Quando falamos em violência sexual é quase unanimidade de que se trata de um crime hediondo cujas consequências são devastadoras para suas ou seus sobreviventes. É, de fato, extremamente contraditório que, as mesmas pessoas que afirmam ser o estupro um dos crimes mais terríveis e que quem o comete merece penas duríssimas – inclusive de morte – diante de uma notícia veiculada na mídia, entoam um discurso de “mas tem que investigar isso direito”, “essa história está mal contada”, “mas ela conhecia o agressor?”, “ela estava sozinha à noite em tal lugar?”, e uma infinidade de outros “mas” que, em suma, querem dizer que a palavra da vítima não basta. Por que se duvida sempre da vítima?
Numa cultura patriarcal e misógina como a nossa, a palavra de uma mulher tem menos valor em quase qualquer contexto. E quando se trata de crimes sexuais, o problema é ainda pior. Soma-se à cultura machista uma série de mitos e ideias equivocadas a respeito desse tipo de crime, desde a denúncia em si, passando pelo comportamento das vítimas e motivação e características do agressor, que fazem com que muitos não identifiquem atos como sendo violentos ( inclusive as próprias vítimas), bem como levam a quase um padrão de colocar em dúvida os relatos e denúncias e, por fim, culpabilizar a própria vítima pela violência sofrida.
Estupro e abuso sexual são crimes muito subnotificados, o que significa que existem muito mais casos acontecendo do que os que são registrados em delegacias e hospitais. A crença errônea de que existem muitos casos de falsas denúncias contribui imensamente para que se continue a duvidar das vítimas.
Estima-se que apenas um a cada dez (10%) casos de estupro são registrados e notificados. Não há dados exatos, mas profissionais especializados apontam que, dos casos registrados, cerca de 1% – ou um a cada cem – representam denúncias não verdadeiras. É um número ínfimo, quase irrelevante, que não justifica toda desconfiança a que são submetidas às denunciantes.
Acredita-se também no perfil do estuprador como alguém desconhecido, estranho, psicopatas ou pedófilos que atacam suas vítimas em ruas escuras e pouco movimentadas. Uma ideia que povoa o senso comum e que não podia estar mais equivocada. Claro que esses casos existem, mas estão mais para exceções do que regras. Estatisticamente, a maior parte dos estupros são cometidos por pessoas conhecidas da vítima. Namorados, companheiros, ex companheiros, amigos e conhecidos respondem por mais da metade de abusos de mulheres adultas; entre crianças, o percentual chega a 70% (incluindo país, padrastos, tios e outros parentes).
Da mesma forma, ao contrário do que se pensa, a maioria dos ataques não ocorre na rua, e sim dentro da casa, local de trabalho/estudo da vítima. São pessoas conhecidas, em quem a vítima confia e em lugares familiares – ou seja, o maior perigo mora no homem comum.
Existe uma ideia muito difundida – e muito equivocada a respeito da reação das vítimas. Acredita-se que a mulher ou menina sempre reage, grita por socorro, luta, tenta se livrar do agressor. Que após o ataque, ela vai fugir e se afastar e que vai relatar o acontecido quase que imediatamente. Certamente sai reações possíveis mas não são as mais comuns.
É muito frequente que a vítima “colabore” com o abusador, como uma maneira consciente ou inconsciente de, assim, poupar-se de violência maior, ou até da morte. É comum que em vez de lutar ou fugir, a mulher não resista e paralise diante do choque e violência de ter seu corpo invadido.
Igualmente comum é a memória dos abusos ser confusa, fragmentada, com detalhes contraditórios ou, até mesmo, pode acontecer um total bloqueio ou “esquecimento” do que se passou. É muito normal que a mulher ou menina demore algum tempo – de horas, semanas e até anos – para se lembrar totalmente do que aconteceu e ter consciência da violência sofrida.
Diante do trauma, a memória muitas vezes se apaga, e o cérebro tenta “normalizar” o acontecido. É um mecanismo de defesa do próprio organismo diante de algo que o sujeito não consegue lidar ou absorver naquele momento.
Quem trabalha e milita no combate à violência sexual, lida diariamente com esses mitos e tabus e tenta desconstruí-los incansavelmente. Além da cultura machista que trata a mulher como objeto e posse dos homens, toda essa desinformação impede tanto que mais denúncias aconteçam quanto submetem as vítimas a um acolhimento inadequado, tanto por parte das autoridades responsáveis quanto por parte de amigos e familiares.
Precisamos urgentemente encarar nossa realidade – uma em cada quatro mulheres são ou serão vítimas de violência sexual ao logo da vida. Nós conhecemos essas mulheres e também conhecemos esses homens que as violentam. E só se combate essa violência sistêmica com informação e educação.

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