O papel do capitalismo e da pornografia na violência sexual infantil

Se há um tempo em que a sexualização e os “direitos sexuais” estão cada vez mais servindo ao patriarcado, esse tempo é a contemporaneidade. Nunca houve tantas ferramentas, escapes e plataformas (principalmente pornográficas) para reforçar e dar aos homens ainda mais poder de usar e objetificar as mulheres, e, não, isso não é uma forma de diminuir a violência de gênero ou prevenir a pedofilia. Bonecas sexuais, insistentemente infantilizadas e com estereótipos feminilizados de forma potencializada só crescem junto à demanda masculina por poder, domínio, força e violência.

O instinto de ter uma boneca – em realidade absurda, que emite sons, com texturas e o mais assustador: em roupas infantis que lembram uniformes escolar, por exemplo – para controlar, usar, abusar, da forma que for, não é nocivo contra o objeto inanimado mas sim contra o que esse objeto representa de forma direta: mulheres, meninas, que esses homens “não podem” alcançar. Mas alcançam.
Alcançam e com o aval de um direito ao sexo inexistente, construído no ideal de acesso livre ao corpo feminino, que é trazido desde a cultura da pornografia em que meninos assistem com livre acesso desde idades mais novas. Estão aprendendo a silenciar, desrespeitar e violentar, tudo isso em um contexto infantilizado, com corpos femininos frágeis, pequenos, performando vulnerabilidade e dor.

Como o capitalismo contribui para um imaginário que de abstrato não tem nada?
Essa cultura em meio a um capitalismo apropriador de todas as formas de exploração com a máscara de “liberdade e direitos” para reforçar as engrenagens da opressão aos corpos se torna um veneno nocivo que se materializa em violências reais. E isso tem em grande parte contribuição de um feminismo neoliberal andando de mãos dadas com um sistema mercantilizado, racista e patriarcal.

Desde a 2ª onda do movimento feminista, com um campo público e político que estava sendo minado pelo neoliberalismo e a implementação de políticas estruturais mascaradas de “desenvolvimento” nos países de terceiro mundo, pautas sociais das mulheres misturaram-se com um capitalismo que se reinventa a todo momento. Se reinventa para manter-se ativo, percebendo a emergência das reivindicações e os caminhos feministas a serem traçados, o capital adquiriu novas formas e apropriações que agradaram de certo modo algumas feministas – majoritamente brancas e que bebiam muito no feminismo eurocêntrico.

Assim, a perigosa aliança entre “emancipação”, absurdamente individual, “liberdade sexual”, a mercantilização do corpo e objetificação do corpo continuaram servindo à um poder maior e masculino, como bell hooks pontuou em seu livro Feminismo é para todo mundo. hooks questiona a contraditoriedade desse feminismo individualista que expõe corpos em uma bandeira de libertação, quando na verdade, motivações e finalidades suspeitas são tomadas pelo capitalismo que sempre fundou seu capital no centro da desigualdade sexual.

Claro que não estou condicionando a exploração dos corpos, violência e pornografia ao desvio de foco que algumas tendências feministas tomaram, precisamos entender como esses atravessamentos e encruzilhadas se influenciaram – ao mesmo passo que foram induzidas e violentamente conduzidas – para chegar em um cenário como hoje.

Como entender, então, pornografia e a produção da violência expositiva?
De forma traiçoeira e cruel, o capitalismo ao perceber que não mais estava fazendo efeito baseado somente no consumo material caótico, se moldou à abstração, à venda de experiências, sensações, ultra realidades. E isso tudo tem a ver com corpos sendo violados. Seja no imaginário, nas bonecas sexuais, seja na pornografia, em uma estética de rostos e corpos congelados na cena, expostos à transparência violenta de não ter vida nem distância, tudo começa e termina instantaneamente no valor único e absoluto da performance, como define Byung-Chul Han.
Na obra reconhecida mundialmente, Sociedade da Transparência, o autor traz como a pornografia – enquanto conceito filosófico – anula qualquer resquício de alteridade, logo, de humanidade da diferença, do outro, da mulher, do feminino. Isso em uma sociedade a positividade, acelerada ao capital, ao consumo de ideais, de imaginários que em um ímpeto de busca pelo prazer viola corpos em todas as esferas possíveis.

Essa “arte” do capitalismo se converte conforme a sociedade se molda para se manter girando, para satisfazer seus homens da forma mais rápida e vívida possível pela manifestação do poder e domínio que foi prometido à eles desde meninos. Visível nas categorias dos sites pornôs onde há um contexto de performance de mulheres adultas, mas também em sua maioria de meninas adolescentes e crianças, em interpretar o papel filha/pai.

A expressão máxima do quanto as bonecas sexuais de última geração não satisfazem o ego e o desejo masculino, não é suficiente, é preciso do real, da performance de submissão em que o homem (no roleplay “daddy”) comanda a situação com alguém fingindo voz de bebê, submissa, vulnerável, infantilizada. Criado o cenário, bilhões de acessos à sites pornôs por dia demonstram a procura pela satisfação a partir da sexualização e infantilização das “atrizes”. Há a dessensibilização de quem assiste à uma violência às claras, translúcida e explícita, ainda com a vítima performando um prazer impossível, potencializando a desumanização do corpo.

Com isso, já não há escopo imagético que gere um prazer superado a todo clique, a toda cena. É preciso mais, mais violência, mais abuso, mais domínio, mais vulnerabilidade. E que mais vulnerável do que um corpo infantil?
A cadeia não para por aí, o ciclo nunca termina e se dá no aumento dos números de estupros, violência doméstica e pedofilia.

Vamos aos dados?

No texto Pornografia como uma das causas do estupro, tradução de parte da obra Against Pornography: The Evidence of Harm — Diana EH Russell, concluiu que a grande porcentagem de homens que consomem pornografia foram induzidos a cometer crimes sexuais contra crianças. Ainda, o texto afirma “telespectadores da pornografia podem desenvolver respostas excitantes a representações de estupro, assassinato, abuso sexual infantil ou outro comportamento agressivo”.

Para o capitalismo, a desumanização das mulheres perpassa também a fragilidade extrema ao abuso e violência, não há pudor, o capital gira invadindo imaginários e espetaculariza a violação dos corpos para venda e consumo. Tudo começa e termina no lucro, às custas do que for. Nesse sentido, se faz necessário – e urgente – entender como o contexto atual se deu, quais as armadilhas que o capitalismo armou e segue armando junto ao seu sistema inerente do patriarcado, para compreender a intercalação de opressões e como essas só podem ser desmanteladas com uma transformação radical e total das estruturas.

Redes sociais

  • /TODASfridas
  • @todasfridasoficial
  • @todasfridasoficial
  • comercial@todasfridas.com.br

Todas Fridas

fifitransp