Um estudo da Sociedade Americana de Psicologia apontou que garotas adolescentes internalizam a cultura mainstream pornográfica, e essas meninas recorrentemente apresentam maiores sintomas de depressão, ansiedade, transtornos alimentares, baixa autoestima, além de se tornarem potencialmente vítimas de estupros, violação sexual, sem perceber que são atos de violência. A normalização da pornografia na sociedade e sua disseminação tanto na internet, em sites pornôs, quanto na cultura pop, como em músicas, filmes e videogames tornam regra a sistemática de violação e agressão (física e/ou verbal) ao corpo feminino. Um portal americano luta contra a legalização de jogos de extrema violência sexual, onde os jogadores interagem em cenas de “sexo forçado”, ES-TU-PRO, em especial jogos disseminados pela plataforma online Steam®, onde o público pode variar desde crianças até adultos.

A Sociedade de Psicologia, ademais, vê os adolescentes que eventualmente se tornarão homens adultos como vítimas dessa cultura massiva e predatória que é a pornografia, pois ainda são muito novos e tendem a ter traumas com as imagens que encontram facilmente em qualquer lugar da internet. A professora e especialista em estudos da pornografia, Gail Dines, afirma neste artigo que nunca estivemos antes numa geração em que homens e meninos estão a um clique de ver violência extrema contra mulheres de forma gratuita, e esses cliques que definem boa parte da educação sexual que essas crianças irão entender como relações normais.
A internalização também ocorre com os meninos, que podem se tornar agressores sexuais ou terem terríveis problemas de intimidade e com seu desempenho sexual. E qual a forma que o machismo encontra de “solucionar” problemas de auto estima masculina? Com agressividade e dominação. Agora faz sentido para vocês?

Não enxergar a pornografia não somente como sites e vídeos pornôs mas sim como grande disseminador de comportamentos e tendências da cultura pop é irresponsável. Porém, compreensível, já que toda essa indústria é justamente criada para naturalizar a exploração dos corpos, a violência de gênero e a submissão e objetificação sexual.

Há inúmeros dados mostrando a violência advinda do consumo pornográfico, os crimes da pornografia, e relatos de ex atrizes pornôs, mortes de mulheres durante ou períodos após gravações, inclusive, atrizes que fundaram associações para salvar outras mulheres que entraram nessa indústria. Mas isso parece chocar sem surpreender ou nos fazermos questionar por que tantas agressões, estupros (que só aumentam) e casos de feminicídios envolvendo parceiros ou ex-parceiros – o que, coincidentemente, envolve relações de possessividade com o corpo.

Não é possível respeitar as mulheres se você assiste corpos sendo violados.

“Ok, e se eu assisto somente vídeos sem ‘tanta violência’ ou com ‘sexo normal’?”

Primeiramente, vou responder essa pergunta com o menor tom de ironia possível. É um filme, uma atuação, qualquer um desses atos e do sexo que você acha e acredita fielmente ser normal, baseado em todas as histórias, fatos e relatos de atrizes e atores da pornografia, muito provavelmente – para não dizer com certeza – são forçados, contém dores que você não vê, exaustão que você não vê, pressão que você não vê, processos e situações com o corpo que você não vê. Tudo na pornografia é feito para parecer. E é claro que os produtores sabem que há um movimento anti pornografia, é claro que eles querem ser “bonzinhos” e também criar um conteúdo para que as pessoas possam dar a desculpa dessa pergunta acima, e continuar clicando, dando audiência, capitalizando.


Você não está vendo um “sexo normal e bom”, você está assistindo um recorte forjado de uma violência muito maior e obscura por trás da tela.

Sites pornôs recebem mais visitas do que sites de stream, vendas, e redes sociais mais famosos como Netflix, Amazon, e o Twitter. Um estudo mostra que meninos entram em contato com a pornografia antes mesmo dos 13 anos. Há um motivo para estes sites continuarem no ar, a maioria das buscas em plataformas pornôs são perturbadoras, como relações entre pai e filha, mãe e filho, entre irmãos, tags que classificam violência extrema, como: anal forçado, enforcamento, estupro, também divulgadas pelos principais sites pornôs mainstream. Mas não vou entrar nesse critério.

A Netflix produziu o documentário I Am Jane Doe que mostra a dura luta contra sites pornôs, pois além de todas as problemáticas já citadas, ainda tem grandes estatísticas de exploração de menores de idade, tráfico sexual, prostituição ilegal e de meninas menores de idade, onde os donos do site e cafetões anunciam essas vítimas. Mostra como isso é permitido, mesmo que a lei deva proteger crianças e tenha milhões de ações legais contra o tráfico sexual. Principalmente com bilhões de acesso diariamente que mantém audiência e cliques que mantém o algoritmo alto, logo mantém os patrocinadores, e logo mantém a exploração.

E aí nos perguntamos como existem organizações, polícia, e o governo inteiro mobilizados contra a exploração e prostituição se há em paralelo uma indústria que engrena e comporta todos esses crimes? Porque a pornografia, sua cultura e seu conceito de relações com corpos, está impregnada e é reproduzida não somente com seu consumo direito, com com tudo o que recebemos de conteúdo em massa, estética, música, filmes, histórias e formas de relacionamentos. E é tão intrínseco, que nós mesmos aprendemos e continuamos a nos comportarmos conforme essa estrutura que nos adoece. 

Agora aquele seu momento de prazer de 3 minutos na tela do celular, no seu quarto, não parece tão inofensivo, né?

Imagem de destaque retirada do Google via Medium- @yatahaze https://medium.com/anti-pornografia/por-que-a-prostitui%C3%A7%C3%A3o-nunca-deve-ser-legalizada-f23e1b0f308b

 

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