Precisamos falar sobre o funk (E não, ele não é machista)

Desde que eu iniciei no movimento feminista vejo duras críticas ao funk, a maior parte vinda de mulheres brancas que não imaginam qual é a realidade dentro das regiões periféricas do Brasil. Não vou ser hipócrita em afirmar que todas essas críticas estão erradas, algumas de fato são pertinentes, mas nesse texto eu quero falar sobre o porquê o funk é tão descriminado, até dentro de movimentos sociais.

O funk nasceu na periferia carioca, uma estilo feito e consumido majoritariamente por gente preta, a parcela mais discriminada de nossa sociedade. Dizem não gostar de funk pois suas letras falam de guerra, tráfico, por serem eróticas, “vulgares” mas, será que é por isso mesmo?

Quando um Mc canta sobre o tráfico de drogas em um funk proibidão ele só está cantando a realidade dele, a realidade de dentro das favelas – que inclusive também é a minha. Não cabe a nós o julgarmos pela situação que ele relata e sim entendermos o contexto. Se a nossa realidade é a guerra esperam que falemos sobre flores? A violência é parte da vida de todo favelado e o funk é um grito, é a expressão da favela, é a forma que temos de mostrar ao mundo o que acontece naquele espaço tão invisibilizado, se é incomodo pra você escutar imagine pra nós que temos que viver isso.

“Ah, mas o funk é machista” NÃO! O funk é um estilo musical, é só um ritmo, ele em si não é machista ou misógino, mas assim como em qualquer outro estilo musical podem existir letras machistas e isso não faz com que todo um estilo musical com um grande histórico de luta seja machista. Existem consagrados artistas da MPB cantando músicas com o conteúdo super misógino e ninguém fala nada, sabe por que? Porque essas músicas geralmente são feitas por pessoas brancas de classe média. Isso vale pra qualquer outro estilo, no rock, no pop, no jazz, onde procurarmos vão ter letras misóginas que ninguém critica, existe uma seletividade muito grande ao se falar de funk, tentam a todo custo calar a pouco voz que o povo favelado tem, isso ocorre até dentro do feminismo, esquecendo que algumas das principais vozes femininas e feministas da atualidade vieram do funk, como Valesca que a muito tempo já relatava em suas músicas situações de abuso que vivenciava e hoje canta firmemente que nossa buceta é o poder e as Mc’s Karol Conka e Carol bandida que juntas cantam o hit 100% feminista. Essas mulheres são responsáveis por levar o feminismo a lugares que antes ele não chegaria, saindo dessa esfera acadêmica que ele tem, o funk também dá voz a nós mulheres.

A crítica ao funk na maior parte das vezes provém do racismo, de forma inconsciente mas, provém. É muito interessante para algumas pessoas que as vozes de pessoas pretas e periféricas sejam silenciadas cada vez mais, os movimentos sociais vestindo a farda do “politicamente correto” acabam cooperando com esse silenciamento, mas a realidade de quem mora na favela também precisa ser vista, precisamos escutar o funk com outros ouvidos, perceber as críticas sociais ali presentes, funk também é música de protesto, é resistência pra quem nunca teve voz.

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