A Aruanas que mora dentro de cada uma de nós

Logo quando o título “Aruanas” começou a ser veiculado em rede nacional nos movimentamos com um certo ânimo a procurar saber mais sobre o que aquele enredo, aparentemente tão próximo de nós e tão estranho ao mesmo tempo tinha a nos oferecer.

Boa parte do público envolvido com BBB e uma série de peso como esta compondo o conteúdo de uma emissora de TV de grande audiência. A série tem autoria de Estela Renner e Marcos Nisti em parceria com Maria Faria Farinha Filmes tem muito a nos ensinar. Poderia ser uma surpresa, se a emissora em questão não tivesse começado a demonstrar algumas mudanças em sua perspectiva. Incluindo questões sobre o feminismo, a diversidade, o racismo. Ainda que repletas de aparentes paradoxos, deslizes e uns equívocos, a emissora têm colaborado para a divulgação de temas que antes eram considerados “tabus” em nossa sociedade.

O enredo se concentra na abordagem do tema ambiental, tendo na linha de frente profissionais mulheres que buscam combater o garimpo ilegal e a devastação da natureza. Com pessoas adoecendo e tendo doenças neurológicas pelo trabalho em garimpos. São 40 minutos emocionantes na tela da TV, que demonstram os efeitos do uso de agrotóxicos e os desafios encontrados por ativistas da causa, incluindo a luta a favor da vida, com mulheres resistindo a ameaças e disputas políticas.

O egoísmo e a sede pelo dinheiro colocam questionamentos interessantes, nos provocando a pensar sobre o que temos a ver com a mata, florestas, pesquisadores. E nos últimos anos tivemos exemplos seríssimos do que pode ocorrer se não ocuparmos o nosso lugar de luta contra o sistema de crime ambiental. Quem se lembra do crime em Brumadinho? Que poluiu quilômetros dos rios e matas, quem tem acompanhado as lutas para combater o genocídio contra os povos originários da América Latina em tempo de pandemia? 

A série composta por 10 episódios (e com segunda temporada confirmada!) prova que temos ainda muito a aprender sobre o mundo e que temos o caminho para continuar habitando o planeta terra.

Com protagonismo de 53% da equipe de produção composta por mulheres, o enredo de peso veicula em uma das maiores emissoras de TV o problema da Amazônia, demonstrando como a exploração das águas dos rios e das matas têm afetado a nossa vida. Se estudávamos na quinta série a importância de proteger o meio ambiente. Hoje vemos que a causa é muito mais séria e ameaça, inclusive, nossa existência num futuro bem próximo.

O título “Aruanas” provável tenha vindo do Tupi, no significado de algo parecido como habilidoso e em posição de sentinela, disposto ao embate, nunca esteve tão atual. Lançado em setembro de 2019 no GloboPlay, reúne uma luta histórica dos ambientalistas no combate ao agronegócio e a indústria gananciosa que devasta terras e mata pessoas em prol de dinheiro. Um dos episódios caiu bem no dia da votação da #MP910, em vigor provisório desde dezembro de 2019 quando foi publicada.

A #MP910 vai na contra mão de tudo o que estudamos até hoje sobre meio ambiente. Ela beneficia os grandes empresários, uma vez que autoriza que empresários invadam terras públicas para desmatar. Com muita luta e mobilização nas redes sociais #mp910não #grilagemnão, conseguimos retirar a votação do congresso (entenda mais aqui). Um passo importante no combate à política genocida.

Nesse sentido, a série se torna cada vez mais pertinente para nossa formação. Propõe a análise contra a onda de criminalização do ativismo e das causas ambientais demonstradas no embate entre a luta de pesquisadores, a relação com a mídia, o combate ao crime, o desemprego e a situação das populações ribeirinhas, as doenças causadas pela devastação das cidades e as empresas que se disfarçam de amigas do meio ambiente para fazer todo o trabalho. Com um fundo político repleto de jogos de disputa, poder e dinheiro, os episódios nos convidam ao olhar crítico para o que nos cerca. Nos provoca a pensar o que tem a ver com a gente a invasão de terras indígenas o estímulo à matança de árvores, animais ribeirinhos e, pessoas!

Dando vida aos personagens Clara (Thainá Duarte), Luisa (Leandra Leal), Natalie (Debora Falabella) e Verônica (Tais Araújo), as atrizes brasileiras ocupam nossa residência demonstrando muito profissionalismo, com um talento de arrepiar! Longe de serem perfeitas, a trama consegue demonstrar, sem pieguismos, o quanto qualquer pessoa pode lutar em prol da vida. E, principalmente, como podemos, a partir de nossas profissões e habilidades alterar os rumos do planeta. As mulheres sabem fazer muito bem isso e a série aponta diferentes papeis sociais que ocupamos nesta problemática.

Uma possibilidade seria consultar dentro de nós que personagens da trama ocupamos em nossas vidas. De que lado estamos neste jogo social. Neste convite, vale nos indagarmos o que propõe Krenak no livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, quando coloca o peso de se pensar o sentido de tanto avanço da tecnologia em num contexto tão precário de sentidos.

A série ainda conta com uma trilha sonora de respeito, composta por mulheres talentosíssimas como Elza Soares, Gaby Amarantos, MC Tha, Tássia Reis, Xenia, entre outros. Além disso, o Instagram das atrizes e de outros protagonistas da trama também têm agregado com o debate político em prol de temas sociais (como racismo, feminismo e direitos sociais). Com isso, na produção cultural brasileira, vemos avançar situações da vida real, podendo mobilizar nossa voz em prol daquilo que acreditamos.

Afinal, “Aruanas” não é só mais uma série. Ela nos convoca a nos posicionarmos e pensarmos os próximos dias e a postura que temos assumido frente a tanta crueldade. Nos convoca a dizer, a nos posicionar. Uma oportunidade e tanta para tempos tão reflexivos, fica o convite (e não precisamos esperar chegar a terça que vem). Já imaginou nosso amanhã, além de não termos encontros presenciais, também ficarmos sem água e árvores?

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