Seja como os girassóis: vire-se para a luz, dê costas para a escuridão

Em março muitas são as pautas em curso, que dedicam-se à homenagear as mulheres. Desde as rosas e outros brindes entregues em estabelecimentos comerciais até o enfrentamento e embate quanto à necessidade, a romantização e a aversão ao 08 de março. Já abordamos, tanto no blog quanto na página, alguns apontamentos referentes à data de 08 de março. Por exemplo, a importância, a história e os comportamentos relativos ao 08 de março. São diversos os efeitos que a data provoca na sociedade e é nosso compromisso nos atentarmos estes efeitos, analisando nossa existência.

Assim, a partir dos nossos encontros (inclusive virtuais), aos poucos vamos conseguindo enxergar, problematizar e, refletir, sem deixar de nos alegrarmos com os pontos positivos, por vezes abafados, pelo foco comercial da data. Conscientes disto, convidamos às companheiras que acompanham nossos textos, a focar em exemplos que nos guiem para ampliação do conhecimento e aprofundamento das práticas em favor das mulheres.

Como um grandioso exemplo disto, destacamos, como uma homenagem à data, o foco no evento: “MULHERES EM LUTA SEMEANDO RESISTÊNCIA”! O evento foi organizado pelas mulheres do Movimento Sem Terra e aconteceu no primeiro final de semana de março. E traduz nossos desejos em prol do caminho de luta e direção ao que nos permite à vida e nutre nossa existência.

Conforme aprendemos com as companheiras do evento, este mês a luta é palavra que nos une.

A ideia do evento é a movimentação! Seja o movimento enquanto articulação social, seja com foco para transgredir, para sair do lugar, para sentir o que nos impede de movimentar, seja o movimento para sentir o que já conquistamos de liberdade.

Entre tantas outras possibilidade de movimentarmos e compreendermos a palavra movimento, objetiva-se, mesmo em tempos difíceis, a reunião e o movimento de dispor-se à pauta da mulher, na realização do Encontro Nacional Das Mulheres Sem Terra. 

A ideia e foco do evento é de que nos organizemos para a luta! Segundo o informativo, o objetivo do evento é dar continuidade ao que o movimento têm buscado desenvolver ao longo dos anos: Desde o ano de 2000, em Goiânia, quando se instituiu o Setor de Gênero durante a coordenação nacional o MST, que esse processo de organização das mulheres se potencializa.

Neste processo de organização torna-se possível o desenvolvimento de estudos e aprofundamento a temas ligados às relações de gênero e étnico-raciais, de enfrentamento ao patriarcado e racismo e de construção do feminismo, fomentando a participação das mulheres nas instâncias do Movimento Sem Terra. A propósito, em 2020, o Setor de Gênero chegará aos seus 20 anos “[…] de muitos desafios superados e muitas cercas ainda a serem rompidas.” Importante ressaltar que as mulheres do MST, há 35 anos têm trabalhado no enfrentamento das questões ligadas à pauta do latifúndio, no enfrentamento direto ao patriarcado.

São constantes os debates a partir das especificidades da mulher na sociedade. Portanto, o foco neste exemplo de evento, realizado no mês em que é comemorado o dia da mulher, nos ensina a lutar. Luta esta realizada a partir da nossa existência, de acordo com nossos problemas e demandas na sociedade.

Portanto, entendemos que não se trata de uma luta isolada, exclusiva das mulheres, mas um levante à participação no mundo, que se mostra na organização e desenvolvimento das pautas de um bem comum. Nos lembra bastante o que pontua a autora Hannah Arendt (1997, 2008), quando defende nossa responsabilidade pelo mundo, atenta à política.

Afinal, todas nós existimos em conexão com a terra, é ela que nos dá a vida e a nutrição para (re)existirmos cotidianamente. E esta é uma pauta política, que precisamos conversar. Deste modo, fica o convite a conhecer esta pauta, trabalhada, que reflete nossos desejos de busca de dias melhores para todas nós.

Inspiradas no processo de luta das mulheres que compõe o MST, aprendemos que a caminhada é longa e, carece de investimentos, mas que é muito honroso lutar em prol daquilo que nos permite viver e nutrir nossa essência de aprender a estar com o outro e com a memória do outro: “quem não se movimenta, não sente as correntes que a prendem”. 

“Lutar pela vida das mulheres, é lutar por justiça à Ághata e por Marielle.” E com  esta proposta o MST está no caminho há 40 anos e se constitui como uma oportunidade de aprendermos em coletivo, a ocuparmos os espaços com respeito e lealdade.  Composto por mulheres, que integram e defendem a posse da terra, o movimento já alcançou muitas conquistas, que dizem respeito à luta por políticas públicas, o enfrentamento ao capitalismo, o avanço do urbano às questões do campo e o massacre à vida campesina.

Junto a isso, o movimento também conquista a cada dia, a reflexão sobre as novas relações de gênero e as diferentes possibilidades de auto-organização. Com isso, refletir nas sementes plantadas com as palavras de luta, que nos animam a continuar exercendo nossas bandeiras.  

Pela vida das que já se foram, assim, sermos girassois, seguindo o caminho de luz, dando as costas para os tempos sombrios vivenciados com o avanço do neoliberalismo/das forças capitalistas. Neste sentido, as energias em dedicação ao 08 de Março no interior do MST, nos inspira a aprender a nos formamos com o outro, de forma corajosa, leal e respeitosa à classe trabalhadora. Ao que indica o informativo do MST, “Desta forma, as mulheres, em especial as dirigentes, assumem o feminismo como estratégia para a construção do Socialismo”. A bandeira de luta afirma, portanto, “[…] um Feminismo a partir da prática cotidiana das mulheres, que busca romper com todas as formas de violência que o capital nos impõem através do patriarcado e racismo, buscando a afirmação e construção da emancipação e libertação, em especial das mulheres.”  O evento contou com a participação de Edilene, dirigente de gênero do MST e com a poesia de Adriana Novais! Para conferir as notícias, acesse aqui.

E para continuar acompanhando, somos convidadas a dar continuidade ao caminho de luta, conhecendo o Programa Vozes da Terra (parceria do MST com a Rádio Autêntica Favela e o CP Mídias, que vai ao ar toda sexta-feira, às 6h50, na 106,7FM!) e também seguindo as hastags #armazemdocampo e #movimentosemterra  

Com isso, vamos cultivando em nosso blog espaços múltiplos de falar, escutar e participar. Nas infinitas possibilidades de aprender a lutar pela nossa existência durante todo o ano, plantamos na conclusão deste texto, sementes para nosso engatinhar, alimentadas pela luz das companheiras do MST, que, como girassois, focam naquilo que nos faz bem, nos alimenta e nos conduz rumo à luta pela vida, pela nossa existência. Como trata o lema do I Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra: “Mulheres em luta, semeando resistência!”. Março não acabou, Março está em nós!  Fonte:

ARENDT, Hannah. O conceito de amor em Santo Agostinho. São Paulo: Instituto Piaget. 1997.

ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras. 2008.Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mulheres em Luta. Outubro, 2019. Acesso em: 03 mar. 2020 Disponível em: https://issuu.com/paginadomst 

Nunes, I. (2016). Amor mundi e espírito revolucionário: Hannah Arendt entre política e ética. Cadernos De Filosofia Alemã: Crítica E Modernidade21(3), 67-78.

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