Qual que é o teu problema? É fé pequena ou mente ruim?

Quem foi que te ensinou a tratar as muié assim?

Agora fica esperto porque a coisa vai mudar

Se for tirar farinha com as mulher, pode apanhar!

De uma ideia para homenagear Cássia Eller, nasceu um projeto musical de tributo à outras mulheres, deste trabalho, nasce uma das bandas que mais representam a união e o fortalecimento feminino atualmente.

Mulamba começa em 2015, na cidade de Curitiba, quando a vocalista Amanda Pacífico e a amiga baixista da banda Orquestra Friorenta, Naíra Debértolis, tiveram a iniciativa de realizar um tributo à Cássia Eller, no mês de aniversário da artista. As então integrantes da Mulamba, Cacau de Sá, também vocalista, Érica Silva, guitarrista, e Caro Pisco, baterista, já se conheciam de outros grupos e da vida tocando na noite curitibana.

O encontro veio para selar o início de um projeto muito maior. “Foi tão interessante esse dia, essa troca e a receptividade que resolvemos continuar fazendo outros tributos à mulheres, e foram surgindo às músicas autorais naturalmente”, conta Amanda, que tinha algumas letras paradas e queria colocar elas para o mundo, elas começaram a compor juntas.

Eu sou o mastro da bandeira da revolução

Os restos do cavalo de Napoleão

Eu sou a brasa que matou Joana d’Arc

As 5 balas de John Lennon, reles cidadão

A primeira música, nome do grupo, Mulamba, surgiu por causa desse mesmo primeiro show da Cássia, quando uma amiga da vocalista foi assediada. Elas estavam em um local majoritariamente composto por mulheres e um homem ainda se sentiu no direito de violar o espaço do corpo de uma delas. A letra narra a dor de nascer e se tornar mulher na nossa sociedade, bem como a força inabalável que as mulheres carregam, e que não pode ser mais silenciada. “Nunca vimos o movimento [das mulheres] tão fortalecido, o caminho que estamos traçando e onde estamos chegando, nada apagará essa luz. Aquela mulher dona de casa percebeu a força que ela tem. Já baixamos muito a cabeça e engolimos muito sapo, agora não tem mais jeito, é uma roda que não vamos deixar de girar não”, assegura Amanda.

Ouviu-se um grito agudo engolido no centro da cidade

E na periferia? Quantas? Quem?

P.U.T.A, na interpretação visceral de Amanda Pacífico e Cacau de Sá, narra um estupro. Na mesma época de Mulamba, estava no Facebook o depoimento de uma amiga dizendo que tinha medo de andar sozinha à noite e descer no ponto de ônibus para ir para casa. Percebeu-se o medo era recorrente que todas passam todos os dias, ao fazer sua rotina diária simples, sem saberem se irão estar vivas ou inteiras no final do dia.

Na mesma semana, uma mulher foi esquartejada no bairro de Amanda, em Curitiba, até hoje não se sabe quem era a mulher, e quando descobriram que era uma moradora de rua, as investigações pararam e não resolveram o crime.

Painho quis de janta eu

Tirou meus trapos, e ali mesmo me comeu

De novo a pátria puta me traiu

E eu sirvo de cadela no cio

Algumas músicas são de peculiaridades ou pessoalidades de cada uma da banda. Provável Canção de Amor para Estimada Natália, foi para a ex-integrante, advogada e também guitarrista, que sempre chegava cedo, sempre pontual nos encontros do grupo. “Em um dia eu estava muito atrasada e com medo que ela brigasse comigo, e ela manteve a calma, normalmente, e saiu essa letra, em um dia, com todas nós juntas”, relatou a vocalista. Todas da banda respeitam o processo de cada uma fez parte de um coletivo crescente.

“Acho que para cada uma dentro da banda houve uma mudança e evolução na forma de pensar individualmente, começamos a Mulamba com outro projeto, sobre outra coisa, e de acordo com as vivências que achamos que devíamos falar, acabamos entrando nas temáticas políticas, acho que aprendemos muito com os outros, é super importante ver que ninguém sabe tudo, e cada vez que a gente toca alguma guria contar a experiência dela e como a música ajudou”, conta a baterista Caro Pisco.

Mulamba – disco e a força da representatividade

O albúm da banda foi lançado em 2 de novembro nas plataformas online. A música Desses Nadas, com participação da Lio Soares, realizado pelo HAI Estúdio, abre o anúncio do primeiro álbum, com letra de Amanda Pacífico, amor, relações e intensidade são interpretados por Bruna Barreto e Jenifer Coimbra, em um clipe polêmico, sensível, vívido. O disco veio pela oportunidade de gravar na Red Bull Studio. Elas trabalham há  mais de um ano com as canções, viram as músicas crescerem, melhorarem, se tornarem mais do que músicas e sim histórias, vivências, inspirações para outras mulheres.

Lançado nas principais plataformas de músicas, o álbum está recebendo um feedback ótimo, hoje elas sentem que as músicas estão mais maduras, estão orgulhosas do disco e dessa caminhada, porque as pessoas simpatizam com a mensagem, com o processo delas.

“Tocamos no psicodália e as meninas pediram pra dançar no show, uma trompetista argentina também foi tocar, foi um espetáculo”, conta Cacau. Em São Paulo, elas conheceram Jéssica Caetano, que participou de P.U.T.A. no interlúdio, Luiza Toller no acordeon e piano gravou em algumas músicas, Agnes Inácio gravou o interlúdio de Interestelar, e outras participações ricas em talento e dedicação que a banda teve a oportunidade de integrar. “Esse disco é todo mundo, porque a gente sabe que por ser independente, é muito foda chegar em algum lugar, é muito massa poder contar com as pessoas”, relatam.

Depois que começaram a tocar, elas receberam convites para bate papo e sarais. “Percebemos que as minas estão sempre se ajudando mais, no nosso meio está tendo bastante evento só para gurias, tentando acabar com essa questão de não acreditar em si mesma, acabamos nos deixando para trás, isso é importante, hoje, não nos sentimos sozinhas, se acontecer qualquer coisa comigo posso falar que a galera vai se mexer, estamos nos olhando mais no olho. Essa resistência sempre existiu, mas agora estamos continuando, nesse momento”. O recado é da Caro Pisco.

Para Amanda, as mulheres do grupo têm o privilégio de ter a visibilidade que conseguiram, são seis mulheres com o microfone na mão, que podem dar voz a mais mulheres que foram caladas durante muito tempo, elas mesmas inclusive, mulheres sapatão, negras, periféricas.

“Representamos muita gente, e hoje em dia temos isso, esses holofotes virando para estas mulheres, somos muito gratas por elas se identificarem com a gente, é uma responsabilidade muito grande. Fortalecimento uma a uma, não estamos sozinhas, não fazemos nada sozinha, fortalecer uma a outra e fazer sem medo, é isso”.

O disco físico será lançado dia 10 de dezembro em um evento, no dia de aniversário de três anos da Mulamba, também o dia da Cássia Eller. Segundo as artistas, será uma festa pequena, para amigos próximos, para se abraçarem, tomar uma cerveja e aproveitar o som.

Os ingressos limitados já estão à venda online. Cenário e arranjos novos estão programados e o ano que vem será lançado o disco físico em outros lugares pelo Brasil.

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