Já te sugeriram fazer a bariátrica? Cirurgia de alto risco e para casos específicos. Entre outras cirurgias de tudo quanto é coisa, já te sugeriram mudar o seu corpo? Já te narraram dietas das mais malucas? Já perderam a conta de quantas propostas te ofereceram, com o poder “milagrosomilionario” de empresas de shakes? Já te disseram que era para largar a atividade física que vocês fazem, porque a academia tal era a “que dava jeito”. Já te sugeriram {{{parar de pegar sol}}} porque pele boa era pele branca? Então esse texto é para você.
O preconceito, a gordofobia, a misoginia e o ódio não tem lugar para existir. Quem nunca foi atacada, mesmo por quem temos apreço, com palavras que ferem o nosso emocional? Seja em barzinho, em família ou em contextos de estudo e trabalho?! Assim, estas expressões somam ao conjunto de palavras que passam no “boca a boca” da sociedade ao longo de muitos anos, compondo um coro de palavras que exprimem problemas sociais. A cada palavra emitida se expressa um conteúdo ideológico de uma determinada época (BAKHTIN, 2006). Então, sabendo que palavras não são pensadas individualmente, ou seja, expressam esse “coro da sociedade” percebemos que todas somos vítimas de uma trajetória que mascara, por exemplo, o assédio em palavras doces e a gordofobia em palavras amáveis.
“A palavra serve sempre como um indicador das mudanças” (YAGUELLO apud BAKHTIN, 2006, p. 17) e, a partir desta compreensão, vale indagar, como temos nos posicionado para enfrentar este coro? Vamos perpetuar esta história? Qual tem sido nossas reações diante das palavras que nos magoam e nos ferem? Como nos portamos diante a uma situação que não nos agrada? Sabemos que cada palavra tem a manifestação de sua época (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2011) e, possuem diferentes sentidos (a depender de quem as escuta), portanto, nunca serão neutras, sempre carregaram consigo um valor que expressa algo que já foi dito e algo que quer se dizer.
Considerando isso, buscamos mobilizar neste texto a forma como reagimos às palavras que nos incomodam e rivalizam com nossa existência, afetando nossa saúde mental. Afinal, não é comum reagirmos rindo da piada, ou também respondendo na “mesma moeda”. E até que ponto isso nos faz bem? Talvez o comportamento de carnavalizar a palavra do outro, seja uma estratégia de aliviar nosso sofrimento, talvez isso não seja o suficiente, porque além de alimentar a violência, o interlocutor insiste, persiste e ainda encontra uma forma de te fazer sentir culpada pela sua aparência ou por qualquer conquista que viemos a compartilhar.
Conforme apresentado no título e nos referenciais da linguagem, palavras são pontes, lançadas ao outro (BAKHTIN, 2006; 2011). E dependendo de como significamos no interior de nós, podem abrir tanto espaços de suicídio quanto de contemplação do nosso ser. Assim, não descoladas da forma ou do contexto em que são enunciadas (por vezes, disfarçadas de uma entonação carinhosa, preocupada, dedicada ou amorosa), afligem nosso eu e machucam nosso ser, contribuindo para que, a cada palavra lançada, morresse dentro de nós, uma expressão do nosso eu.
Por vezes, podemos estar mais saudáveis do que muita gente. Seja física ou mentalmente. Acontece, que a cada palavra ou ato lançado à nós, pode ferir aos poucos nossa existência. Se não reagimos de forma defensiva, nos posicionando e manifestando nossa insatisfação, tendemos a acolher e a alimentar a cultura do escárnio e do preconceito, potencializando a misoginia presente nas relações humanas e, que historicamente se fizeram da linguagem, para concretizar nas palavras as armas mais brutais de nosso tempo – a violência verbal.

Já estava para falar isso há algum tempo e foi a partir da narrativa de vários amigos e colegas que tomei a iniciativa de dizer, aos poucos, que a gente precisa mesmo entender que a cultura do corpo e da vida perfeita está nos massacrando todos os dias. As palavras de cada legenda de uma foto, ou expressas nas imagens das telas azuis dos smartphones, chegam a nós dirigindo e afetando nossas escolhas e nosso modo de estar no mundo. Li essa semana que uma atriz postou uma foto com o esposo e a chuva de comentários era lhe cobrando um filho. Doutra vez, uma cantora postou foto de biquíni e os comentários iam desde a menção ao tamanho de sua vagina até aspectos de sua pele. E não é comum a cada foto postada, vermos a chuva de comentários avaliando o conteúdo exposto.
Diante disso, indagamos como é sutil a manifestação de nossa opinião a agressão ao outro. Ao colocar nossa opinião, inevitavelmente avaliamos, não passamos imunes a isso, somos seres ativos e responsivos ao nosso meio (BAKHTIN, 2011). Mesmo que com palavras, precisamos avaliar ainda como nos reportamos à imagem do outro. Acreditando que a palavra, portanto, é um fenômeno ideológico que reflete as mudanças sociais, apostamos que o destino de nossa palavra somos nós, enquanto sociedade que iremos fazer, atentos à responsabilidade de nossos dizeres (BAKHTIN, 2006).

