Diferente do sentido que as manifestações vinham tomando, ocupamos o lugar da praça pública com organização e foco. Juntos vimos a mobilização de universidades, institutos federais, escolas de ensino fundamental e médio, mobilizados em prol de afirmar o descontentamento das decisões tomadas pelo governo. Em especial, aquelas relativas a educação.

Assim, ressignificando o sentido que alastrou nossa história desde 2014, tendo abril de 2016 a revigoração e retomada das ruas (GOHN, 2018) em luta incessante, que trava a todo tempo a disputa por espaços de protagonismo – protagonismo que chama ao debate a mídia. Mídia esta que, aliada a grandes projetos de poder se deixa vender pelo ódio, veicula e dissemina o contrário, o inverso o impuro e a inversão das lógicas de direito.

Os mais velhos precisam estar juntos dos mais novos nas ruas. Não é possível enfrentarmos tudo isso sozinhos, sem o olhar sábio dos mestres que vivenciaram a tortura, a ditadura e os tempos sombrios. Sem o olhar da experiência se encontrando com os nossos, sem o olhar daqueles que, mesmo tendo vivido tantas agruras, confiam a nós a esperança de dias melhores.

Reunidos, pela classe trabalhadora que mais possui mulheres ocupando os cargos, os trabalhadores da educação demonstram que, juntos com os estudantes, unificamos uma aposta de longa data. Aposta esta que demonstra, mais uma vez a força dos movimentos sociais e das mulheres como âncoras do processo de transformação da sociedade

Desse modo, contra a força do fascismo que se alastra pelo mundo, nossa luta continua. Em prol da contestação dos recursos roubados da educação, continuamos a nos mobilizar contra a apologia da barbárie, dedicação de voto para tantos outros, menos em prol do povo. O rancor e o ódio sem justificativa, são pulverizados e, enfraquecidos, o povo toma a rebeldia como essência maior, banalizando o mal entre nós (ARENDT, 1999; 2001).

“Não é por acaso que Bolsonaro e os seus odeiam os Direitos Humanos. Os Direitos Humanos são instrumentos de libertação das camadas oprimidas da tutela dos grupos privilegiados das sociedades. Eles são instrumentos de contenção do arbítrio e da violência dos poderosos. Eles são instrumentos das lutas por liberdade, igualdade e justiça, valores inarredáveis para o desenvolvimento da perspectiva de uma universalizante boa das sociedades e da humanidade”

Em tempos de analisar as diferentes formas de manifestação das opiniões, precisamos ter clareza do tempo que estamos vivendo, com resistência à unilateralidade e superficialidade de opiniões e o lugar da educação é o principal caminho de desenvolver estas questões. Neste ponto, lembramos que é inadmissível a vivência das tentativas de desmonte, apoiada por pequena parcela da população

População esta “[…] quem mesmo na presença de uma multidão, só vê a si, à sua classe ou grupo, em sua gulodice afogando o direito dos outros. É gente que quanto mais tem, mais quer, não importam os meios de que se serve. Gente insensível que junta à insensibilidade sua arrogância e malvadez; que chama as classes populares, se está de bom humor, “essa gente” de mau humor, “gentalha” (FREIRE, 2006, p. 18)

Neste momento de reunir esforços contra a falácia da reforma da previdência, que retira os direitos do trabalhador – DA CLASSE POPULAR, acreditamos que os cortes da educação é mais, é mais do que uma tentativa de ataque ao outro, é um atentado contra a luta das mulheres, dos negros, da população lgbtq. Pois, com a desqualificação da Educação Pública, redimensiona-se o panorama de avanços da mulher e das discussões de gênero, incindindo diretamente no mercado de trabalho, uma vez que afeta a inserção de mulheres em ambiente profissional e, principalmente, ameaça-se o futuro das crianças (aumento de mulheres sem emprego no mundo), em sua maioria as de periferia, as de classe popular.

Finalizando, em busca de agregar o engajamento de mais pessoas nesta luta, conclamamos os próximos à ocupar, cada um ao seu modo, às mobilizações que renovam nossa aposta no mundo, nossa fé no outro, no humano, no povo. As aulas, como diria Freire,
Precisamos ir juntos, contra o extermínio da vida de mulheres, em defesa de nossa liberdade de existir, sem nos aprisionarem, novamente, em correntes de miséria e apagamento da nossa voz, com discursos tomados pela homofobia, pelo racismo, fascismo, exploração do trabalhador e dos pobres.

Seja pelos cortes às 68 universidades federais, seja aos 640 institutos federais, entre outros cortes, compreendemos que viver a Rua com os nossos contemporâneos é um elemento de acreditar no direito ao estudo.

Com isso, viver a Rua com os mais experientes, é viver a educação, definitivamente, como prática de liberdade (FREIRE, 1976). De liberdade de exercer o direito de escolha dos rumos dos nossos futuros. Saudações jovens aos mais velhos que acreditam em lutar junto conosco, a aparar as arestas da diferença de nossas gerações. Nossas saudações por compreenderem que precisamos de vós/voz. E quanto mais gente, melhor.

Esta postura, sem dúvida é mais uma aula, pois acreditamos que somos parceiros, e, unidos, somos jovens em busca de nossos sonhos, estes não envelhecem, estão em pleno vapor, contra o orgulho e a concepção de autossuficiência. Acordamos neste fim de maio, recuperando a humildade e a crença que é na convivência em que ajudo e sou ajudado. Não me faço só, nem faço as coisas só. Faço-me com os outros (FREIRE, 2006, p. 57)

E com os outros, marcamos um tempo de crença em dias melhores para nosso povo, que acredita que lutar pelo respeito ao passado e em memória do futuro é ocupar o espaço de resistência à criminalização da educação e do trabalhador.

Imagem destacada fonte: Fotoarena/ Agência O Globo

Referências:

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. 8. ed. São Paulo, SP: Olho d’Água, 2006.
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade: e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
GOHN, Maria da Glória. Jovens na política na atualidade – uma nova cultura de participação. Caderno C R H, Salvador, v. 31, n. 82, p. 117-133, Jan. 2018

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here