Recentemente a blogueira Daianne Possolly vivenciou a situação com o seu novo corte de cabelo, que foi desaprovado por alguns seguidores. Dainane está na profissão desde 2007. Focaliza em especial, tanto no blog, quanto no instagram, inspirações para cabelos cacheados, o que tem demonstrado a muitas mulheres possibilidades de se relacionar com o seu próprio corpo, em especial no momento de transição capilar. Como informa sobre sua percepção com relação ao impacto de seu trabalho na vida das pessoas:

Daianne: Busco sempre incentivar a autoestima, amor próprio e autoconfiança. Essa é a minha mensagem desde sempre no meu trabalho com a internet, quero estimular cada pessoa a ser quem deseja ser. Por exemplo, eu falo muito sobre cabelo cacheado e transição capilar, mas nunca impus ninguém a “assumir” o cabelo natural, pois cada um deve fazer o que quer com a própria vida desde que isso não viole o direito do outro. Ser dona do próprio corpo e buscar a felicidade e realização devia ser fácil, mas não é; há muitas expectativas criadas em cada um de nós desde muito cedo e é complicado descobrir quais são nossas verdadeiras metas e sonhos e o que foi imposto e esperado para nós.

Nos últimos dias, a discordância com relação ao seu novo corte de cabelo cacheado com franja tomou destaque, vindo carreada de comentários negativos, pessimistas. Com isso, entramos em contato com ela, a fim de que compartilhasse conosco os sentimentos relativos ao acontecimento, indagando primeiramente como ela se sentiu com os comentários negativos em relação sua nova opção de corte:

Daianne: Bem, é muito raro receber comentários negativos e, mesmo quando eles não são direcionados a mim, eu sempre fico surpresa. É difícil entender por que alguém comentaria algo desagradável sobre o corpo de alguém, independentemente de quem seja essa pessoa. Já passou da hora da gente parar de opinar sobre o corpo alheio e com o que cada um faz com o próprio corpo. [sobre o que leva as pessoas a agirem desta forma] É muito difícil julgar, porque com certeza podem ser razões diversas: baixa autoestima, infelicidade e até mesmo reprodução de um discurso que ouvia de alguém.

Somando a esta reprodução de discursos, temos os algoritmos das redes sociais, procedimento que contribui para a formação do pensamento único dos internautas (A ideia do pensamento único é um termo inicialmente desenvolvido por Schopenhauer, onde é elaborada a ideia de o pensamento se auto sustenta, é independente e, desconsidera outros elementos para se constituir). Sobre a existência dos algoritmos, Daianne coloca que existem pontos positivos e negativos:

Daianne: Olha, definitivamente, os algoritmos tem pontos positivos e negativos… se eu pudesse escolher, eu manteria esse algoritmo de aparecer mais o conteúdo das pessoas com quem eu mais interajo do que aparecer tudo de todo mundo. Eu acho que é um bom filtro, mas tem pontos negativos também, às vezes você não vê alguma novidade de alguém mais distante de você.

Podemos inferir que os algoritmos das redes sociais contribuem para dificultar nossa percepção com relação aos acontecimentos que circulam nas redes sociais. Funcionam alimentando a sua timeline a partir do que você mais curte, comenta e compartilha. Assim, você passa a interagir com aquilo que geralmente você acha legal, interessante e te agrada. O conteúdo com o qual você não interage, apenas olha e passa batido, com o tempo, passa a ver apenas assuntos relacionados àquilo que você interage com frequência, ficando outros assuntos “escondidos”, no amontoado de informações que circulam.

E, com a vitrine das redes sociais, a dificuldade de enxergar o outro, como legítimo outro vai se tornando uma constante, pois começa a se constituir um padrão, um modo de ser, de usar, de pensar, de conviver. Com esse comportamento, gera-se uma corrida por viver a vida no chicote do capital, a partir das ideias impostos por um padrão de vida, viajando para o lugar da moda, postando e comendo a comida do lugar mais badalado, demonstrando uma aparente felicidade que às vezes nem é algo que gostamos tanto vendo nas fotos ou em uma propaganda.

Padrão que trás de brinde a arrogância, como se o centro do mundo girasse em prol do próprio bem estar. E, junto com a expansão de perfis com temas de auto respeito, autocuidado, o pensamento diverso e crítico é confundido com desrespeito, provocando a imposição de parâmetros de beleza, de estilos de vida, de alimentação, de vestuário, etc. Cegos pela padronização propagada pelo meio midiático, reproduzimos na vida, a forma de ser e estar no mundo, esquecendo das especificidades de cada ser humano, das diferentes histórias de vida e, impondo no outro, um jeito de ser a partir do que nós achamos que é melhor (Que cruel isso!).

Com isso, observamos cada vez mais, a atualidade de debatermos sobre a empatia, ter sensibilidade e respeito ao outro, sem requerer nada em troca! Como podemos aprender com a leitura de Hannah Arendt, em sua ideia de amor ao mundo ou com Marielle Franco, em sua infinita faculdade de compreender emocionalmente os seres humanos, semelhantes ou diferentes de si. Capacidade esta de se ver no outro e ter compaixão, a ponto de lutar por ela, por elas, por eles, por nós, com sua própria vida e desta maneira, entender o mundo como se fosse impregnado em nós. Sem julgar o que é bom para o outro apenas a partir de nossas próprias experiências, desconsiderando o contexto que ele vive. Então, se estou vivendo com o meu cabelo branco e cacheado, ou com meu peito caído e acima do peso, ninguém pode tirar de mim a escolha de ser assim.

Diante de tantas informações, nos debruçamos sobre nossa existência na terra, nossos modos de existir e, especialmente as impressões que manifestamos às pessoas, na liberdade de segui-las nas redes sociais ou não. A liberdade de expressão existe e, também é muito necessária, mas, precisa ser utilizada com parcimônia e de braços dados com a educação. Caso contrário, de nada mais servirá, a não ser para alimentar a intolerância e o ódio tão presentes nos tempos atuais.

Afinal, já dizia Bell Hoks: “Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grau em que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimos capazes tanto de auto amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradável para nós mesmas […] Em uma cultura de dominação e desigualdade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que frequentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração” (HOOKS, 2005).

Referências:
HOOKS, Bell. Alisando nosso cabelo. Revista Gazeta de Cuba – Unión de escritores y artista de Cuba, jan. 2005. Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos.
SCHOPENHUAER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

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