Quanto precisamos caminhar para nos compreender e compreender o outro no mundo dos likes, dos matchs, dos crushs?! Haja vocabulário para dar conta de tantas definições rasas e amores fictícios. Invadidas pela coisificação do humano, personificada pela humanização das coisas, nós, mulheres, investindo no desenvolvimento e libertação do nosso ser, nos prendemos, portanto, à miséria e a migalhas de amores baratos. Como proposto por Pessoa (2006), “a maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. A maioria da gente é outra gente, disse Óscar Wilde, e disse bem. Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem; outros empregam-se na busca do que querem e lhes não serve; outros, ainda, se perdem” (PESSOA, 2006).

Nessa linha, pensar que podemos ser só mais um na vida de alguém nos mobiliza a investir no amor, amor recíproco, amor próprio, amor sincero, se tornando um desafio e tanto, considerando os dilemas que vivemos em nosso cotidiano. Um desses dilemas pode ser esclarecido, nos investimentos de estudos com Bauman (2011), sobre a fragilidade dos laços humanos. A partir deste conceito, analisamos os elementos que constituem nossas vidas secas deste verão brasileiro e observamos o quanto estamos correndo riscos e o quanto nos submetemos a ser quem não somos em prol da busca por uma felicidade em amigos ou em casal.

Pressionados pela agrura e pela ansiedade típica do tempo contemporâneo, nos (des)encontramos, correndo mais que o coelho da Alice no País das maravilhas, sempre sem tempo e com tarefas a fazer, por vezes, sem saber os rumos e os horizontes da jornada. “E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço (BAUMAN, 2011, p. 12).

Nesse contexto, assolados pelos extremos desafios de viver no mundo do capital, em que tudo agrega “valor de mercado”, incide o ciclo da banalização do ser, mascarados de desconfiança, insegurança, cobrança e ciúme, o que nos coloca num quadro de incompreensão do que é amor, confundindo-o com interesse ou controle. Esse contexto, tende a ameaçar o cultivo das relações humanas, da probidade no encontro com o outro. Neste ponto, na análise da relação do eu e o tu, vale lembrar das reflexões de Buber (2006), que entende que o “Amor é responsabilidade de um Eu para com um Tu: nisto consiste a igualdade daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer, igualdade que vai do menor, ao maior do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado, até aquele crucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens” (p. 60). Portanto nos blindarmos das agruras de uma natureza insólita, da sociedade em transição, e de um governo injusto ao seu povo, talvez se faça oportuno reconhecer o comportamento do machismo velado, com vistas a reconhecer o nosso agressor:

– Observe quem te menospreza, quem não faz questão de estar junto, quem te trata como opção e não como escolha, quem te ignora, quem te limita, quem te sufoca;

– Perceba os sinais, quem não te dedica a devida atenção, te abandona nos momentos mais complicados, se aproxima quando convém e nos faz viver em função da vida e da agenda de outro;

– Desconfie de quem não compartilha eventos sociais com você (seja qual for a desculpa, isso não é normal). Já diria Seixas: “[…] eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”;

– Identifique as ocupações do final de semana e dias de folga, atenta ao seu grau de prioridade na vida do outro;

– Verifique o grau de reciprocidade e avalie seus investimentos emocionais, físicos e espirituais, se envolva com quem quer se envolver;

– Entenda que algumas pessoas usam outras pessoas, em prol daquilo que desejam. Alcançada a “meta”, o laço se desfaz. Sem a menor compaixão pelo outro e pelo que “sobrou deste laço”;

– Tenha parcimônia em suas escolhas e pense em todas as suas ações, busque ser para você e não para o outro;

– Reconheça vestígios abusivos e nunca deixe de ser você! Não deixe de fazer o esporte que gosta, vestir a roupa que ama, fotografar-se com qualquer roupa que seja. Não se limite pela vontade alheia. Exercite ser quem você é, independente do julgamento alheio;

– Faça o que te deixa feliz. Não altere suas atividades em prol de iniciativas sugeridas por quem não vive sua vida. Só nós, sabemos das metas que temos e que nos deixam felizes.

E sempre, lembrar que quando as memórias da relação já não são mais respeitadas e a nossa opinião não é mais cotada e “validada” pelo agressor, o machismo irá coloca sempre a mulher como vítima, como louca, impura, falsa, mentirosa e culpada. Vítima esta que passa a viver de alterações emocionais, prejudicando sua saúde mental e fechando sua preocupação unicamente para o agressor, esquecendo de si.

Assim, de viseira e tapando o restante do mundo, imergimos em nossa zona de conforto, mantendo apego àquilo que não nos faz bem, simplesmente por não encontrarmos força e coragem para mudar. E tudo isso embrulhado no tempo pacato-corrido-pacato, inconstante em suas urgências e ligeiro em seus encontros, conforme aponta Bauman: “Numa vida de contínuas emergências, as relações virtuais derrotam facilmente a “vida real”. Embora os principais estímulos para que os jovens estejam sempre em movimento provenham do mundo off-line, esses estímulos seriam inúteis sem a capacidade dos equipamentos eletrônicos de multiplicar encontros entre indivíduos, tornando-os breves, superficiais e sobretudo descartáveis. As relações virtuais contam com teclas de “excluir” e “remover spams” que protegem contra as consequências inconvenientes (e principalmente consumidoras de tempo) da interação mais profunda” (BAUMAN, 2011, p. 15).

Desse modo, fechamos os olhos e os corações, reproduzindo a falácia de viver de breviedades, recorrendo às relações vazias, por conta da carência e da necessidade de estar com um outro. Nesse sentido, se faz oportuno estar junto de quem te faz bem, desejando o que há de mais feliz nas relações humanas, a reciprocidade!

Finalizamos acreditando que é possível desenvolver laços fortes, mesmo que em sociedades frágeis, que nosso brilho no olhar não se opaque diante as mazelas relacionais vividas nos nossos tempos líquidos. Que amar seja ainda uma aventura emocionante, de respeito, calor no coração e frio na barriga. Que junto a isso, também reconheçamos que o amor próprio é essencial e muito bem-vindo, acima de qualquer coisa.
Que também lembremos de carnavalizar, pois: […] durante o carnaval é a própria vida que representa e interpreta (sem cenário, sem palco, sem atores, sem espectadores, ou seja, sem os atributos específicos de todo espetáculo teatral) uma outra forma livre da sua realização, isto é, seu próprio renascimento e renovação sobre os melhores princípios (BAKHTIN, 2010, p.7).

Que procuremos dentro de nós, a força necessária para abandonar aquilo que não nos faz bem, aquilo que nos limita e não nos ergue para cima. Que acreditemos na vida e no poder feminino, nos nossos sentidos, nas nossas percepções. Que aproveitemos o carnaval, celebrando o que nele há de melhor e, que mesmo com máscaras, possamos descobrir nossas reais intenções de estar no mundo, de estar com o outro, de ser e de poder se refazer a cada dia. Que possamos celebrar o amor próprio cotidianamente, nos libertando daquilo que não nos faz bem. Que possamos:

“Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido” (PESSOA, 2006, p. 154).

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 7. ed. São Paulo: Hucitec; 2010.
BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2011.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2004.
BUBER, Martin. Eu e tu. 10. ed. rev. São Paulo: Centauro, 2006.
PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo. Companhia de Bolso. 2006.

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