Muitas mulheres mandam depoimentos por minhas redes “Estudos do Corpo Gordo Feminino”, perguntando como eu consegui ver meu corpo gordo grande, de outra maneira, que não fosse através do que as mídias capitalísticas vendem por beleza e saúde. Talvez não nessas palavras, mas se resumem a isso: Como eu consegui ou consigo ultrapassar a concepção do que é ter um corpo belo e saudável na sociedade atual?

Foram tantas perguntas bem parecidas que resolvi escrever esse texto levantando essa discussão, escrever em primeira pessoa também é se colocar dentro da discussão e isso é libertador. Conhecimento também é empoderamento, e foi através dele que entendi que meu corpo é Resistência, subversivo e criativo.

Meu corpo sempre foi gordo, menor, maior e muito maior hoje em dia, foi esse corpo enorme que me trouxe até aqui, quem eu sou, questionamentos sobre o que é ser bela ou saudável, minha pesquisa de doutorado, a esse texto. Ser gorda e entender que isso não é ruim, me coloca como uma mulher politizada, que entende que seu corpo é político, porque subverte o entendimento comum do que é um corpo “normal”.

O normal aqui, se refere ao magro, e o magro hoje, se refere ao belo e saudável. Quando entendo meu corpo fora dessa normatização do que é ser normal: magro, belo e saudável, quebro padrões, subverto minha maneira de ser e estar no mundo.

Virgie Tovar, ativista gorda feminista americana, psicóloga, especialista sobre discriminação por imagem corporal, professora da Universidade Novo México e escritora. É fundadora de Babecamp um curso virtual para ajudar as mulheres romperem com os paradigmas dos padrões de beleza e abandonar a famosa cultura da dieta, escreveu um livro traduzido para o português, “Meu corpo: Minhas medidas”, que levanta essa questão, sobre mulheres gordas que subvertem esse modo de pensar e não aceitam mais uma posição social inferior aos demais, por ser gorda.

A autora afirma que, “Mulheres gordas que estão dispostas a aceitar sua posição social cultural como inferior são tratadas de maneira diferente do que as mulheres gordas que são politizadas.” Dessa maneira, entender que seu corpo gordo é político porque é resistência a padronização do que é ser belo e saudável na sociedade capitalística é um ato revolucionário e pode libertar você de concepções equivocadas sobre seu corpo gordo.

Entender que a cultura da dieta e de uma sociedade obcecada por emagrecer as pessoas causa tristeza, desconforto e alienação liberta sua existência de modo político e subversivo numa vida mais feliz com o que você é. Entender que não necessariamente preciso ser como dizem que tenho que ser, é se posicionar no mundo com mais leveza, confiança e por inteira, logo com mais autoestima.

Dois filósofos escreveram um livro muito interessante para essa discussão, Félix Guattari e Suely Rolnick, “Micropolítica: Cartografias do desejo”, no qual explicam sobre a “subjetividade capitalística”, que nos constrói coprodutores de padrões vigentes, num processo onde o que importa sempre será os interesses dos impérios bilionários das grandes corporações, deixando de lado, tornando sem importância o que somos, tirando por completo o individualização do viver e ser.

Eles explicam que “O indivíduo, a meu ver, esta na encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividade.” Entre esses componentes alguns são inconscientes. Outros são mais do domínio do corpo, território no qual nos sentimos bem. Outros são mais no domínio daquilo que os sociólogos americanos chamam de “grupos primários.” (O clã, o bando, a turma, etc.). “Outros, ainda, são do domínio da produção de poder; situam-se em relação a lei, a polícia, etc. Minha hipótese é que existe também uma subjetividade ainda mais ampla: é o que chamo de “subjetividade capitalística.”

Assim, existe uma construção minuciosa por meio de diversas instituições sociais de uma “subjetividade capitalística”, e essa cultura produz pessoas normatizadas, mesmo que inconscientes vamos copiando modos de vida, padronizando comportamentos, pensamentos, falas, corpos, discursos.

Porém, quando se entende essa maneira de produção das padronizações na forma que agimos, pensamos e somos, do que é ser “normal”, belo e saudável, podemos contrapartida e politicamente construir subjetividades dissidentes e romper com essa cadeia de normalização do que o sistema construiu sobre o corpo.

