Recolhi os relatos que fiz aos amigos, abordando os sintomas e sentimentos de quando testei positivo para o covid-19 e, logo quando comecei a me recuperar, somei os relatos aos estudos empreendidos no período de pandemia e iniciei o desenvolvimento deste texto.

Mais longo do que os demais textos, repleto de circularidades e repetições, o texto diz muito sobre o meu processo com o vírus. Sem fôlego, tonto, lento, cansado. Foi um momento de introspecção, mas também de uma sensação grandiosa de espírito coletivo.

Curioso que toda vez que começava o texto para trazer a público a narrativa sobre minha experiência com testagem positivo ao covid-19 algo me impedia. Sem contar as inúmeras revisões. Foi um texto escrito por três meses. É a quinta vez que sento à frente do computador para tentar relatar sobre esse caminhão que passou por cima de mim. O processo de escrita é complicado, a cada vez que nos lançamos ao texto, somos modificados e, consequentemente modificamos. Portanto, peço perdão aos leitores, mas esse texto têm o tom do momento que vivemos com o vírus, de um período com exaustão, saudades, surpresas, transformações, descobertas.

Olhando para nossos sentimentos e voltando a atenção para nosso bem-estar, desenvolvo uma narrativa que tem como endereçamento os interessados sobre os dias que passei com o covid-19, com atenção à vida de mulher. Não há como negar que somos mais sensíveis ao vírus, mais expostas e que a mira nunca saiu de nós. Acho que agora o texto sai.

Tudo começou no dia 17-04, quando comecei a sentir uma dor no dorso do nariz. Uma dor muito forte, que relatei ao amigo médico da família da seguinte forma:
[20:52, 17/04/2020] Kallyne: Desde a hora que cheguei em casa tô morrendo de frio. Levantei para fazer uma comida e me deu um tonteira danada. Muita dor no dorso do nariz. Parece que vai desfragmentar de dor. Vontade de ficar deitada. Mas de todo jeito dói.

E nessa mesma noite tive febre (iniciando com 36,5 depois 37,3 e 37,8). Quando comecei a ficar preocupada. Até então, achávamos que era uma sinusite, portanto, me cuidei com ibuprofeno. Acordei melhor. Passei a manhã bem, embora com dores no corpo. No fim da tarde, provável que o efeito da medicação tenha passado, pois a febre voltou:
[16:48, 18/04/2020] Kallyne: Voltando a febre. Sono. Dor no dorso do nariz. Dói tudo. Dor no fundo dos olhos. Tosse.

No dia 19-04 senti uma morbidez, vontade de ficar deitada. Como estivesse muito cansada. Uma vontade cada vez maior de poupar energias. De me recolher para não contaminar quem amo e com uma profunda tristeza por não saber meu diagnóstico.

No fundo sentir que o covid-19 havia me contaminado. Já havia parado o contato com meu esposo e com minha cachorrinha. E isso doía muito. Nós mulheres temos uma ligação especial com o mundo, ele precisa de nós para se movimentar, nossa energia alimenta e é alimentada por outros corpos, isso dá vida ao cotidiano. E eu comecei a ficar preocupada com isso.

Até porque, me questionava sobre como seria minha evolução com o vírus, para onde eu iria e o que faria. Com o sentimento total de abandono e solidão, não entendia muito bem o motivo da angústia. Até que, mais a frente, passo a compreender as interferências do desamparo político, interferindo nos sentimentos advindos com os sintomas.

E assim foram os dias. Fazia as tarefas de casa com muita moleza e dor, tudo era grande e difícil, só queria ficar sentada no sofá. Lendo livro, as letras embaralhavam. Há quatro dias atrás havia sido demitida e procurar emprego estava sendo uma das maiores dores. Pois o cenário do país não colaborava para amenizar meus sintomas. Senti o que já afirmava para mim há um bom tempo, não é possível darmos conta de tudo e não tem problema nenhum isso. É libertador (re)conhecer nossos limites e nos poupar da exaustão. Há limitações impostas de forma muito sutil a nós e precisamos observá-las e conduzi-las com cautela, seja na família, na amizade ou no trabalho. O vírus estava me apresentando isso, por meio dos exercício com a respiração.

De forma muito sutil, eu precisava ler os sinais que meu corpo estava dando com esse invasor tão minúsculo e poderoso.

A dor, a febre, os constantes espirros se somatizavam com o cenário de horror e descaso que nós brasileiros nos encontramos. Com a falta de ar revezando com a percepção da falta de compaixão de quem continua defendendo a bandeira da ganância e da sede pelo lucro eu estava incrivelmente vivendo a parte mais complicada do vírus – a guerra política.

