No dia 14 de março, foi aniversário da extraordinária escritora Carolina Maria de Jesus. Mulher negra, favelada, mãe solo, que só tinha o segundo ano do ensino fundamental e que descreveu em seu diário, com muita sabedoria e inteligência, o contexto social que ela e seus 3 filhos viviam na antiga favela do Canindé.

O diário de Carolina Maria de Jesus foi transformado no livro “Quarto de despejo”, com auxílio do jornalista Audálio Dantas, mas mantendo a escrita da autora. O livro foi traduzido para mais de 10 línguas e tornou essa mulher extraordinária e potente escritora numa referência para estudos sociais e culturais.

O contexto social vivido por Carolina Maria de Jesus é o de uma mãe solo, com 3 filhos, subjugada a pobreza e invisibilidade social. Mãe que não pode sequer adoecer ou descansar senão os filhos passam fome. Como a própria descreve: “Mas, o pobre não repousa. Não tem o previlegio de gosar descanço.”

Fazendo uma alusão ao contexto vivido pela escritora e sua família em meados do século XX, contata-se que a realidade da mulher negra/pobre no Brasil permanece a mesma quase seis décadas depois.

O estudo “Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira” divulgado pelo IBGE em 2018 traz informações importantes das condições sociais das mulheres negras. Quando se analisa, por exemplo, as atividades de MENORES rendimentos médios, fazendo um recorte por raça e gênero, conclui-se que proporcionalmente possuem mais ocupados de cor ou raça preta ou parda e pessoas do sexo feminino.

É importante ressaltar que em 2017, os brancos ganhavam em média 72,5% mais do que pretos ou pardos e os homens ganhavam, em média, 29,7% mais que as mulheres. Ainda sob o enfoque do rendimento, as pessoas de cor ou raça preta ou parda tiveram rendimento domiciliar per capita médio de quase a metade do valor observado para as pessoas brancas em 2017.

Uma análise realizada com recorte de perfis de pessoas que moram em domicílios formados por arranjos cujo responsável é mulher sem cônjuge com filhos de até 14 anos de idade, a incidência de pobreza está no patamar de 64,4%, se o responsável desse tipo de domicílio é mulher preta ou parda.

Ou seja, a realidade da mulher negra brasileira é cruel, especialmente se ela é mãe solo. Eis o questionamento: Até quando as mulheres negras viverão em quartos de despejos, tendo suas potencias invisibilizadas e suas existências desumanizadas?

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