Assim, quando saímos dessa padronização e domínio capitalístico de ver o mundo, o corpo, nós mesmos, rompemos a normatização do sistema e ocupamos nosso próprio corpo através da criação e reflexão sobre o como ele é, como poderá ser, e recriar um corpo que não está de acordo ao que o padrão impõe.

Em um artigo que escrevi para um Congresso Latino-americano de Sociologia no Uruguai sobre o corpo gordo como resistência, “Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento”, proponho que, aceitar o corpo como ele é ou produzi-lo de modo criativo, pode provocar mudanças nas concepções de beleza, saúde e felicidade, já que podemos considerar esse processo uma expressão de resistência a corporeidade capitalística, porque transfere o indivíduo para outra lógica de estar e ser no mundo.

O entendimento sobre respeitar o próprio corpo como ele é, fora dos padrões, e ama-lo por isso transforma nossa maneira de pensar e estar no mundo. Através dessas reflexões, entendimentos e construção de conhecimento construímos uma revolução dentro de nós mesmas na criação de outra maneira de estar, viver e ser nesse mundo.

Reverberando uma contaminação no modo de ser para outras mulheres gordas, que começam a recriar também uma maneira diferente de ser e viver, nesse mundo de padronizações que só sustentam o lucro de corporações bilionárias do sistema.

Assim, por meio do respeito ao nosso próprio corpo, começam a acontecer inúmeras libertações, entendimentos e criatividades que acabam mudando ou pelo menos abalando essa subjetividade construída capitalísticamente em nossas vivências com o próprio corpo, no qual experienciamos padronizações severas corporais desde nossas infâncias.

Como Michel Foucault que propõe estabelecer uma existência cotidiana estética, em que explica que “O problema político, ético, social e filosófico de nossos dias não é o de tentar libertar o indivíduo do Estado e das instituições estatais, mas de nos libertar tanto do Estado quanto do tipo de individualização que está vinculado a ele. Precisamos promover novas formas de subjetividade através da recusa desse tipo de individualidade que tem sido imposta a nós há vários séculos.”

Essa libertação da padronização do que é normatizado por um corpo belo e saudável é político, revolucionário e libertador, em contrapartida a proposta é viver uma vida criativa, e não repetitiva do que nos dizem para ser, pensar e ouvir.

A proposta, a meu ver do ativismo gordo é compreender meu corpo como resistência política, subvertendo a padronização estética de beleza e de saúde, que hoje caminham juntas, como capacidade política de empoderamento, na construção de outra maneira de estar no mundo, como ação fundamental para a construção criativa de outras possibilidades e novas maneiras de ser e estar no mundo possíveis.

Com o questionamento sobre nosso corpo gordo ser estigmatizado, humilhado e excluído nessa sociedade, construímos uma vontade de oposição ao que já se vive, uma contraposição a essa sociedade de controle, disciplinadora dos corpos e mentes, capturando e revelando fluxos de crenças e de desejos contra a naturalização do sistema e reafirmando a revolução que o indivíduo pode se propor na abertura de uma possibilidade a novos mundos possíveis.

Os corpos que resistem a serem padronizados como magros, belos e saudáveis, etiquetados e colocados à mostra como o ideal a ser seguido. De alguma maneira é revolucionário, pois resiste ao que se obriga ser, e ao contrário de sentir-se mal por não estar dentro do padrão, aceita esse corpo como quebra de todo uma ideia pré-concebida do que é ser belo, saudável, feminino no mundo capitalista.

Dessa maneira, o corpo gordo assumido, pode ser considerado um corpo político, ou corpos políticos, já que é o corpo indesejado, provocativo, inadequado, que subverte a lógica estabelecida e invoca a resistência nos espaços em que ocupa. Nesse sentido, meu corpo gordo é político, porque resiste aos padrões da beleza e saúde estabelecidos.

 

 

PARA CONSULTAR

 

– Virgie Tovar, Meu corpo, minhas medidas, 2018.

– Félix Guatarri; Suely Rolnik, Micropolítica: Cartografias do Desejo, 1996.

– Maria Luisa Jimenez Jimenez; Juliana Abonizio, Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo,

XXXI Congreso Asociación Latinoamericana de Sociología. Disponível em: http://alas2017.easyplanners.info/opc/tl/1243_maria_luisa_jimenez_jimenez.pdf

Foto: coletivo GORDAS XÔMANAS

@juqueirozfotografia

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