Retomando as reflexões sobre a atual situação do mundo do trabalho que discuti no texto passado, agora é hora de falar sobre a mais nova profissão do milênio e sua função no cenário do trabalho: O/A Coach.

Se você ainda não ouviu falar sobre essa profissão, eu te explico. Coaching é uma carreira que se popularizou nos anos 2000, pode ser exercida por qualquer pessoa independente da sua formação acadêmica e atualmente conta com mais de 53 mil profissionais no mundo. Nessa profissão são fundamentais as habilidades adquiridas na carreira profissional e a capacidade de transmitir o conhecimento assimilado através da experiência de vida e laboral. E essencialmente: o/a couch é um profissional resiliente, animado, esperançoso, sagaz, que não permite deixar-se abater e  acredita acima de tudo que as pessoas podem ter sucesso com muito trabalho e força de vontade.

Cada vez mais esses profissionais ganham espaço seu espaço no mercado. E entre aqueles e aquelas que decidiram empreender é fundamental em meio à concorrência absurda – de maneira geral, entre trabalhadores e trabalhadoras sem outra opção de sobrevivência – estar em contato com pessoas que os incentivam a todo o momento, que oferecem possibilidades de enfrentamento e que acreditam em seus potenciais. Quem não quer alguém para dar aquela dica da sucesso?

Nesse contexto o/ a Coach traz a promessa de “potencializar pessoas” e fazer seus Coachee (clientes) voltarem a “ter crenças”. Para se ter uma ideia, segundo dados publicados na Revista Exame de 10 de Maio de 2018, “Em 2016, 11% dos líderes e gestores de empresas utilizavam o processo de Coaching para melhorar o seu potencial na América Latina. Na América do Norte é de 27% e na Europa 33% […] mais de 40% dos executivos americanos já passaram por um Coaching. A Bristol University aponta que 83% das empresas do Reino Unido já utilizam o Coaching. A Bussines Channel informa que 70% das empresas australianas contratam Coaches para acompanhar os executivos” e essa tendência cresce cada vez mais em meio a classe trabalhadora.

E não para por aí. O Coaching é um dos métodos mais buscados pelas empresas que querem alcançar melhores resultados – ou seja, melhor produtividade – num menor espaço de tempo, com a chamada “gestão de talentos efetiva”. Empresas grandes como Samsung e Votorantim utilizam o acompanhamento de um Coach e somente nos Estados Unidos são gerados nesse mercado mais de 2,3 bilhões de dólares ao ano e seus cursos estão disponíveis em grandes Universidades como a Harvard University, além de intuições dedicadas as pesquisas nessa área.

Mas, qual é o problema?

É certo que num mundo cada vez mais competitivo, mais escasso de empregos de qualidades e trabalhos valorizados, todas e todos querem conquistar seu espaço e alcançar reconhecimento e valorização pelo trabalho realizado, algo que cada vez menos ocorre, por exemplo, nos espaços empresariais onde reina o assalariamento e a terceirização. E nesse contexto ter um profissional que se propõe a acreditar e a trabalhar o potencial desses sujeitos é uma atividade bastante estimulante. No entanto, moldar o potencial físico e principalmente cognitivo dos trabalhadores, através da exploração da fé e das emoções é a nova tendência das grandes empresas para extrair cada vez produtividade, e conseqüentemente maiores lucros por meio de seus funcionários, oferecendo-os a sensação do dever cumprido, da conquista da resiliência, da satisfação apesar do trabalho árduo e às vezes, objetivamente, do sucesso financeiro. Essa dinâmica é válida tanto para os trabalhadores assalariados e mais ainda, para os novos empreendedores.

Nesse discurso, a insatisfação e infelicidade no trabalho são sentimentos que não podem perdurar no mundo engolido pela ditadura da felicidade. Se elas existem, devem ser trabalhadas para que homens e mulheres se superem e transformem esses sentimentos em força de vontade, em algo produtivo – diga-se de passagem, produtivo para o capitalismo. Tristeza e raiva já não têm seu espaço no cotidiano porque não há tempo para ser triste, para refletir sobre os afetos. Não há espaço para o luto. “Tempo é dinheiro”. A indignação pelo preconceito, pelos baixos salários, pelas horas extras que não foram pagas, pelo assédio e pelas humilhações no âmbito laboral, a alta jornada de trabalho e a dura competitividade devem ser trabalhadas, moldadas, para que os sujeitos saibam lidar com os problemas, mostre seu potencial produtivo e alcance um patamar onde essas mazelas já não o atinjam – independente se continuarão afetando os demais. “Faça sua parte” e “Invista em você” são os jargões do momento.

A conduta da empresa, de modo geral, não é contestada. São os trabalhadores e trabalhadoras que devem adaptar-se a “filosofia da empresa” e aos conflitos que fazem parte dela. Nessa dinâmica, nós, mulheres somos as mais pressionadas, dado que também somos contestadas sistematicamente em outros momentos de nosso cotidiano: em casa, na rua, no bar, com os filhos, sem os filhos, casadas, solteiras, etc., onde a postura “correta” e o bom senso são mais esperados do universo feminino porque as mulheres “são mais maduras” que os homens. Ser mãe, mulher, esposa e filha com sucesso é o ápice do êxito feminino na sociedade capitalista patriarcal. Querer ser outra coisa a menos ou diferente desse padrão é motivo de opressão e violência. E desconsiderar o imenso esforço físico e psicológico das mulheres que tentam se encaixar nessa fôrma faz parte do cotidiano. E acaba por tornar-se irrelevante.

Resiliência é a palavra do milênio. A capacidade de se adaptar facilmente às mudanças vai muito bem num cenário onde os direitos dos trabalhadores desaparecem a cada semestre e a vida se torna uma selva cada vez mais cruel. Ser resiliente, multifuncional, empreendedor, “pau para toda obra” enquanto o colega de trabalho é despedido para que o empresário não tenha seu lucro diminuído em nenhum centavo, ou quando o patrão terceiriza certos serviços para não ter custos do trabalho realmente é muito vantajoso no mundo empresarial e político – uma vez que o Estado torna-se, também, cada vez mais mínimo para a maioria da população. E em todo esse processo de adaptação a uma realidade precária dentro e fora das empresas, o trabalho do coach é essencial para a ordem e o progresso.

Aliado a psicologia, o coaching se posiciona hoje com uma indignante cumplicidade com sistema neoliberal e individualista que dita socialmente quem são os vilões do desenvolvimento econômico e como eles devem ser lapidados, direcionando o discurso da mudança, das transformações (para que sejam produtivas para o capital) aos sujeitos, porque o sistema em si não pode ser incomodado e, mais ainda, porque a insatisfação, a frustração e a indignação de trabalhadores e trabalhadoras podem tornar-se uma critica dura ao sistema, e logo, revolução. De modo que é conveniente incentivar a expansão de profissionais que buscam controlar a revolta contra o modus operandi das empresas e/ou a revolta devido às conseqüências do funcionamento do sistema e transformá-las em lucro: “a mudança está em você”, diz os coaches e a psicologia individualista. O sistema capitalista que funciona pela exploração física, cognitiva e emocional de seres humanos não pode ser afetado. E o profissional coach (mas também os livros de auto-ajuda) consciente ou inconsciente dessas questões, vieram para garantir que o empresariado não seja perturbado.

E aí, você tem medo de Coach?

 

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here