Se tem algo que gera um monte de falatório, é quando uma mulher diz que “Eu não quero ser mãe!”.

Pronto.

Virou O assunto.

“Só se conhece o amor depois de ser mãe…

Vai envelhecer e ficar só…

Seu marido vai te largar, se não der um filho pra ele…

A mulher nasceu pra procriar…

E o instinto maternal? Você é mulher! Você vai se arrepender disso.”

 

Júlia tem 32 anos. Desde muito cedo, dizia que não queria jamais ser mãe. Júlia entende que a maternidade lhe trará obrigações afetivas, financeiras, abdicações da vida dela e outras coisas que ela não quer pra ela. O tal intitulado “instinto materno” é algo que ela diz não ter.

Júlia se casou com Marcelo. Casamento com direito a véu, grinalda e flor de laranjeira. Os dois estavam muito felizes naquele dia. Aquele dia tem uns 3 anos mais ou menos.

Eles se conheceram a uns 5 anos. Combinam e descombinam em um monte de coisas, como todo mundo.

Só tem um probleminha… A decisão da Júlia, que desde muito cedo sempre afirmou com todas as letras que não tem a menor vontade de ser mãe (e nunca escondeu isso de ninguém)…não é a “decisão do Marcelo”. Marcelo cobra, Júlia resiste. Julia diz que não quer, Marcelo enrola. Júlia se previne. Marcelo também. Mas ele vive querendo “dar uma esquecidinha” em usar camisinha. Júlia resiste e diz não. Aí vira bico, vira briga, vira desentendimento, vira mau estar e quase vira divórcio.

Júlia tem seus motivos pra não querer ser mãe. Direito dela. Quem há de dizer o contrário?

Marcelo, tem seu motivos para querer ser pai. Direito dele. Quem há de dizer o contrário?

E quando esses dois “contrários” se encontram, não tem encontro ou desencontro que os façam chegar em um ponto comum. Que confusão!

Marcelo julga Júlia por egoísta.

Júlia diz que não quer e ponto.

Marcelo força. Júlia não cede.

E vão travando uma pequena grande guerra dentro do “conto de fadas” depois do sim, daquele dia do véu, grinalda e flor de laranjeira.

 

A verdade, é que essa decisão é o tipo de coisa que não tem volta.

Não tem como olhar pro filho e pausar (nem as brincadeiras de estátua duram tempo suficiente pra um copo d’água), pra resetar, pra voltar, pra deletar.

É pra sempre.

Não dá pra “aceitar” ser mãe pra fazer a vontade do parceiro. Ou pra evitar briga…porque minha amiga…depois o que vai ter, é discordância.

 

Júlia é mulher. Livre. Maior de idade. Vacinada. Trabalha. Dona do seu próprio nariz.

Por vezes, sente-se tão pressionada que não consegue ser dona do próprio corpo.

Júlia não quer ser mãe. Ela é mulher e não quer ser mãe. E isso, é direito dela.

Engana quem pensa que ela não gosta de criança. Ela gosta sim. Mas existe um abismo entre gostar de criança e ser mãe.

 

Doa a quem doer. Torça a cara, o nariz…falem o que for.

É direito dela e ponto.

E nem venham com esse discurso de que “monte de mulher queria ter filho e não pode, e você pode e não quer”. Ok. Ela pode e não quer.

 

Como todos os outros pontos divergentes dentro de qualquer relacionamento, a gente tem que ser franco.

Tem que por as cartas na mesa. Falar. Ouvir. Talvez ouvir mais do que falar.

Ponderar.

Chegar em um consenso.

O que não dá é pra viver em conflito.

 

Existem Júlias e Marcelos em todos os bairros, cidades…

Existem dúvidas, questionamentos e blá blá blá.

 

Talvez a forma como lidamos com a mulher que diz não querer ser mãe, tenha mais sobre a sociedade da qual estamos inseridas (estamos mesmo inseridas? ou somos coadjuvantes?) do que sobre a maternidade propriamente dita (ok, é a coisa mais fofa do mundo um bebezinho, mas pense no trabalho que dá!).

 

Dizer desta maneira enfática que a mulher é obrigada a ser mãe. Que só assim ela será uma mulher completa, além de muito cruel, não leva em consideração as escolhas daquela mulher. Ignora completamente qualquer ideal que as conquistas feminista, trouxeram as mulheres. Somos ou não somos protagonistas das nossas próprias histórias? Somos ou não somos, quem devemos fazer nossas próprias escolhas?

Quando Marcelo, e todo o resto do povo palpiteiro de plantão, aponta a decisão da Júlia como errada; dizendo que ela não cumpre seu papel de mulher…estas pessoas na verdade, não defendem a maternidade não. Estas pessoas, se apoderam do corpo e dos direitos de escolha que a Júlia tem sobre sua própria vida.

Ao invés de apontar o dedo pra mulher que diz que não quer ser mãe, devíamos nos preocupar com saúde e educação. Com o tratamento recebido pelas gestantes, bebês, mulheres, crianças.

Devíamos questionar o bem estar delas.

O acesso a uma vida digna.

O papel da mulher no mundo , é dela. Diz respeito a ela. E só ela saberá dizer o quer pra ela.

Quando a sociedade se preocupar com um mundo aonde haja equidade, aonde as crianças tenham acesso a saúde, educação, se alimentem de forma digna…talvez tenham menos dedos apontados pra Júlia e sua questão com a maternidade.

 

A maternidade não pode ser exigida.

Que saibamos respeitar as escolhas de cada mulher, para que elas possam ter a liberdade de serem felizes com o que desejarem ser.

Acredite, toda mulher que opta por não ser mãe, carrega consigo uma decisão difícil sim. Abre mão de viver uma experiência que nenhuma outra substituirá.

Será por esta mulher que não quer ser mãe, ser egoísta? Quem sabe. Será por ter medo do futuro? Pode ser…

Seja lá o que for, é a vida dela. As escolhas dela. E isso deve ser respeitado.

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