Poderia ser só mais uma história dessas que viralizam e a gente ganha vários likes.

Mas não é.

Pedro, tem 10 anos. Estuda numa escola particular (que acredite você, fazemos um esforço hercúleo para isso. E sabemos sim o quanto somos privilegiados em conseguir proporcionar ao Pedro, essa oportunidade). Mas esta história, não é sobre o Pedro.

Pedro tem um amigo na escola, Marcelo o nome dele. Pedro, sempre fala muito deste amigo. Marcelo também tem 10 anos.

Na escola, eles fazem várias atividades juntos, brincam. Todas essas coisas de criança da idade deles.

Outro dia, Pedro chegou em casa sem o casaco que foi pra escola. Quando questionei se ele havia esquecido na escola, ele me disse que havia dado a um colega. Nós não somos uma família de alto poder aquisitivo, temos o hábito de doar sim roupas, sapatos e etc. Mas fazemos isso quando trocamos o sofá da sala, ou quando Pedro ganhou uma mochila nova pra escola, ou quando as roupas de Pedro ficam curtas. Não que a gente doe coisas ruins, longe disso. As coisas sempre estão em bom estado, apenas achamos melhor doar que vender em algum grupo de desapega ou bazar. Já que mesmo com toda dificuldade, somos uma família que consegue ter um pouco em casa. Perguntei então pra Pedro o motivo dele ter dado o casaco que ele usava naquele dia e ele disse: “Mãe, é que tem um menino na minha sala que é meu amigo. O Marcelo, você sabe quem é ele néh? Ele sente frio na sala todos os dias, não tem casaco. Eu tenho dois, dei esse pra ele.”

Naquele momento, fiquei por alguns segundos olhando meu filho… Meu coração se encheu de um misto de alegria e tristeza ao mesmo tempo.

Alegria por saber que estou no caminho certo. Pedro tem sim que aprender a dividir tudo. Aprender a ser grato por tudo o que tem. Aprender a lutar por igualdade. Ser justo. Correto. Íntegro.

Tristeza porque Marcelo, embora seja um grande menino, faz um esforço surreal para conseguir estudar, ter uma vida “normal”. Fico ainda por vezes sem entender como duas crianças podem ter realidades tão diferentes… E nem estou falando de um menino muito rico e um menino muito pobre. Nossa família está longe de ser muito rica. Somos uma família de 3 pessoas. Vivemos numa casa simples, com um pouco de conforto (televisão, geladeira…internet…mas nada que se destaque das outras famílias que vemos por aqui). É tão injusto tudo isso. Essa discrepância entre as crianças…entre todos nós.

Marcelo é super inteligente, educado, comportado. É bolsista na escola. Vem de uma família bem carente. Marcelo conseguiu esta bolsa, depois de um longo processo seletivo, para orgulho de toda sua família. Ele é mesmo MUITO inteligente e IMENSAMENTE esforçado. Marcelo é o tipo de menino que toda mãe diria ser “um amigo de boa influência para seu filho”. Pois ele tem valores muito nobres cultivados dentro dele.

Pedro e Marcelo estudam de manhã.

Pedro acorda às 06:00. Toma banho enquanto eu faço o café da manhã. Se arruma, toma café (normalmente um leite com chocolate, um misto, ou pão torrado) e vai pra escola. A van passa na porta da nossa casa e o deixa na escola.

Marcelo, acorda às 04:30. Levanta, ajuda a mãe a organizar algumas coisas para o dia (colocar roupa na sacola da irmã, arrumar a cama, molhar a hortinha que eles cultivam do ladinho da porta da casa). Se arruma, Arruma a irmã mais nova enquanto a mãe prepara um café com bolachas. Eles comem bem rapidinho para não se atrasarem. Saem a pé pra casa da avó, andam uns 5 quarteirões até lá. A avó, fica com Aninha, irmãzinha de Marcelo, enquanto ele está na escola e a mãe no trabalho. Já são 6:20. Marcelo pega a bicicleta que ganhou do rapaz da mercearia (vizinho de sua avó, que ficou compadecido da distância entre a escola e sua casa) e se direciona pra escola. Que sorte! Hoje não estava chovendo. Marcelo chega na escola, deixa a bicicleta no cantinho e vai pra sala de aula.

