2018 nos mostrou que feminismo não é sobre empoderamento individual, self care, e ascender economicamente. Apesar de ser um movimento que tem sua base no coletivo, na luta pela emancipação de todas as mulheres, junto ao desmonte de estruturas opressivas exploradoras como o racismo, machismo, capitalismo, algumas vezes nos esquecemos (me incluo nisso) facilmente do propósito final. O feminismo liberal é a corrente mais individualista do movimento de mulheres, e que na verdade nem é considerado feminismo, já que como as mulheres que se dizem “feministas liberais” deveriam saber que o movimento tem como premissa a luta para o desmantelamento de todas as estruturas de dominação, isso inclui o capitalismo. E, na realidade, é privilégio conseguir ascender economicamente nesse sistema, para quem serve esse privilégio? Quem ele representa?

Foi também durante a 1ª onda feminista, inicialmente despontada por mulheres burguesas e brancas, que diversas teóricas embasaram o Marxismo e a luta de classes na luta do feminismo, pois nenhuma mulher poderia ser totalmente livre enquanto outra estivesse sob dominação patriarcal. E quem mais além do sistema capitalista para fomentar as opressões de classe, sexo e raça?

Obviamente sem tirar a responsabilidade que temos de ter com nós mesmas, o autocuidado, a preservação da nossa saúde mental em momentos turbulentos e de enfrentamento, que são ferramentas de lutas válidas e paralelas à militância, é preciso olhar cada uma pela outra, sem esquecer do que significa estar em movimento. É preciso estar fortalecida internamente para existir em tempos de retrocesso e ódio, é preciso estar convicta de que lado estamos. Percebi a diferença entre quem estava na luta, quem esteve nos atos, panfletando, no dia 29 de setembro, nas rodas de conversas, se expôs e viveu na rua o que foi o período pré e pós eleitoral, e quem se desesperou no momento que viu o cenário real. Se eu senti mais tristeza do que medo no dia do resultado da presidência, foi porque eu estou fortalecida, não somente por mim, mas pelas mulheres que estiveram comigo, presentes, lado a lado, nos momentos mais difíceis (e também nos acolhedores).

É aí que retomamos o que Simone de Beauvoir já dizia, nossos direitos são os primeiros a serem atacados em momentos de crise e, foi nessas horas que entendi o quanto é fácil esquecermos que fazemos parte de um coletivo global. E que ocupar é preciso, que união e rua mostram nossa força sim, tanto quanto todas as campanhas online de comunicadoras que estiveram 24 horas deliberando sobre os riscos que Bolsonaro traz. O que nos faz empoderadas individualmente não significa nada se não podemos usar disso como ferramenta de luta, de fortalecimento, coletivamente organizadas e de pé pra mostrar que somos milhares.

Feminismo é um movimento global, de todas as mulheres para as mulheres, e o maior alvo de críticas também do governo vigente, críticas violentas e misóginas. Como já diz Angela Davis, quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta junto com ela, o movimento de mulheres tem pautas universais de libertação, direitos humanos, contra qualquer tipo de opressão. É preciso sair de dentro do conforto para estar em ações efetivas, em organizações, formação e preparação. 2018 mostrou que o feminismo é global, que a mulheres estão agindo e tomando a menor brecha de espaço político, as ruas mostraram nosso tamanho, e ainda com novas representantes eleitas, símbolos da resistência, no congresso nacional. É preciso clareza e sistematização dos nossos atos para enfrentar, e quem esteve presente nos protestos e ações coletivas está ciente de que é nós por nós. Com consciência de quem é o inimigo e da exploração que vem na base do sistema capitalista, é preciso desmantelar, por todas e todos.

O feminismo negro ainda mais visceral na luta contra a exploração humana de raça , contra o racismo violento e manuseador da base da opressão e, é preciso atentar para formas exploratórias que a desigualdade de classe reafirma e mantém, para a cultura do capital que aliena econômica e socialmente, na tentativa de cercear os esforços de resistência e desmanche de um sistema orquestrado nos maiores preconceitos estruturais para se manter funcionando. E nós também, vamos manter funcional e processual cada passo cauteloso, certeiro, para manter nossos direitos e conquistar uma emancipação geral, sem reformismo e sem individualização. Na rua, nos espaços, nas mídias, na comunicação, na oposição. 2018 mostrou que vai ser preciso estar presente, sempre. Como Marielle esteve e está.

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