Se tem uma coisa que mãe faz, é trabalhar.

Tem mãe que trabalha de casa, em casa, com a casa, para a casa. A curiosidade é que em toda casa, não conheço nenhuma mãe que não trabalhe.

Tá vendo aquele menino ali? Aquele que está sentado na calçada. Ou aquele que passou correndo aqui, de camisa amarela. Ou aquele sentado na janela do ônibus…ou aquele debaixo da árvore…

Se perguntarem pra esse filho: “Sua mãe trabalha?” , ele dirá que trabalha sim. Ela atende naquela loja que vende sapatos, ou no balcão da lanchonete da escola, ou ela é motorista do ônibus que circula a cidade, ou ela é professora, ou empresária, ou em casa mesmo.

Mãe é mãe.

Mãe é brava.

Mãe é doce, mas também é bruta que só (mexa só com a cria dela pra ver como ela vira uma fera).

Mãe tem RG e CPF.  Mãe tem um monte de funções. Muitas delas não reconhecidas. A maioria delas.

Mãe consegue ser analista, médica, psicóloga, pediatra, motorista, heroína, cozinheira. Tudo numa manhã só.

Mãe faz dever de casa. Mãe dá almoço.

Mãe se não está em casa, liga pra saber se fizeram o dever.

Acredito que toda mãe queria mesmo ser um pouco mágica. E ter o poder de resolver as dores do filho, as dores do mundo.

Tem uma parte triste…

Tem muita mãe que chora.

Tem mãe que sofre porque o filho tem fome e ela não consegue alimentá-lo. Mãe chora, porque espera por dias e dias na fila pra conseguir marcar aquela consulta. Quando a consulta finalmente sai, a mãe passa mais dias e dias tentando marcar o exame. Que só sai depois de meses e meses. E por vezes, demora anos e anos para conseguir voltar ao médico, ter um diagnóstico…

Tem mãe chorando porque não conseguiu por o filho pra dormir naquela noite. O filho hoje dorme eternamente, depois de encontrar a bala perdida na tarde de domingo.

Tem mãe chorando porque saiu tão cedo de casa, que ainda era noite. Grande parte da vizinhança ainda dormia. Salvo uma luz aqui, outra acolá. Clareado outra mãe, que assim como ela, luta incansavelmente todos os dias, pra por um pouco de dignidade na mesa.

Tem mãe chorando porque não pode ir a reunião da escola. É que na semana passada, o mais novo quebrou o braço e ela saiu correndo para encontrá-lo no hospital, que a prima da vizinha levou (as crianças ficam com ela depois da escola…é que a escola é só de manhã e a mamãe chega depois das 19). Então, a mãe ficou com medo de pedir pra sair mais cedo ne? Já foi tão difícil conseguir esse emprego…

Tem mãe que chora escondido todos os dias. É que o filho dela tem um “probleminha” na perna, que faz com que ele não consiga correr como os outros colegas. E isso acaba virando motivo de piada pra uns…lágrimas pra outros.

Tem mãe que engole o choro quando observa a menina jogando bola, porque ela deveria fazer algo “de menina”…mas a mãe mesmo assim incentiva. É esporte. É saúde. É a escolha dela. E tem mais…a menina tem talento viu? A gente fica torcendo que tenha também oportunidade. Enquanto a filha corre atrás da bola, a mãe tenta marcar um gol de respeito, luta e igualdade.

Tem mãe que coloca óculos escuro, porque precisa esconder o que os olhos trazem.

As vezes, os olhos trazem grandes marcas.

Muitas marcas na alma…e por vezes, tristemente…marcas na pele.

A carne ferida esconde a luta da mãe que apanha por um pouco de pão.

A cicatriz marcada por debaixo da blusa, hoje é só uma cicatriz…mas na mãe, dói todos os dias. É que existem algumas marcas que não se curam de fora pra dentro.

De uma coisa eu tenho certeza.

Mãe é um bicho diferente mesmo.

A maioria delas tem um colo enorme, que suporta crias, amigos das crias, amores das crias, os filhos das outras mães.

A mãe sorri, mesmo que tenha enfrentado uma batalha absurda pra conseguir chegar no finalzinho da apresentação de natal da escola.

A mãe acalenta o coração partido. Cura o joelho ralado. Mesmo que o coração dela esteja cheio de cicatrizes e marcas na carne.

Que as mães possam sorrir mais.

De dentro pra fora. E só depois, de fora pra dentro.

Que as mães não tenham que passar por tantos dias, meses e anos, nas filas de atendimento médico, ou pra vaga na creche.

Que as mães tenham trabalho. E que consigam ter com ele, dignidade de verdade. Dignidade não por ser “apenas” uma mãe honesta e batalhadora. Mas, dignidade porque esta mãe tão honesta e batalhadora, consiga ter também a mesma oportunidade que o colega de trabalho tem.

Que as mães possam proporcionar acesso à educação para seus filhos.

Que as mães consigam se divertir com e sem os filhos. Sem que isso gere algum questionamento infeliz.

Que as mães continuem sendo forte.

Exemplo de perseverança.

Mas que elas nunca percam, jamais, esse poder fantástico de nos mostrar que há esperança em um mundo melhor. E que quem sabe…elas consigam desfrutar um pouquinho desse mundo…tornando esse futuro tão sonhado, em um presente feliz!

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