Marcelo e Pedro logo se encontram, se cumprimentam… estudam, conversam, brincam. Pedro divide seu lanche com Marcelo (que nessa altura do campeonato, já mando até um pouco à mais, é o mínimo que eu posso fazer).

Depois da aula, Pedro volta de van pra casa. Almoça, faz dever de casa, estuda um pouquinho. Brinca. Joga no celular. Lancha. Assiste TV. Janta… Toma banho. Dorme.

Marcelo, vai de bicicleta até a casa da avó. Eles dividem o almoço, Marcelo ajuda a avó com algumas coisas em casa, é que a vovó não anda muito bem de saúde. Depois ele brinca um pouquinho com sua irmã. Faz dever enquanto a irmãzinha dorme um soninho da tarde (porque ela gruda nele feito um carrapatinho… e é bem difícil estudar com uma criança de 3 anos querendo atenção, seu caderno, seu lápis e etc). Às 16:00 horas, Marcelo vai pra Mercearia (do rapaz que lhe deu a bicicleta). Marcelo ajuda a receber umas mercadorias, organizar as prateleiras, já sabe até fechar o caixa! Marcelo fica na Mercearia até às 20:30, que é exatamente o horário em que sua mãe chega, e a Mercearia fecha. Marcelo recebe R$350,00 mensais por este “trabalho”. E normalmente esse dinheiro fica todo lá, pois a vovó precisa de um pacote de arroz, acaba o gás, um feijão… Marcelo, Aninha (sua irmãzinha) e a mamãe, vão pra casa. Quando chegam em casa, Marcelo estuda um pouquinho, toma um banho, come alguma coisa e vai dormir.

E no outro dia, é sempre a mesma coisa…

No final do ano letivo, teve uma Olimpíada de Matemática. As crianças estavam polvorosa. Queriam participar, queriam ganhar!!!

Marcelo ficou em 2º lugar.

Foi muito emocionante ver a mãe dele pulando de alegria no meio do salão, quando o nome do Marcelo foi chamado para receber a medalha de prata! E a mãe dele gritava….é prata! Meu filho, parabéns!

Marcelo fez até um discurso. Incrível como uma criança de 10 anos, é mais madura que muito adulto por aí. E…como isso é pesado também. Pois Marcelo, mesmo sendo um bom menino, não tem muito tempo pra ser criança. Não que ele reclame disso, aliás, nunca ouvi uma reclamação dele a respeito disso. Mas a gente, que tá de fora, consegue perceber o quanto aquele menino, “precisa” ser um homem, pulando sua infância.

Fico me perguntando, quantos Marcelos existem por aí? E olha que mesmo sendo difícil, com todo este esforço…ter a oportunidade de conseguir uma bolsa como ele conseguiu, é bem difícil mesmo!

Quando nossas crianças terão acesso à educação de qualidade, sem tantos desafios. Quando essa conta será equalizada?

Quando todas as crianças terão a mesma oportunidade? Quando as crianças não precisarão trabalhar pra ajudar a pôr um pouco de comida na mesa?

Quando nossa maior arma, será de verdade mesmo, acesso à educação?

Quando todas as crianças terão a oportunidade de um ensino de qualidade, em uma escola pública?

Quando as escolas terão capacidade para abraçar todas as crianças?

Quantos sonhos serão plantados na infância? Quantos darão frutos?

Quanto cada criança pode se permitir sonhar? E o mais importante… viver esses sonhos. De forma palpável. Ter oportunidades iguais.

Eu torço muito, para que o Marcelo se torne um grande homem. Que ele e Pedro continuem amigos.

Que ele ganhe muitas medalhas. Muitas. Que ele consiga ter não só um futuro digno, mas um presente mais livre. Que ele consiga ser criança, que ele brinque mais. Que ele sonhe muito. Muito. Continue estudando, se esforçando e sendo esse menino do bem que ele já é.

Que a gente um dia…consiga diminuir um pouco a diferença desse nosso mundo..

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

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