Hoje, precisamos falar sobre mulheres negras e sua “força”. Sim, mulheres negras são vistas pela sociedade como fortes. Não só fisicamente, como também emocionalmente. Como tudo que ocorreu e ocorre com os negros, há uma dificuldade das pessoas se questionarem “à custa de que? ”.

Mulheres negras são fortes, sim! São fortes porque a vida sempre lhes exigiu força, não porque são geneticamente diferenciadas. São fisicamente fortes porque exigem-nas desde pequenas a realização de serviços braçais. Assim, de geração a geração.

As mulheres negras desde que foram trazidas ao Brasil, como escravas, foram separadas de suas famílias, açoitadas, estupradas, desumanizadas e “sobreviveram”. Resistiram.

Hoje, ainda assim, passam pelo mesmo processo: Mulheres negras, muitas sozinhas, vêem seus filhos sendo caçados diariamente, a elas restam os serviços braçais e subalternos, a elas restam até hoje o açoite e a desumanização. Elas seguem resistindo.

Esse contexto de desumanização e romantização da força da mulher negra tem um custo.  O artigo científico, realizado pelas pesquisadoras na área de saúde pública, a americana Jenny Rose Smolen e a brasileira Edna Maria de Araújo, “Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil: uma revisão sistemática” realizou uma análise de 14 estudos sobre transtornos mentais, diferenciando os resultados por raça/cor da pele.

Um dos estudos sobre depressão na população geral reportou prevalência maior nos grupos de pessoas não brancas (morena: 12,0%, mulata: 15,7%, e preta: 11,2%) em comparação com pessoas brancas (9,4%).

No que tange às mulheres, sintomas de depressão foram vistos mais em mulheres negras (52,8%) do que mulheres brancas (42,3%).

Outro estudo analisado no artigo, esse especificamente sobre Transtornos Mentais Comuns (TMC), identificou uma prevalência significantemente maior de nas pessoas pretas/pardas do que em pessoas bran­cas.

O artigo conclui que há prevalência de transtornos men­tais na população negra em relação à popu­lação branca.

As autoras ainda ressaltam:

“Não existe uma relação biológica entre raça e saúde, então não tem uma base biológica para a associação entre raça e saúde mental. A neces­sidade de estudar essa associação vem da neces­sidade de identificar as populações com a maior carga de transtornos mentais, assim será possível entender quem mais precisa de tratamento e en­tender os fatores de risco que vem do ambiente, do contexto, e da sociedade para, eventualmente, prevenir esses transtornos. Como a associação não é biológica, ela pode ser alterada. Se os fato­res de risco ou fatores causais fossem identifica­dos, eles poderiam ser prevenidos e a associação entre raça/cor e transtornos mentais poderia ser reduzida ou até eliminada. ”

Hoje, data escolhida para refletir sobre a inserção o negro à sociedade, deve-se debater a força do negro, não com ar de romantização, mas a origem e consequências dessa força que não foi ou é escolhida, mas sim imposta por sistema de privilégios que aceita, em pleno século XXI a desumanização de uma raça, para manter e alimentar tais privilégios aos demais.

Os negros, em sua grande maioria pobres, estão expostos à vulnerabilidade social. Romantizar a força do negro não é salutar para os negros. O debate sobre políticas públicas de reparação, especialmente às mulheres negras é necessário e urgente. Pois, como bem disse a Filósofa norte-americana Angela Davis: Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.

 

Bibliografia:

SMOLEN, Jenny Rose  e  ARAUJO, Edna Maria de. Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil: uma revisão sistemática. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2017, vol.22, n.12, pp.4021-4030. http://www.scielo.br/pdf/csc/v22n12/1413-8123-csc-22-12-4021.pdf

Imagem reprodução da internet – desconhecemos autoria

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