentido é vendido igual um carro, objeto, mercadoria.

Estar bem consigo mesmo é o princípio de estar saudável. Assim que venho nesse texto propor a reflexão que as pessoas podem estar GORDAS e não quererem emagrecer por inúmeros motivos: já tentou milhões de vezes e não conseguiu ou porque gosta de si como é, porque tem saúde e, principalmente por que precisa escolher entre ser feliz com o que se é, ou já se sentiu infeliz buscando produzir um corpo quase impossível para ser aprovada socialmente.

Exatamente isso ou talvez não, porque simplesmente não quer fazer regime, se sente bem com o corpo que tem, ou tem preguiça de seguir esses padrões da moda. Isso nem interessa muito, acho que o mais desumano nisso tudo é a imposição que se faz com os corpos diferentes.

E repetir essa imposição aos outros que não tem um corpo magro é preconceito e tem nome. A gordofobia mata, humilha, e está nas pequenas insinuações, gestos e situações que muitas vezes repetimos sem perceber. Falar pra alguém da família no Natal não comer tanto, ou para a amiga que tem um rosto lindo, ou que carboidrato é do mal na frente da amiga comendo um lanche, me parece que não cabe num mundo que grita por liberdade e diversidade. Cuidar do corpo alheio é tão prejudicial quanto empurrar uma velhinha da escada.

Porque é isso que se faz quando se é gordofóbico e não aceita o corpo GORDA, empurrar essa pessoa ao estigma de exclusão, vexamento e tristeza que muitos passam e/ou já passaram. Isso é crueldade! E que fique claro, que ninguém pode se sentir superior ao outro porque tem um corpo mais magro, malhado ou sei lá por que.

Existe a necessidade de dar um basta nessa caça as gorduras em nossa sociedade, é repetir uma imposição comercial que gera lucros milionários a empresas que a maioria das pessoas nem sabem que existem.

Não podemos ser ingênuas e consentir com essa maneira de entender os corpos no mundo, repetindo estigmas e colocando pessoas a beira de suicídios e vidas de tristeza e medo. Não dá mais!

Tente começar por você e seja solidário ao diferente ao seu lado, cuide que esse corpo diferente seja acolhido e amado como todos os outros… Mude o seu entorno e estará mudando muitas vidas… Quando ver uma pessoa GORDA não cabendo numa cadeira ou banco, roupa não ria disso, pois não é engraçado, ajude com um olhar, ou mesmo mande um pensamento de apoio.

A gordura ainda é vista no meio de pessoas que se consideram “críticas socialmente” como algo repugnante, luta contra racismo e homofobia, machismo, mas dá risada de GORDA na rua em espaços públicos. PARE! Não é legal.

Pense em você e em seu corpo, pense na dificuldade que é se amar mesmo sendo magra, imagine o outro que não é. Tenha sororidade e ajude aos corpos dissidentes periféricos e suas lutas em existir, porque é isso que uma mulher GORDA faz quando não quer emagrecer, fazer uma bariátrica ou começar mais um regime da moda: EXISTIR.

Quando falamos de Resistência e ninguém solta a mão de ninguém, é exatamente disso que estamos falando, desses corpos que são excluídos e maltratados pelo simples fato de não se encaixar naquilo que vende.

 

 

Para Consultar

 

BUSS, Paulo Marchiori. Promoção da Saúde e qualidade de vida. Ciênc. saúde coletiva, v. 5, n. 1, p.163-177. 2000.

 

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 4ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

 

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense; 2004.

 

JIMENEZ-JIMENEZ, Maria Luisa; ABONIZIO, Juliana. 2017. Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento. XXXI Congreso ALAS Asociación Latino América de Sociología, Género, Feminismos y sus aportes a las Ciencias Sociales. Movimientos sociales, acciones colectivas y participación políticas.

 

LAZZARATO, Maurizio. 2006. As revoluções do capitalismo: A política no império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

 

WOLF, Naomi. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

Imagem de destaque retirada do google: arte de autoria de Negahamburguer

 

 

 

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