Depois de uma discussão acalorada na volta pra casa, estou aqui pensando… Acho que eu tenho algum problema, talvez eu não seja desse planeta. Porque eu juro, que não entendo várias coisas. Eu me esforço de verdade pra me colocar no lugar do outro, pra tentar ver diferente…mas tem coisas que não descem sabe? Aquela sensação de que fica entalado da garganta da gente e não tem jeito, não desce goela abaixo. Entala mesmo.

Estávamos falando sobre a quantidade de crianças que trabalham aqui na nossa cidade. E olha que estávamos falando apenas da nossa cidade hein?
E vocês acreditam (eu realmente espero que existam pessoas que não julguem ser certo criança trabalhar) que as pessoas acharam super normal e agregador uma criança trabalhar? Ainda tive que ouvir… “mas seus filhos às vezes ajudam vocês com as atividades no Rancho ou fazendo entrega no caminhão”. Ok. Isso de fato ESPORADICAMENTE acontece sim. De fato, às vezes eles ajudam. Nas férias, ou no final de semana…e recebem um pagamento por esse serviço. E usam esse dinheiro para fazer algo que eles queiram. Normalmente coisas bastante supérfluas, como por exemplo… quero comprar um tênis diferente (mesmo que eles já tenham outros dois tênis), ou compram lanche na cantina da escola (normalmente eles levam de casa).
O que me incomoda, é dizer que esse tipo de “trabalho” que meus filhos esporadicamente fazem, é a mesma coisa que as crianças que trabalham para não passar fome. O trabalho esporádico ( entendam, é esporádico mesmo) dos meus filhos, não é a verdadeira face do trabalho infantil no Brasil. O trabalho infantil, não é o amiguinho deles que os pais são donos de uma loja bacana aqui na cidade, e aos sábados, ajudam nas vendas. O trabalho infantil no Brasil, está longe de ser aquela criança lindinha que agora é youtuber e ganha maior grana com isso (não que isso seja totalmente certo, ou que não tenha exploração em vários pontos, ou que essas crianças por vezes não tenham a sua infância prejudicada…mas vamos falar sobre isso em outro momento). Tanto meus filhos, como essas crianças (da loja aos sábado e do youtube), possuem sim um talento. E por trás disso, tem esforço, dedicação e parceria dos pais. A grande diferença é, se qualquer um deles parar de “trabalhar” hoje, vai faltar comida na mesa? Eles deixarão de ter seus lares confortáveis, por mais simples que seja? Perderão os privilégios que possuem?
A cara do trabalho infantil no Brasil, é triste e desumana. Tá longe de ser rostinhos felizes, brincando com suas Baby Alive ou Bonecos do Toy Story. A cara do trabalho infantil no Brasil, dói. Chora. É triste e criminosa. A cara do trabalho infantil no Brasil, reflete os olhos amedrontados e chorosos da garotinha que com 6 anos de idade, troca seu corpo por um prato de comida. A cara do trabalho infantil no Brasil, levou o sonho de se tornar um grande craque do futebol, do garoto que ainda na pequena idade, passa o dia com as mãos sujas de carvão, em troca de um pouco de alimento para sua família. A cara do trabalho infantil no Brasil, carregou pra longe a alegria do menino, que passa o dia inteiro cortando mandioca…e da sua irmã, que ainda mais nova, passa o dia cortando cana…e da priminha, que agora quebra coco o dia inteiro. Nem de longe, podemos comprar essas crianças. Infelizmente, há um bordão antigo que ainda é comum ouvirmos (bordão este que carrega consigo uma questão cultural e histórica) que diz: “trabalho de criança é pouco, mas quem dispensa é louco”.

Não se iluda.
O trabalho infantil que precisamos combater, não é o garoto bonitão, bem vestido e alimentado que ajuda o pai aos sábados na loja. É muito longe disso.
Hoje, eu, adulta, trabalho e estudo. E acreditem, é foda! Muito difícil. Muito mesmo. Não conheço uma única pessoa que viva isso = trabalhar + estudar, e não entende que é difícil pra caramba. Se trabalhar e estudar é difícil para um adulto, imagina pra uma criança? Nós, adultos, ficamos cansados. Por vezes faltamos as aulas. Ou dormimos mesmo, de cansaço. Ou não absorvemos nada do conteúdo. Ou seja, o trabalho influencia sim diretamente no aprendizado.

O pior de tudo isso, é que todas as vezes que a gente concorda, dá forças, legitima o trabalho infantil…com esse discurso hipócrita de que “na minha infância eu trabalhei e isso fez de mim uma pessoa melhor”, você é também responsável por todas as pessoas que se apropriam dessa ideia de “é normal e faz bem para criança trabalhar”, para que essas crianças sejam exploradas, tenham seus sonhos e oportunidades roubados. Você mata o futuro daquela criança.

Para combater a cara triste de desumana do trabalho infantil no Brasil, foi elaborada uma lista TIP (Trabalho Infantil Proibido), onde constam as piores formas de exploração do trabalho infantil. Existe também o Decreto 6.481, de 2008, ratificado na Convenção nº 182 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) que proíbe a atividade laboral para crianças e condena práticas como o trabalho infantil doméstico. Porém, essa proibição ainda está em muito discurso e pouca prática.
Continuamos convivendo com a cara triste de desumana do trabalho infantil no Brasil.
Precisamos nos livrar de vez desta cara. Como? Ofertando educação no modelo integral, assistência médica preventiva e curativa e, ainda, acesso ao lazer e atividades culturais. Aí sim, conseguiríamos devolver os sonhos, alegria, saúde e sorrisos para essa face tão prejudicada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here