Não é comum percebemos que estamos a cada dia enfrentando questões que nos afundam e desestimulam a viver. Arquitetada pela máquina de poder que tem como meta principal nossa desarticulação (e consequentemente, nossa submissão), nós mulheres somos alvo principal e, por vezes caímos na armadilha da rivalidade provocando o sentimento de estarmos sós.

Olhando em torno de nós, não é difícil perceber as características de ansiedade e melancolia entre nós mulheres. Ao indagar e refletir sobre isso, percebemos que, como seres essencialmente sociais (BAKHTIN, 2010; 2011) o contexto vivido nos agride a ponto de nos sentirmos culpadas por dedicar tempo a nós mesmas, a nossa gravidez, ao nosso corpo, a nosso bem-estar, ao café com a amiga. De modo sutil (para não dizer perverso), nos faz sentir culpadas por negar a nossa liberdade, aniquilando, inclusive nosso sexto sentido, nosso sangramento, nosso sorriso mais leve, nossa vontade de estar com o outro.

Cientes de que sempre teremos questões a enfrentar, buscamos empreender esforços de buscar a cura provisória para o amargo da vida. Já se perguntou o que te deixa triste? O que te tira a energia do viver? O que te deixa sem vontade de encontrar com pessoas? Tratamos disso, focalizando em especial a exigência da perfeição, do corpo escultural, do padrão estético e da “vida feliz do Instagram”. A influência digital da vida perfeita, mobiliza a cobrança de seres humanos cada vez mais insatisfeitos. E nós mulheres somos os principais alvos. E estes podem ser alguns indícios de que as coisas vão mal e é preciso cuidarmos disto.

Cuidar no sentido de não estabelecer expectativas de fora para dentro, ou seja, a partir do que é convencionado socialmente para organizar nossas metas individuais. Mas de analisar o que nos é valioso e o que realmente nos importa em meio ao contexto vivido.

Mesmo entendendo que nossas tarefas e escolhas são implicadas por este contexto social, compreendemos que somos sujeitos ativos deste mundo (BAKHTIN, 2006; 2011) e seria, muito fácil nos entregaremos nesta arena de disputa tão fácil. Não podemos deixar de reconhecer que esta disputa se dá numa lógica que busca firmar o regime patriarcal, tendo os homens (brancos, héteros e ricos) no poder, fortalecendo as elites (BOURDIEU, 2003). Haja vista, o histórico de massacres protagonizados por estes perfis.

Digo isso perspectivando nossas práticas que buscam escapar das intempéries sociais, vividas especialmente após o golpe sofrido pela presidência em 2016. O golpe à uma presidenta mulher revela o marco para tempos difíceis para nós. Revela que se por um lado vencemos o uso do espartilho, por outro, ainda carecemos de superar o as obrigações sutis de nossas condutas.

A exemplo da indústria da moda, do casamento, da mídia, entre outras convenções que estabelecem um único jeito de ser mulher, alterando nossas formas de ser e agir no mundo (ADORNO & HORKHEIMER, 2000). Para isso, reconhecemos a dificuldade de encontrar solução, mas também observamos que há caminhos de esperança, acreditamos que seguir alguns passos permite fortalecer os laços de alegria, escapando do infortúnio :

– Abandonar pesos, expectativas e amarras que foram construídas pela nossas famílias;

– Compreender que não precisamos atender às expectativas de nenhum blogger ou companheirxe, nem de amigos;

– Observar que temos limites próprios, particulares de nossa existência, de nossa história;

Portanto, estar cientes de que nos cobrar em prol de uma expectativa alheia é violentar nosso corpo, é exigir de nossas limitações humanas em prol de vaidades mundanas.

Com isso, buscamos neste exercício de texto, impulsionar à vida, a pulsão de existir e assumir o que nos traz paz. Assim, afugentar a angústia de viver em um mundo de obrigações e de tarefas “sem sentido”, em que as amarras do capital suga a força de sermos essencialmente vivos.

Ao exercer isso, vamos afastando o conceito de verdade absoluta, nos dando conta de que o encontro com o outro é necessário e de que vivê-lo nos torna fortes. Nestes encontros, observar que não escapamos de conflitos, estes são fundamentais para mover a nossa existência. Com isso, a cada encontro, percebamos, que o que há na verdade de mais incrível é a nossa capacidade de sobreviver em meio ao caos, de sermos criativos e de conduzir as agruras juntas. Pois é de mãos dadas que conseguiremos superar as amarras sociais e compor a feitura de um mundo muito mais leve e feliz.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 12. ed. São Paulo: Hucitec, 2006.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

BORDIEU. Pierre. Sistemas de ensino e sistemas de pensamento. In: BORDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2003. p. 203-229.

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ADORNO & HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991 (p. 113-129) e ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Conceito de Iluminismo. In: Coleção os Pensadores. Adorno. São Paulo: Nova Cultural, 2000 (p. 17-62).

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