Ao pesquisar mulheres negras em situação de rua no período gravídico puerperal, pude perceber o quanto a maternagem para as mulheres negras é uma questão de luta pelo direito à família, ao afeto e ao pertencimento comunitário.
Em 2016, as famílias mais pobres do mundo eram chefiadas por mulheres negras, mulheres estas, que não abrem mão da criação de seus filhos, ainda que a miséria e a fome figurem suas realidades sociais. Para as mulheres negras, a maternidade compulsória é uma consequência do processo civilizatório colonial, misógino e racista.

Isto se responde ao fato de que ao longo dos séculos, as mulheres negras foram obrigadas a abdicar de sua maternagem, ora porque seus filhos eram tomados de suas mãos com dias de nascimento para que elas alimentassem os filhos da sinhás de Engenho, ora porque precisam trabalhar para sobreviverem numa realidade neoliberal em que não há direitos trabalhistas para um grupo social que é constantemente marginalizado do trabalho formal.

Ainda assim, sob a contrariedade de um sistema consolidado para nos delegar a amargura da solidão, do luto aos filhos assassinados ou encarcerados; a mulher negra resiste em sua memória ancestral, para lutarem pelo direito de amar seus filhos e lutarem por uma sociedade de evolução afetiva, onde seja possível que a realidade dos nossos descendentes seja figurada por uma vivência baseada na equidade de raça, gênero e classe.

Feliz seja todos os dias para as lutadoras, guerreiras e caçadoras que veem na maternagem, uma relação de autoestima coletiva, longe dos holofotes da dor que o processo de escravidão e o capitalismo tem colocado na nossa conta e nos obrigado a pensar que é o nosso único jeito de (sobre)viver.

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