Nesse sentido, a quem reporta palavras a alguém, vale sempre refletir sobre os elogios utilizados. Exemplos muito comuns que vemos na internet expressam algo como “pisar menos”, “ridícula de tão linda”, “vai ser presa por tanta beleza” podem ser substituídos por “Esplêndida” e seus sinônimos: maravilhosa, extraordinária, excepcional, excelente, estonteante, deslumbrante, encantadora, fascinante, formidável, fantástica, fenomenal, admirável, notável, estupenda, perfeita, ótima, excelso, primorosa, épico… E se não sabe o que dizer? Que palavras usar? O dicionário está cheio delas. Ou também pode usar o silêncio, às vezes faz bem.

Não existe essa de “Ah, mas falei de brincadeira, falei sem pensar”. Para quem ouve não tem isso. A palavra fere, mesmo que lá no fundo do fundo de quem está escutando. A brincadeira também humilha e ofende, o”falei sem pensar” expressa que não pensa nos outros, que emite opinião com base em padrões pré-estabelecidos pela mídia e, pela sociedade.

Tão vítima quanto nós, pessoas assim cotidianamente são protagonistas de um “7 a 1”. São 10 milhões de mortas e mortos, são 10 que morrem nas escolas, todos os dias, exercendo o ato de se libertar de um mundo que não os cabe, que não os aceita. E assim, a violência comemora seu ciclo de barbárie, afetando, matando e minguando nossa crença e aposta em um mundo melhor.

A propósito, recebi convite nesta semana para falar sobre auto-cuidado e amor próprio em uma escola da rede pública de ensino fundamental. A justificativa era de que nesta escola tinham adolescentes que {{{{não estavam indo para a aula}}} porque tinham vergonha de seus corpos, de seus cabelos, de seus rostos com espinhas, etc. {{{Não estavam indo à escola gente }}} espaço que deveria ser, essencialmente, de educação e acolhimento – de acreditar na interação respeitosa entre os colegas.

Este mesmo espaço para alguns, através da palavra que humilha e nos corrói se perpetua no tempo, tornando martírio, tristeza e aniquilando os poucos espaços de interação social, em que seriam profícuos para estabelecermos nossos laços sociais. Passei por isso, desde a infância até à universidade. E posso afirmar, que as palavras têm força, portanto, pensar nelas é essencial para que elas não se tornem armamento para sustentar o uso de armas e extinção da vida.

Palavras são ponte, que possamos fazer delas pontes de admiração do mundo e de interação saudável entre comunidades. Que nossas palavras não sejam pontes que se abrem para a violência. Que nossas palavras não sejam pontes que mobilizam ao suicídio

Contra qualquer tipo de violência e opressão. Contra o incentivo ao porte de arma, ao porte do extermínio da vida. É isso que tenho a desejar: que possamos respeitar as pessoas, respeitar a existência de cada um, falar menos (ou não falar) do corpo, do cabelo, da pele e das escolhas de cada um, em especial, quando a sua opinião não foi solicitada. É cruel ouvir de quem sempre teve acesso à plano de saúde, comida boa, educação física e apoio emocional, que precisamos fazer algo para alcançar um desejo que não é nosso.

A ideia não é ficar melhor do que alguém. Ou estar em melhor condição que alguém, mas provocar a reflexão de que ser fã da magreza, da escova progressiva e da branquitude é apoiar um contexto neoliberal que influencia as pessoas ao consumo e ao padrão estético, com vistas a vender mais (remédios, roupas, planos de academia, receitas infalíveis de emagrecimento, shakes, cirurgias, etc). Cada um se cuida da forma que quer, cada um tem um biotipo. Logo, não tem como adotarmos uma convenção de biotipo perfeito. Essa estratégia é perversa e só nos leva a ser quem não somos e, sim, quem o capital deseja que sejamos.

Segundo Bakhtin (2011), filósofo da linguagem a palavra existe de três modos: “como palavra a língua neutra e não pertencente a ninguém; como palavra alheia dos outros, cheia de ecos de outros enunciados; e, por último, como minha palavra, porque, uma vez que eu opero com ela em uma situação determinada, com uma intenção discursiva determinada, ela já está compenetrada da minha expressão” (p. 294). Já parou para pensar nisso? Como tem feito o uso da palavra?

Por aqui no blog, seguimos a cada dia buscando uma reflexão potente, tentando aprender junto, respeitando a beleza de ser livre e respeitosas nas palavras. Intentamos um movimento dialógico, de reciprocidade, de escuta e compartilhamento, buscando, errando e tentando ser pessoas ativas na busca por um mundo mais respeitoso. E você? De que lado está? Como tem trabalhado sua responsabilidade pela existência do ser humano? Como tem cuidado da saúde mental (sua e dos seus pares)?

Finalizamos, convidando à reflexão de que compreender a enunciação do outro, significa entender de que lugar essa pessoa fala. Desta forma, a cada palavra temos a possibilidade de compreender, fazer corresponder uma série de palavras outras, reagindo e formando uma réplica (BAKHTIN/VOLOCHÌNOV, 2011) podendo somar para compor a ponte que queremos lançar ao outro, de suicídio, de paisagem, de amor, de ódio? Que palavras temos lançado? Que palavras queremos lançar? Essa lança é para ferir ou para ser laço?

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 12. ed. São Paulo: Hucitec, 2006

BAKHTIN, M.M. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

BAKHTIN, M. M.; VOLOCHINOV, V. N. Palavra própria e palavra outra: na sintaxe da enunciação. São Carlos, SP: Pedro & João Ed., 2011.

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