Há meses que não consigo escrever. Na verdade, não tenho conseguido fazer muita coisa que exige concentração. A situaçao política em que nos encontramos me atingiu em cheio, não só a mim, mas a maioria das pessoas que conheço, em especial mulheres. Tenho sofrido fisicamente também essa campanha eleitoral. A jornalista Eliane Brum descreveu perfeitamente a sensação, em seu brilhante artigo para o El País ( link para o artigo completo https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/16/politica/1531751001_113905.html ) : ela explica como a opressão começa no campo simbólico e que muitas mulheres se sentem “sem voz mesmo tendo voz, sem forças mesmo tendo forças”. Que sentem toda a violência da campanha de um dos candidatos à presidência em seus corpos, tal qual uma pessoa que é violentada. É exatamente assim que me sinto.
Entre tantas conversas, uma prima querida, que mora fora do país, me disse que pareciamos estar vivendo um livro de José Saramago, numa epidemos de cegueira. Ouvir aquilo fez muito sentido para mim.

Em seu livro Ensaio sobre a Cegueira (que deu origem ao filme homônimo, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles), o escritor português descreve uma epidemia de cegueira que se espalha por todo o mundo, rapidamente contaminando a todos. A cegueira é apresentada como sendo diferente, pois não é uma cegueira relacionada à escuridão, mas uma cegueira branca, cor de leite, como se fosse um excesso de luz e não a falta dela, fazendo uma crítica à cegueira moral.

Essa ideia de cegueira branca me remete ao que estamos vivendo, pois parece se espalhar à medida em que ela chega atráves da luz forte e branca das telas de nossos smartphones. Somos bombardeados de noticias falsas, com tal velocidade e intensidade que a cegueira se alastra esponencialmente, à velocidade da luz.
No romance, Saramago mostra o desepero e medo que toma conta da população e do governo, que, para tentar evitar mais contágios, manda as pessoas infectadas para serem reclusas, aprisionadas mesmo em hospitais abandonados, como em guetos, e onde são fortemente vigiadas pela polícia para que não escapem. Rapidamente, esses “guetos” vão ficando superlotados, pois nada parece conseguir deter o contágio da cegueira desconhecida.
Como não comparar à nós mesmos, aprisionados em nossas bolhas digitais e sociais, enquanto a epidemia da auto-verdade e das fake news parece se alastrar sem ser detida? E como essa bolha é justamente alimentada por medo e desespero. Independentemente se o medo é real ou falsamente criado, ele parece tomar conta de todos nós e governa nossas decisões e atitudes.
O que se segue ao desespero, tanto na ficção quanto na realidade, é um verdadeiro caos. A cegueira faz com que as pessoas deixem de ver umas às outras deixando emergir os sentimentos mais mesquinhos e egoístas. E a violência toma o lugar da civilidade.
Inicialmente tentando sobreviver juntos, os infectados de Saramago logo começam a se dividir em grupos, e parte deles começa a explorar e abusar dos demais. Quando se colocam uns contra os outros, a violência, intolerância e crueldade explodem, desumanizando a todos.
Há no livro uma personagem que, por motivo desconhecido, não se contamina e, por ser a única que enxerga, prefere não revelar isso aos demais. A personagem se desdobra para manter a organização, união e mínima funcionalidade do grupo. Ela se sente responsável pelos outros e o peso disso é imenso.

Em um cenário em que muitos parecem cegos e imersos em tanto ódio e intolerância, aqueles que enxergam têm uma responsabilidade moral muito grande. Quem vê claramente não pode se abster e se isentar e, tal qual a personagem do romance, luta, sofre, se desgasta profundamente.
Diante de toda violência que já presenciamos, e do medo do que está por vir, muitos de nós nos perguntamos – como é possível? Como tanta gente não está enxergando o que está acontecendo? É difícil encontrar uma resposta.
Saramago, com toda sua genialidade e sensibilidade encerra seu romance com esse questionamento: “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

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