A GORDOFOBIA MATA. E EM TEMPOS DE QUARENTENA MATA MAIS!

 

Se tem uma coisa que todes, ou a maioria das pessoas no mundo todo sentiu com a Pandemia do coronavírus foi medo. Muita gente por aqui, talvez ainda não tenha entendido, ou percebido a gravidade do problema, mas quem acompanha o fenômeno covid-19 está preocupado, no mínimo vem tentando realizar as medidas preventivas, que não só irão ajudar ao cuidado de si, mas também de outres, evitando tanto se infectar com o vírus, como transmiti-lo. Outres, de tanto medo, estão na negação e acreditam que não serão contagiados, cada une lida com o medo como pode, sabe ou consegue.

O sistema capitalista também se aproveita do medo para se enriquecer ainda mais, incentivando um consumo frenético de diferentes produtos, como álcool em gel, máscaras, luvas (sem as devidas recomendações). E também de produtos alimentícios, para quem tem o capital econômico, fazer estoque. Esse cenário se complexifica ainda mais com a circulação de notícias sensacionalistas em conjunção com a indústria do corpo, como é o caso dos impérios trilhardários do emagrecimento no mundo.

As pessoas têm medo de engordar, a sociedade é gordofóbica, ou seja, coloca às pessoas gordas como doentes ou com risco de serem. Como corpas não desejáveis dentro do imaginário de como deveria ser a sociedade. Desta forma, recria diferentes formas de vigiar e punir essas corpas-pessoas, mas também de controlar como nossas corpas devem ser, pensar, comportar, etc.

A saúde e suas instituições jogam um papel muito importante nessa triada (vigiar-punir-controle), sendo que retroalimentam o lugar de corpas gordas como abjetas.

A mídia também entra em cenário, trazendo narrativas, sem fundamentos científicos e se usando das categorias biomédicas, de que as pessoas ‘obesas’ seriam um grupo de risco para o coronavírus. Isto faz com que esse medo de engordar seja alimentado ainda mais e assim milhares correm a farmácia e compram shakes, cintas, ebooks, afins. A internet anuncia a cada minuto como emagrecer em poucos dias, e assim segue a boiada desesperada.

Mais perigoso e cruel ainda é entender os mecanismos pelos quais o preconceito, o estigma e a discriminação para com as pessoas gordas (gordofobia) são articulados no discurso acadêmico-científico da biomedicina e materializados no cuidado à saúde das pessoas gordas. O que nos faz pensar em como serão os atendimentos as pessoas gordas, caso elas tenham que ficar internadas num quadro grave na pandemia. Como serão tratadas?

Fico imaginando quando precisar ir ao hospital com sintomas do vírus e não houver maca, cadeira para mim. Como será que a equipe médica vai me tratar? Essas pessoas aprenderam sobre gordofobia em suas formações? O que andam lendo na mídia?

Organizações como a OMS (organização Mundial da Saúde) colabora com esse medo, já que colocou pessoas gordas no grupo de risco, isso ajudaria em quê? Na contribuição do desespero em engordar na quarentena. Parece-nos mais uma biopolítica de higienização de aquelas corpas que não se encaixam dentro das norma-tividades, se justificando, mais uma vez, dentro da construção do dito ‘saudável’.

Engraçado perceber que o maior órgão de saúde no mundo contribui para que as pessoas gordas fiquem mais doentes e as magras entrem em desespero em engordar. Que tipo de saúde é essa que não consegue lidar com uma pandemia e com corpas dissidentes mais uma vez?

Muita coisa a pandemia nos trouxe além do medo, uma reflexão sobre como nossos governos vem tratando a saúde, a comercialização do saudável, a normatização e hierarquização de algumas corpas. Vimos isso no discurso do novo/ex Ministro da Saúde no Brasil quando disse quem merecia ser salvo na pandemia. E, você o que responde a essa pergunta que nem deveria existir: Quem merece ser salvo na pandemia?

 

Esse texto foi escrito, pensado e experimentado a duas mãos e corações, pela colaboradora Maria Luisa Jimenez e Ale Mujica Rodriguez.

Na imagem acima Ale Mujica Rodriguez. Possui graduação em Medicina – Universidad Autónoma De Bucaramanga, Colômbia – UNAB (2009), especialização em Docência Universitária – Universidad Industrial de Santander, Colômbia (2012). Mestre (2014) e doutorado (2019) em Saúde Coletiva – UFSC. Desenvolve pesquisas no campo das questões Trans (Transexualidades, travestilidades e transgeneridades); saúde LGB; gênero, decolonialidade, interseccionalidade e saúde; gordofobia; diretos sexuais e reprodutivos; políticas públicas em saúde. (Trans)feminista e ativista autônome do movimento Trans e lésbico, do movimento gorde, do movimento feminista em saúde e pela legalização e discriminalização do aborto. Faz parte do NeTrans (Núcleo de estudos e pesquisas de travestilidades, transgeneridades e transexualidades) – Ufsc. @ale.mujica.sexy

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