Quanto valem os encontros?

Já diria nossa tradicional canção brasileira “é impossível ser feliz sozinho”. Não se trata de uma crítica, nem de indagação à solitude, mas de observar que em tempos tão capitalistas, nada paga nosso encontro com o outro. Não poderia ser diferente, uma vez que fomos gerados dentro de outro corpo e, no mínimo, precisamos deste corpo nos fundamentais primeiros dias e anos de nossa vida.

A humanidade avançou muito, mas está longe de inventar algo que realmente supra nossas carências. No máximo, avançamos em estratégias de conscientização do quanto precisamos avançar e entender que estamos em constante formação. Saímos de um útero para ir para outro, nos formando mutuamente, encontrando dentro ou fora de nós, o acabamento necessário para acordar todos os dias de nossa vida.

Seja com a música, a arte e até as tensões cotidianas, é no encontro que produzimos nossa existência. Não há como negar, que mesmo sozinhas, encontrar as atividades que nos afetam, fazem de nossa passagem na terra um percurso único.

Excesso das lives no instagram e das chamadas de Facetime demonstram o quanto carecemos da escuta do outro. Seja como elemento de audiência à nossa fala, seja como acalentador, de que estamos sempre fazendo alguma coisa.

Entre tantos posts na internet, os memes dividem-se entre quem não àqueles preocupados com os boletos e também com aquelrs que estão amando permanecer em quarentena.

Ultrajados com a era digital, comentam o quão bom é não apresentar mais desculpas para se isolarem em suas bolhas sociais. Para nós, mulheres, talvez nos toque de forma especial o sentido do que é existir mulher. Seja nos sobrecarregando com as tarefas domésticas, seja não nos ausentando do trabalho.

Como tem sido para nós, enquanto mulheres, nos privarmos do encontro presencial? Seguimos nós trabalhando, dentro ou fora de casa, como anda nossa relação com os homens? Quais tarefas são desempenhadas nesse período? Quanto vale nossa presença ou ausência?
Mas, é fato, a quantidade de produção de conteúdo elevada que temos observado nestas últimas semanas nos leva a indagar quanto valem nossos encontros. Ao seu modo, cada internauta, produz seu conteúdo e quanto isso tem importado para nós? Nos transformando/renovando?

Cada um, como pode, lança mão de conteúdos virtuais. Como temos recebido isso? Estamos preparados para selecionar àquilo que queremos ver? Aceitamos tudo ou estamos fazendo uma seleção daquilo que realmente nos importa? Paramos para refletir sobre o que tem sido nosso alimento nos últimos dias? Alimentamos apenas daquilo que é modelo? Ou tentamos estimular nossa criatividade e inteligência nos nutrindo daquilo que faz diferença para nós?

Nisso, vale a pena nos atentarmos para aquele conteúdo perigoso, por vezes fruto de uma modinha. No alto da nossa necessidade de mostrar ser fitness ou a melhor dona de casa, observamos o quão nos deixamos levar pela era de produção cultural como problematizou Althusser. Em massa, produzimos conteúdos semelhantes aos influencers, fazemos número somando aos milhares de vídeos, lives, engordando a conta das plataformas digitais. Qual motivo disto tudo? Temos quase tudo e o que nos falta é o encontro.

E se aumentam as interações virtuais, as interações dentro das casas aumentam na mesma proporção? Sabemos que o aumento das queixas de violência doméstica também aumentaram! E mais uma vez, quanto vale nossos encontros?

O que seria de nós, viver essa pandemia, sem a existência dos apoios virtuais. Na contramão disto, o que seria se até os dias atuais não tivéssemos o advento da internet? Os dados do aumento da comunicação afirmam da nossa necessidade de se comunicar e, por mais óbvio que possa ser, nos leva a crer no propósito da reclusão. No mundo de desigualdade social que nunca acabou, nunca foi novidade o fenômeno dos que precisam sair para trabalhar, os que apodrecem em casa isolados sem o auxílio de parentes, os que desfrutam do melhor vinho no banquete particular, experimentando suas melhores receitas.

E o que se espera em tempos de reclusão? Chamaria aliás, de reflexão em massa, de meditação compulsória. Momento do mundo parar e se conectar com o nosso eu, observando o capitalismo inflamado que vivemos. Como diria Saramago, “se podes olhar vê, se podes ver, repara”. E, como apela Mia Couto, no texto dos 7 sapatos que precisamos descalçar, talvez seja tempo de investir em “uma visão mais produtiva e que aponte para uma atitude mais ativa e interventiva sobre o curso da nossa História”.

De tudo, temos aprendido durante este tempo que o valor atribuído às coisas não chega nem perto ao valor das pessoas, do abraço no amigo querido na esquina, do café servido com sorriso, do valor da mão de obra presencial. Do jeito que for, nada paga ver a sociedade percebendo seus erros, valorizando as pequenas miudezas da vida, como nos inspira a pensar Manoel de Barros.

Talvez seja por isso que os nossos velhos amigos da melhor idade, estejam com tanta dificuldade de se prender em suas residências, pois não viveram na era digital, muitos, inclusive, se recusam a entrar no mundo virtual. “Os olhos não podem ver, coisas que só o coração podem entender” e porque não nos conectarmos com o coração, com nosso eu para enxergar o que realmente é necessário, abandonando excessos e conservando miudezas, percebendo que nosso principal alimento não se vende e também não se compra. Escapa da ordem do capital.

Talvez assim respiramos um pouco, enxergando que os encontros reais são preciosos e necessários. Inclusive, o encontro com nós mesmas. Essa é uma primeira contribuição para a quarentena – encontro único e necessário com nossa incrível arte de (re)existir:

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
Aninha e suas pedras, Cora Coralina

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