O termo me chamou atenção ano passado quando li um texto da Clarice Falcão no facebook. Depois de ter sido chamada em um artigo de manic pixie dream girl, ela resolveu desabafar sobre como apesar de ter realizado inúmeras coisas na vida, continuava sendo lembrada como “aquela que casou com um cara”.

Pesquisei e descobri que manic pixie dream girl foi uma expressão utilizada pelo crítico de cinema Nathan Rabin para definir a personagem de Kirsten Dunst no filme “Tudo acontece em Elizabethtown”, como “algo adorável mas sem profundidade”.

A partir dessa definição pode-se concluir que o estereótipo da MPDG tornou-se o modelo ideal de personagem feminina para atrair leitores e cinéfilos dos anos 2000/2010, provavelmente ainda irá perdurar por muito tempo e há quem ache isso uma coisa boa.

Se no passado o padrão eram as bond girls extremamente sexys e nada complexas, a demanda por maior representatividade de mulheres reais na ficção colocou as MPDGs em foco.

Porém, apesar da mudança de aparência a intenção continua sendo a mesma. Ainda que a hipersexualização tenha sido posta de lado, a forma como a ficção tem usado garotas aparentemente comuns (mas ainda sim padrão) e as vestido com uma suposta capa de complexidade, só mostra que elas continuam sendo meros adereços para contarem a história do personagem masculino que normalmente é seu possível par romântico.

Quantas vezes você já não se perguntou por quê a garota retratada nos filmes como “não tão bonita” ou “estranha”, é na verdade linda?

– Umas das inúmeras vezes em que me questionei isso foi em relação à Tiffany, personagem de Jennifer Lawrence no filme “O lado bom da vida” –

Basicamente a maioria das garotas “esquisitas” e “incompreendidas” do mundo, continuam sendo representadas nos filmes por mulheres brancas, magras e heterossexuais.

Como fã de cinema me vi durante toda a vida encantada com algumas delas. Sempre tive um apego maior pelas personagens que fugiam do padrão, mas hoje vejo que na verdade elas constituem um novo padrão, onde apesar dos autores tentarem desviar nossa atenção continuamos sendo invisibilizadas por modelos criados somente para agradar o gosto masculino.

Por isso, decidi começar a fazer um exercício de imaginar mais daquela personagem além do que a história mostra. Criar na minha cabeça tudo o que ela poderia ser. É difícil se desprender de referências tão fortes. Alice Ayres e Marla Singer por exemplo sempre foram importantes para mim, e esse foi o meu jeito de não descartá-las da minha vida.

Contudo, isso não é o bastante. Concordo totalmente com a Clarice quando ela diz que precisamos promover uma manicpixiedreamgirlarização da vida, e o cinema é parte fundamental nisso.

Querendo ou não a cultura pop reflete o estado de espírito de uma geração e devolve a influência ditando o padrão de forma ainda mais forte. Por isso, é preciso parar de reduzir mulheres a seus relacionamentos, para que consequentemente elas deixem de ser representadas nos filmes como criaturas que só tomam decisões em prol do destino do protagonista homem.

Essas personagens já existem e não podemos apagá-las, além disso de uma forma ou outra elas deixaram uma marca no cinema, mas esse é o momento de Ramonas Flowers diferentonas sem nenhum motivo além de agradar os fetiches dos Scott Pilgrim da vida, deixarem de ser reproduzidas em outras histórias. Ou Summers inatingíveis apenas para proporcionarem algum tipo de desafio que force o amadurecimento de Toms. Ou ainda Clementines que apesar de parecerem fortes por si, são apenas uma compensação pelo fato dos Joels serem completamente desinteressantes.

Precisamos de mulheres com seus próprios dilemas que até vivam histórias de amor, mas que não se apoiem nelas para mostrarem suas personalidades e principalmente que não sejam usadas como escada.

O filme Mulher Maravilha fez um belíssimo trabalho nesse sentido, pois além de finalmente ter introduzido uma heroína com autonomia no cinema, mostrou uma mulher com personalidade verdadeira, forte, mas com seus momentos de fragilidade. Também avançou no quesito físico deixando para trás o estereótipo Barbie da primeira Mulher Maravilha interpretada por Lynda Carter na TV em 1976.

A série Jessica Jones onde Krysten Ritter interpreta a protagonista, também tem contribuído para o empoderamento feminino na ficção, trazendo uma (anti) heroína com visual simples e até um pouco introspectivo que discute questões realmente relevantes e amadurece de acordo com suas próprias escolhas.

As princesas Disney que podem ser consideradas tradicionalmente como as maiores manic pixie dream girls já existentes, também tem passado por mudanças. Apesar da animação de 1998 que contava a história de uma Mulan  com viés claramente feminista, de forma geral a vida das princesas em tela sempre teve foco em romances e belos vestidos. A grande virada veio com Merida, Elsa e Moana, mostrando que tudo pode continuar sendo interessante mesmo sem príncipe.

Esses novos rumos de personagens femininas só foram possíveis porque mulheres engajadas e comprometidas em trazer a realidade para a ficção estiveram envolvidas em todos esses trabalhos, seja na roteirização, produção ou direção.  Mas ainda é pouco. Mulheres tem um reconhecimento infinitamente menor do que homens no cinema, por isso é tão importante que além de ocupar esses espaços, nós apoiemos esses trabalhos.

Consumam filmes, séries, livros e músicas criados por feministas e vamos contribuir para que cada vez mais mulheres de verdade sejam representadas.

Confira o texto original de Clarice Falcão.

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