Símbolo da campanha “Nunca foi um vestido”, idealizada por Tania Katan da empresa Axosoft, para incentivar mulheres em carreiras tech.

*Devido ao fato de mulheres trans possuírem uma socialização diferente e portanto uma relação mais complexa com a performance de feminilidade, não se encaixam no panorama exposto aqui.

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Feminina (segundo o dicionário):

1 – Próprio de mulher.
2 – Próprio de fêmea.
3 – Que é do gênero feminino.
4 – gênero feminino:  gênero das palavras que indicam fêmea ou das que se consideram não masculinas.

“Sou feminina e não feminista”.

Quantas vezes você não ouviu ou leu essa frase?

“Ser feminina”, performar feminilidade e feminismo foram colocados pelo senso comum no mesmo bolo que dividido ao meio ilustrou para a sociedade que o feminismo prega o fim da feminilidade e portanto não seria possível ser “feminina e feminista” ao mesmo tempo.

Há inclusive uma discussão filosófica profunda no feminismo sobre o que de fato é ser mulher.

Existem diversas interpretações para a célebre frase de Simone de Beauvoir:
“Não se nasce mulher, torna-se”.

Por definição teórica, pode-se dizer que “ser feminina” é algo inato ao indivíduo do sexo feminino, que toda pessoa pertencente a ele é feminina, principalmente pelas características físicas e biológicas que compõem o que conhecemos como gênero feminino: seios protuberantes, vagina, útero e etc. Com isso e os traços de personalidade associados às mulheres como: intuição, instinto materno, delicadeza e passionalidade, desenvolveu-se um papel de gênero que ficou atrelado a elas.

Como fêmeas de uma espécie, tecnicamente por herança evolutiva temos características que seriam pertencentes a um papel social padrão desempenhado por mulheres em uma realidade menos civilizada e fundamentais para a sobrevivência. Talvez na época das cavernas, instinto materno ou esse senso maior de zelo fossem considerados determinantes para definir mulheres, mas estamos em outros tempos, que requerem outras formas de sobreviver.

Hoje, sabe-se que uma parte das mulheres tem essas características em comum, mas nem todas as possuem ou precisam fazer uso delas seguindo um modelo predeterminado.

Ex: não é porque uma mulher possui um útero saudável e tem afeição por crianças, que obrigatoriamente ela precisa se tornar mãe.

O papel de gênero perpetuado pressiona mulheres a reproduzirem compulsoriamente (sem questionar) um conjunto de comportamentos que compõem essa visão de “mulher que a sociedade espera”, e que se não for reproduzido automaticamente a rotula como “você não é uma mulher de verdade”.

Para tratar desse tema usamos o termo: performar feminilidade.

O feminismo tem uma crítica sim bem direta a isso, mas no sentido de tentar abrir os olhos das mulheres sobre o quanto esse estereótipo as aprisiona.

Na maioria das culturas as mulheres são incentivadas a performarem feminilidade, mas predominantemente no Ocidente onde há maior liberdade em deixar a pele à mostra, existe um culto quase insano à beleza e ao corpo.

O boom das blogueirinhas – que hoje não são apenas moças que possuem blogs de moda, mas também “instagramers” e figuras públicas no geral – basicamente pagas para fazerem propagandas de produtos de beleza, demonstra bem isso.

Nunca uma geração perseguiu tanto a perfeição e se sentiu tão inadequada por não conseguir se encaixar nela. O instagram é a maior fonte de baixa autoestima atualmente para meninas cada vez mais jovens.

É claro que o problema não é a rede social em si, mas a maneira como ela é utilizada: como uma ferramenta de manipulação por digital influencers e marcas que vendem que você precisa estar sempre bem maquiada e bem vestida em selfies.

O feminismo é constantemente difundido como o “diabo”, agente principal na destruição da imagem da “mulher feminina”, já que algumas feministas defendem por exemplo a opção por abandonar a depilação ou os absorventes tradicionais descartáveis. O ódio que isso gera nas pessoas é totalmente injustificado, porque bastam 5 minutos de reflexão para concluir que tudo seria facilmente resolvido com: respeito às escolhas individuais.

Somos mamíferos, a maioria de nós tem pêlos pelo corpo, se em homens é facilmente aceitável, por que em mulheres não?

Porque fazer as mulheres acreditarem que precisam desesperadamente esconder, disfarçar ou maquiar suas características naturais é uma forma de controle histórica que tira a atenção delas sobre outras questões. Durante muito tempo mulheres foram obrigadas a praticamente se matarem em espartilhos extremamente apertados para modelarem seus corpos dentro de vestidos pesadíssimos que dificultavam sua mobilidade. Tudo engenhosamente parte de uma dinâmica que as fazia acreditar que seu papel social era exclusivamente decorativo, como bonecas vivas.

Ao mesmo tempo quando homens performam algo semelhante a feminilidade, são ridicularizados, porque pejorativamente esses comportamentos são tachados como “coisa de mulherzinha”, só aceitos nas mulheres para atenderem à exigências heteronormativas.

Frequentemente vemos homens hétero cis comentando sobre a mulher ideal, expressando que ela deva se manter sempre impecável esteticamente para servi-lo, imposto muitas vezes como condição para que ele se mantenha fiel ou interessado.

O feminismo possibilita que mulheres passem a enxergar com mais naturalidade essas amarras e as abandonem. Para elas um processo normal, para a sociedade uma aberração que constantemente monta fotos de antes e depois de mulheres com cabelos mais curtos ou pêlos nas axilas como se isso as desmerecesse como seres humanos.

A fala de Simone de Beauvoir citada no início do texto refere-se justamente ao molde criado para encaixar mulheres, a como elas se tornam esse ser social caricato a partir do manual que lhes empurram goela abaixo desde o nascimento.

O feminismo radical trabalha com a perspectiva da abolição de gênero, já o sagrado feminino, uma filosofia de vida totalmente baseada nessas características femininas consideradas ancestrais.

É possível conviver com todo tipo de corrente de pensamento, mas o mais importante de tudo é o caminho do meio: ao observar e respeitar as escolhas individuais das mulheres se torna mais facilmente compreensível que elas devam ser as mulheres que queiram, de acordo com suas próprias experiências e com a visão que elas constroem de si mesmas.

Batom e salto alto não fazem de ninguém mais ou menos mulher. Entendemos que o contato com esses artifícios para se ver mais bonita fisicamente é importante para algumas mulheres e serve como fio condutor para que elas enxerguem suas outras qualidades e a partir disso se sintam motivadas a seguir em frente, mas isoladamente não definem uma mulher.

Se você gosta ou se sente confortável em performar feminilidade, não pressione ou cobre de outras mulheres que elas façam o mesmo. Um dos caminhos mais importantes para derrubarmos essas estruturas de sustentação do patriarcado é não tentar moldar outras mulheres a partir das nossas experiências, tanto com nossa aparência, quanto como mães e esposas.

Concluímos então, que não há como dizer que uma mulher não é feminina pelo simples fato dela não performar feminilidade.
Algumas mulheres não querem isso e não precisam querer.
E está tudo bem.

imagem reproduzida da internet

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Outras leituras:

Blogueiras Feministas

QG Feminista

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