A série “Sex education” produzida pela Netflix, inicialmente aparenta tratar de um drama adolescente coletivo, mas  na verdade cada personagem tem uma história que enriquece a série. Esta trata de forma aberta a sexualidade e puberdade de adolescentes de 16 anos de forma engraçada e consciente, deixando o telespectador com um gostinho de “eu vivi isso” ou “tive alguém próximo que passou exatamente por isso”, mas não para por ai! A série aborda questões de gênero, abuso sexual, raça, saúde sexual, orientação sexual e tantas outras pautas importantíssimas. Se você tem a oportunidade de assistir, sério, assista!

E é exatamente de duas pautas específicas que quero tratar sobre a série, mais especificamente sobre alguns episódios da segunda temporada.

Em um dos episódios, uma das adolescentes (Aimee) sofre um abuso enquanto esta indo para a escola: um homem se masturba e ejacula nela. 

Após essa cena ela encontra sua melhor amiga Maeve, conta o ocorrido diz que esta tudo bem e que não foi nada, Maeve insiste para que ela realize uma denuncia do acontecido como presente de aniversário e ela assim o faz, mesmo insistindo que está tudo bem que o homem devia ser um solitário e que não deve ter feito por mal.

Aimee tem um comportamento muito comum que existe entre nós mulheres que é tentar relativizar e diminuir uma situação de violência e abuso que sofremos (ou podemos sofrer), e por que disso? Porque somos piedosas e esquecemos facilmente o ocorrido? NÃO, mas sim porque estamos inseridas em um sistema de sociedade que nos SUBMETE a acreditar que homens não são culpados.

Quantas vezes você já ouviu algumas das falas a seguir: “é que ele é velho né”, “mas é que ele é muito jovem, um menino” (e o cara tem mais de 20 e tantos anos na cara), “deve ser porque ele não consegue ficar com ninguém”, “homem é assim mesmo”, e essa lista só cresce…

Somos ensinadas a tratar homens como seres que não possuem responsabilidade de seus próprios atos, sempre tem alguém para nos fazer acreditar que para o mal comportamento deles existe uma desculpa, enquanto eles nos destroem com atitudes nocivas a mulheres.

Apesar de Aimee ter dito que estava tudo bem, não estava. Durante os próximos episódios ela começa a ver miragens do abusador pela escola, não consegue se relacionar sexualmente com seu namorado e não consegue mais nem entrar no ônibus, o que a faz andar quilômetros até a escola e a qualquer lugar que ela vá.

Em um dos episódios Aimee é confinada na biblioteca com outras garotas da escola para elaborarem uma atividade sobre sororidade, ela tem um momento de explosão durante uma discussão de suas colegas e fala sobre o ocorrido e diz que se sente mal e diz algo muito marcante: que ele sorriu para ela e parecia ser uma pessoa comum e simpática, então isso faz com que ela acredite que possa ser qualquer pessoa a seu redor (olha aqui o que a gente tanta fala de que todo homem é um estuprador em potencial, todo homem pode causar pavor).

Ela é acolhida pelas amigas que também relatam casos de abusos e falam como se sentiram após o ocorrido, até que a professora volta a biblioteca e diz que estão liberadas e pergunta o que as unia e uma das meninas responde: o que nos une é um pau indesejado.

Não importa o quão diferentes somos umas das outras, se nos gostamos ou se nos odiamos, toda mulher tem uma história de abuso para contar.

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