Esse fim de ano de 2019 eu terminei exaustamente exausta, tanto mentalmente como meu corpo pedia através de dores e muito cansaço para que eu parasse de fazer coisas. Assim que acabei a tese, senti um peso em mim que já não dava mais para seguir sem falar sobre todo esse sentimento e cansaço que eu estava vivendo.

 Pensei em muitas coisas que eu tinha feito naquele ano, e minhas deusas, eram tantas coisas, tantos perrengues, tantas lutas, tantas escrituras, viagens, discussões, perseguições, comecei a chorar  de cansaço, de perceber que tinha trabalhado exaustivamente e não tinha dinheiro para pagar meu aluguel se eu não inventasse alguma coisa rapidamente.

No final vi que está tudo misturado, trabalho, ativismo, meu corpo gordo feminino, feminista, anarquista, sul realista, rsrsrsrs, as vezes não dá para separar: eu vivo o que eu acredito, estudo, falo e luto, mas eu sou mais que tudo isso, muito mais, eu pago aluguel, tenho que comer, vestir, calçar, ir e vir, estudar, ler, falar, viver, amar…

O mundo tem sido muito cruel conosco, mulheres “fortes”, estamos adoecendo porque as pessoas confundem fortaleza com abandono, quem é que apoia essas mulheres? É sobre isso que proponho a reflexão nesse texto, as mulheres fortes que você elogia e acha foda, estão exaustas.

Conversando com uma amiga que também se sentia assim, percebemos que existe uma necessidade de falar sobre isso, porque a gente é forte, não necessitamos de cuidados, apoio, ajuda? Não é bem assim não, muito pelo contrário, essas mulheres necessitam em dobro o nosso cuidado, carinho, apoio e ajuda, elas estão liderando lutas pesadíssimas, fazem trabalhos exaustivos todos os dias, horas e momentos de sua vida e na maioria das vezes não ganham pra isso.

Porque ser ativista e vestir essa camisa na vida, é isso você tá no mercadinho comprando o almoço e a caixa tá falando de regime, você tá no barzinho com seus amigos e eles estão falando de como engordaram no natal, é o tempo todo a toda hora uma luta, não tem descanso se você não perceber isso a tempo e criar uma rede de amigas e apoio, adoece…

E rede de apoio demora para ser formada, tem muito mais gente pra julgar seu trabalho que pra te dar afeto e poio, isso é sentido nas entranhas da carne de toda mulher forte e exausta, é só perguntar que ela conta.

Incrível que as pessoas não percebem, você pede ajuda e elas propõem um novo trabalho, de graça de preferência, já que você é ativista não precisa de dinheiro, é uma confusão enorme, ainda existem as que te acompanham e te chamam para dizer o que você pode ou não fazer no SEU ativismo, como se houvesse um termômetro, um manual, uma só maneira de lutar… Situo-lhes informar, que isso não existe, faz sua parte e respeita as outras lutas… Isso também é sororidade, gordoridade, empatia, ou como você queira chamar!

Respeita o trampo duro da outra mana, se coloca no lugar dela, que mais que julgamento ela pode estar precisando de um elogio, uma força, um carinho em palavras. Na verdade, fiquei pensando que isso também é uma violência, pensa comigo, todas as mulheres que assumem uma luta são muito criticadas e anuladas e vigiadas e julgadas, etc…

Conversei com algumas mulheres que se sentem assim, fortes e exaustas de tanta pedrada, de tanta falta de noção e afeto … Esse fim de ano o que mais ouvi foi, estou cansada de ser ativista é muita decepção e sofrimento, estou desiludida …. Pelo amor das deusas tem alguma coisa muito errada aqui… PAREM PENSEM E MUDEM!

Não sei bem se era ela, mas acredito que sim, Simone de Beauvoir pontuou como outras que vieram antes de nós, que é necessário uma crítica ao que se faz, um olhar mais profundo ao que se propõe, onde está isso? Aproveitemos o começo do ano para pensar sobre isso… Vamos lá:

– Quantas mulheres fortes você ofereceu ajuda no ano de 2019?

– Quantas mulheres fortes você deu sua mão, ouvido em 2019?

– Quantas mulheres fortes você ofereceu um café, uma cerveja em 2019?

– Quantas mulheres fortes você ofereceu um trabalho em 2019?

– Se você é a mulher forte, conversou com alguém sobre sua exaustão?

Talvez o que falte, é a proposta da reflexão sobre nosso papel no feminismo, na nossa rede de mulheres, de apoio, de proteção, e… não vale escolher algumas, e outras você não estar nem aí… Veja, esse pensamento não tem nada haver com vitimismo, não é isso. A proposta aqui, é juntar os cacos e se refazer, porque a luta continua.

O patriarcado colonial se alimenta dessa exaustão, é necessário pra que mulheres fortes desistam, morram, se anulem na luta, quem é que cuida dessas mulheres fortes e exaustas? Nós? Como?

A Re (existência) nesse mundo por uma luta diária precisa ter apoio, mas também precisa ser cuidada, não tem nada de errado ao invés de você, o tempo todo pedir ajuda, também dar ajuda, doar seu tempo para essas manas que estão a frente, dividir o peso, as angústias, os ataques, isso é feminismo.

Mulheres fortes estão exaustas, precisamos pensar na sobrevivência de cada uma delas, não só daquela que sai na tv, tem milhões de seguidoras, talvez essas estejam menos exaustas que aquelas que lutam, trabalham muitíssimo e no final do mês não conseguem pagar seu aluguel, comprar um livro.

Ajudem mulheres fortes, mulheres fodas para que não fiquem exaustas, a revolução será feminista ou não será, se essas mulheres estiverem na linha de frente bem e não exaustas!

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