Sim! É certo que o incentivo e as práticas empreendedoras vêm crescendo a cada ano, sobretudo desde 2005. Segundo dados recentes do relatório “Empreendedorismo no Brasil, Relatório 2017” realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e com o SEBRAE, em 2017, no Brasil, a taxa total de empreendedores era de 36 a cada 100 brasileiros entre 18 e 64 anos, quer seja na criação de um negócio ou em sua manutenção. Em outras palavras, são quase 50 milhões de brasileiros e brasileiras envolvidos com a atividade empreendedora, o que foi bastante facilitado com a criação do Portal do Empreendedor e com criação da figura do MEI (Micro empreendedor Individual) no Governo Lula.

E, embora os números mais recentes desse relatório indicar uma queda no número de empreendedores nascentes (indivíduos envolvidos na estruturação de um novo negócio), de 6,2% em 2016 para 4,4% em 2017, a tendência e o incentivo as atividades na atualidade é forte, dada o espaço que essa temática tem ocupado nas universidades e também em nosso meio, chamado “empreendedorismo feminino”. Nessa dinâmica, aparecem vários cursos, comunidades no Facebook e no Instagram de apoio ao nosso empreendedorismo, bem como ao “empreendedorismo negro”, grupos de “Mulheres empreendedoras”, feiras – como a Semana do Empreendedor e a Virada Empreendedora- propagandas e até youtubers que abordam a temática. E sim, isso pode ser muito positivo!

Num cenário de crise e instabilidade política e econômica, e agora de um Brasil que brevemente será governado pela representação mais truculenta do neoliberalismo, Jair Bolsonaro, é mais do que nunca necessário unirmos forças não apenas para nos proteger, mas pensar em meios de sobrevivência material, de preferência, em atividades cheias de sentido para nós. E o empreendedorismo pode sim, possibilitar essa proximidade com nosso trabalho, com aquilo que gostamos de fazer.

No entanto, convido a vocês a estarem atentas ao discurso do empreendedorismo. Se por um lado é bom trabalharmos com aquilo que escolhemos, organizar nossa jornada de trabalho, “não ter patrão” e, de fato, ter uma atividade onde é possível estabelecer laços afetivos para além do lucro, o cenário político-econômico que “proporciona” essas vantagens é cruel e nem sempre os trabalhadores e trabalhadoras tem a oportunidade de fazer desse limão, uma limonada.

O empreendedorismo, em nosso contexto – e também no cenário latino-americano – faz parte do processo de informalização das relações de trabalho, do desmonte de direitos, que tem na Reforma Trabalhista de 2017 e no aval do Supremo Tribunal Federal a Terceirização irrestrita (Lei nº13. 429/2017) suas expressões mais recentes. A legalização total do processo de Terceirização, ou seja, a terceirização também das atividades-fins, como de um professor universitário, um juiz, um setor importante de uma empresa, etc., nos mostra explicitamente quem serão os novos “empreendedores” do futuro – um processo que chamo de “desconstrução do sujeito que trabalha, enquanto protagonista de sua atividade e das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, e a construção do individuo que empreende”, nesse caso, a intensificação do individualismo nas pessoas, o pensar apenas em si, o fortalecimento de concepções meritocráticas em meio a trabalhadoras e trabalhadores.

E essa afirmação é plausível uma vez que, em nome da diminuição de gastos e da conservação da taxa de lucros há algum tempo os capitalistas vem optando pelas demissões, e junto e com ele se fortalece e ganha cada vez mais espaço o discurso empreendedor – multifuncional – de modo a extrair a maior quantidade possível de trabalho de seus funcionários, tanto manual como intelectual, sem lhes oferecer grandes retornos.

Por isso, e aliado a esse cenário de precarização do trabalho físico e mental ganha força a “meritocracia”, que impulsionam os trabalhadores e nós, trabalhadoras, a produzir sempre mais, tornando-nos totalmente responsáveis por nossas conquistas – e, sobretudo, pelos fracassos, pelas péssimas condições de vida que nos rodeiam – num processo tortuoso de culpabilização do sujeito (homem e mulher) e que, numa sociedade machista onde nós, mulheres, aportamos muito mais tarefas e culpas, esse pode tornar-se mais um peso o qual carregaremos se não pararmos e refletimos a lógica em que ganha força esse discurso.

Em tempo: na quarta-feira, 07 de Novembro de 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro declarou a extinção do Ministério do Trabalho e a incorporação de suas funções “a algum ministério”, o que certamente causará um baque no acesso de serviços e benefícios, e mais ainda, um prejuízo incalculável para nós, trabalhadoras, no que tange as negociações entre patrões e empregados, uma vez que é o Ministério do Trabalho quem regula essa dinâmica. Além disso, é provável que a Política de Trabalho e Geração de Renda priorize cada vez mais atividades empreendedoras pouco qualificadas, o que não seria nenhuma novidade, já que o presidente eleito declarou que a “há uma tara por parte da garotada em ter um diploma”. É importante lembrar que milhões de pessoas estão submetidas as relações de trabalho assalariadas e que seu trabalho e qualidade de vida dependem de um equilíbrio nessa relação – e que isto também afeta diretamente a atividade de empreendedores e empreendedoras.

Por isso mulheres, fortaleçam-se! Há sinais claros do que vem por aí. Mas não deixem de olhar o empreendedorismo em todas essas dimensões. E em breve, voltamos novamente nesse assunto.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here