O movimento conhecido como childfree (em português, “livre de crianças” ) surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos e Canadá, visando, inicialmente, afirmar o direito das pessoas a não terem filhos, um marco contra a maternidade compulsória, tema amplamente debatido pelo movimento feminista, dentro da luta pelo direito à liberdade sexual e reprodutiva plena das mulheres.
O child free, porém, acabou evoluindo com o tempo para um movimento que restringe a presença de crianças em ambientes e locais privados. Começaram a surgir restaurantes, bares, hotéis, resorts que impedem a entrada e frequência de pessoas menores de 16 ou 18 anos. São ambientes “childfree”. Dentro dessa mesma onda, pessoas começam a promover festas e eventos particulares, como casamentos, em que o convite diz claramente aos convidados: não são permitidas crianças.
Entre especialistas e operadores do direito, há divergências quanto à legalidade de se proibir acesso de crianças em ambientes público/privados.
Alguns veem a restrição como direito legítimo de cada estabelecimento. Outros, no entanto, enxergam a proibição como discriminação, que fere inclusive a nossa Constituição Federal que, no Artigo 3, inciso IV diz ser objetivo fundamental da República: “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Este é um assunto polêmico mesmo dentro do movimento feminista. Muitos coletivos e feministas individuais consideram iniciativas childfree como válidas. Em contrapartida, há feministas, dentre as quais eu me incluo, que o veem como movimento de exclusão e, em outra ótica, uma validação de ódio e aversão a crianças.
Pensemos num paralelo. Imaginemos um movimento de pessoas brancas que dizem: não gostamos de negros, não somos obrigados a conviver com negros e queremos frequentar ambientes que não permitam a entrada de pessoas negras. Ou, então, se surgisse um movimento que exigisse lugares não acessíveis a cadeirantes. Restaurantes, hotéis, ônibus que fossem exclusivos para pessoas não cadeirantes, para que estas não fossem “incomodadas”. Parece razoável?
Há uma diferença enorme entre não querer ter filhos, não gostar de ter crianças em sua casa ou qualquer espaço íntimo, o que é um direito de cada um, e não querer conviver com crianças a ponto de exigir que haja espaços privados que não permitam seu acesso. E não se está falando aqui de boates, casas noturnas, casas de strip-tease ou onde há jogos ilegais. Não são ambientes que possam pôr em risco a integridade física e psicológica de crianças. São restaurantes que abrem para almoço, hotéis e resorts.
Repito, não estou aqui dizendo que todos são obrigados a amar crianças, muito menos a querer conviver intimamente com elas. Falo de convívio social.
Mesmo porque, estar em um ambiente em que haja crianças não obriga ninguém a cuidar delas, a não ser os próprios responsáveis.
A maternidade sempre foi solitária em nossa sociedade patriarcal que exime os pais (homens) de uma responsabilidade igualitária. E, especialmente nos grandes centros urbanos, a solidão da mulher é ainda maior, já que conta com redes de apoio (família, amigos, vizinhos) cada vez mais escassas ou até inexistentes.
Excluir crianças em uma sociedade machista como a nossa é violento para mulheres, pois significa alienar as mães, impedir que elas circulem em espaços públicos. E mães têm o direito de se alimentar, se hospedar onde quiserem, se divertir.
É fato que hoje as crianças têm um protagonismo na família e na escola que era inimaginável há algumas gerações. Sim, isso pode ter o lado negativo de talvez estarmos criando pequenos mimados e sem limites, mas também nos leva a tratar crianças como os seres humanos complexos que são, cujas personalidades estão em formação constante.
Muitos usam esse argumento, de que as crianças estão sendo educadas de forma muito permissiva, o que faz com que se comportem mal. De fato, há que se fazer tal reflexão, mas quando usado para validar o child free, me parece mais julgamento do que uma proposta de realmente discutir educação.
Para além disso, o que seria esse “mal comportamento” das crianças que incomoda tanto a ponto de precisarem ser excluídas de algum ambiente? Crianças correm, falam alto, gritam, choram, fazem “bagunça”, umas mais que outras, e isso não significa necessariamente que estão sendo mal educadas por seus pais – podem estar apenas se comportando com a maturidade motora, cognitiva e emocional que possuem.
Há que se questionar porque tantas pessoas não toleram que crianças se comportem como CRIANÇAS. Adultos também se comportam mal quando ficam embriagados, por exemplo, dão escândalos, quebram coisas, brigam, e nem por isso estão sendo proibidos previamente de circular por espaços públicos.
Precisamos refletir seriamente que tipo de sociedade estamos nos tornando quando permitimos que lugares excluam pessoas pela simples condição de serem quem são, sejam elas crianças, idosos ou deficientes.

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