Quando eu engravidei todos me diziam: tomara que seja uma menina, meninas são mais calmas, meninos são muito arteiros. Meninas são mais comportadas, obedecem, não aprontam. Meninos são muito bagunceiros, sobem nas coisas, dão muito trabalho.

Foi então que eu me peguei pensando: quero ter um menino. Porque eu queria ter uma criança que pulasse, brincasse, corresse, e, de acordo com as opiniões alheias, meninas não eram assim.

Com 13 semanas descobrimos que seria uma menina e eu fiquei feliz da mesma forma. Esqueci todas aquelas regras e pensei: minha filha vai ser feliz da forma que ela quiser, agitada ou calminha, comportadinha ou bagunceira, porque crianças são singulares, e não podemos separar personalidades pelo sexo. Não podemos definir como ela vai agir por ser menina ou menino.

Quando ela nasceu foi um tapa na cara da sociedade desde os primeiros dias de vida. Ela era incrível e nós (eu e o pai) demos conta de suprir suas necessidades. Passamos por diversos problemas em lojas de roupas ou sapatos, para tentar comprar alguma peça básica, preta ou branca. Por não colocar brincos em suas orelhas, por deixá-la sem faixas na cabeça. Ela nasceu em dezembro, no interior de São Paulo que faz quase 40 graus. Cabeluda. Tudo que ela não precisava era de mais calor.

Por alguns meses eu achei que estava completando o trabalho, que era isso e pronto, mas então outras questões foram chegando e a ficha finalmente caiu: Ela é mulher. Eu tenho uma filha. Não importa o que eu faça, ela vai ser sugada pelo patriarcado de qualquer forma, e isso é assustador. É triste.

Em uma festa infantil haviam algumas crianças brincando de bola, e eu sempre incentivando: vai lá com eles, chuta a bola. A mãe de um dos meninos, que tinha a idade da minha filha na época (1 ano e 9 meses), virou pra mim e disse: Meu filho não brinca com meninas, não sei porque. Ele é machista desde pequeno, não ensinamos isso pra ele, mas ele só gosta de brincar com homens, principalmente de bola. Eu não estava acreditando naquilo, e respondi como reflexo: A minha filha é brava, se ela perceber que estão ignorando ela de alguma forma, ela bate. A mulher gritou: Filho, joga a bola pra menina, joga. Minha filha jamais iria bater por ser “ignorada” rs Ela na verdade não estava nem ai. Minha filha tem uma paciência absurda, mas quando disse que ela era brava, eu não estava mentindo não. Ela calcula tudo, se alguém provoca ela sai de perto, está sempre evitando todo tipo de confronto, mas se perder a paciência ela age sim. Eu acho incrível esse controle, pois hoje ela tem apenas 2 anos.

Eu temo por ela e sinceramente não sei como vou educá-la com relação a provocações, briguinhas, etc… Por enquanto digo “conte sempre para um adulto”, mas nós somos mulheres, e sabemos que na escola com 8, 9 anos, contar aos nossos professores ou pais nunca resolveu muito, né? As agressões ou bullyng sempre continuavam então ainda estou pensando como vou ensiná-la a se defender. Por enquanto ela sai de perto e ignora antes de agir.

Ter filhos, num geral, é difícil, exige uma paciência triplicada. Paciência com a cria e com os palpiteiros de plantão. Ter filhas meninas é muito muito muito difícil, porque além de nos preocuparmos e nos cansarmos com tudo do dia dia, ainda pensamos em como vão tratá-la, seja hoje ou no futuro.

Gênero não é escolha, é consequência do patriarcado. Gênero é hierarquia, e sabemos bem quem comanda.

Ninguém quer ser mulher, ninguém quer sofrer de fato todas as opressões que uma mulher sofre desde o primeiro choro até o ultimo.

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