Nesse sentido, talvez meus sintomas não se agravassem tanto, se não fosse o show de horror assistidos cotidianamente, revelando a pior face de uma sociedade hipócrita e que valoriza o dinheiro em detrimento de pessoas. Não digo só do que é veiculado na televisão, nos depoimentos dos governantes nas redes sociais, mas principalmente das mensagens que circulam no WhatsApp.

Assim, lamentavelmente por meio da opinião alheia, observamos que a banalidade do vírus se encontra tão perto de nós, salvo, inclusive, em nossos contatos. Quando iria imaginar que mulheres tão inteligentes e queridas, estariam defendendo posicionamentos tão sangrentos e romatizadores da morte? Creio que temos ainda uma longa jornada de estudos e reflexões sobre como ouvir e encontrar caminhos de aprendizagem mútua, libertadores da opressão, reconhecendo inclusive que nossos opressores também são oprimidos (FREIRE, 1998).

Nessa angústia, fui refletindo sobre como todos nós temos sido vítimas de um sistema que banaliza o mal, neste caso em especial as tragédias decorrentes do vírus. E nós, mulheres (em especial as negras, indígenas, pobres, com deficiência e mães), como sempre o alvo mais próximo, pois carregamos o fardo da opressão nas costas (hooks, 2015). Somos as primeiras a serem demitidas, a se preocupar com alimento e com trabalho. Somos as primeiras da fila a serem culpabilizadas ou questionadas (a exemplo do valor um pouco mais alto para as mães chefes de família no #auxílioemergencial). Historicamente, na parte inferior da escada do trabalho (hooks, 2015) estamos lutando para sobreviver a mais essa pandemia, cada vez mais à margem.

No dia 20-04 iniciei a anosmia, que é não sentir cheiro de nada. Perdi olfato e paladar – uma das sensações mais loucas da minha vida. No dia 23-04 comecei a sentir a terrível sensação de falta de ar, pensei que ia morrer e não ia demorar. Senti que meu corpo estava encontrando um caminho de entender, processar e sair disso tudo.

Como nos ensina bell hooks (2005), encontramos no amor como um caminho para melhorarmos enquanto humanidade. Não há como falar da covid-19, sem pontuar nossa estrutura, sem dizer das históricas estratégias de dominação e das possibilidades de reverter isso. O amor é uma delas. Mais do que nunca estão estampadas na nossa cara. Temos reagido a isto, em meio à pandemia, por exemplo com os manifestos contra o racismo e com mais abertura na escuta do próximo, a uma escuta diferente de nós.

Como um caminho, bell hooks nos ajuda a pensar no quão é “[…] essencial para a continuação da luta feminista que as mulheres negras reconheçam o ponto de vista especial que a nossa marginalidade nos dá e façam uso dessa perspectiva para criticar a hegemonia racista, classista e sexista dominante e vislumbrar e criar uma contra-hegemonia”. Talvez, por meio do nosso compartilhamento de experiências e escuta ativa das vivências de quem vive a opressão, podemos compor, coletivamente, estratégias de sobrevivências.

E, exercitando o pensamento, passei a sentir muita pressão na cabeça. Não sei se pela covid-19, ou pelo mal estar político vivenciado com o avanço das políticas opressoras. Triste e preocupada com a situação e o caminho para um mundo que parecia se acabar em miséria e fome, sentia falta de ar a cada relato de uma irmã nas filas de banco, lotadas enquanto os relatos de desemprego no país aumentavam na mesma proporção que os pedidos de i-food – a precarização da precarização. O  comércio fecha-não-fecha e a veiculação de informações que não ajudam em nada, tentando abafar a situação de calamidade espiritual que nos encontramos. Por vezes aclamadas aos domingos pelo patriotismo verde-amarelo, me sentia não só à margem, mas sem rumo no precário horizonte dos países sulamericanos.

Enquanto isso, meu nariz que nunca foi lá muito bom parecia que estava com a cartilagem podre, de tanta dor. Meu rosto inchado de tanto espirrar e tossir. Foi neste quadro, pensando na possibilidade da minha situação se agravar, que passei pela difícil decisão de sair para fazer o teste. Afinal, sabemos que são poucos e, saindo de casa poderia contaminar mais pessoas.

Meu teste estava previsto para ser realizado no dia 01-05-2020, mesma data em que fui chamada para assinar minha demissão. Certamente um dia de infortúnio e de reflexões sobre a condição de uma professora, com muita vontade de trabalhar e de colaborar com a educação, praticamente chafurdada e contaminada na lama da covid-19. Ironia do destino? Coincidentemente, os dois eram no mesmo bairro e eu entrei para as estatísticas não só dos contaminados por Covid-19, como também das mulheres que ficaram desempregadas na pandemia. Mais uma estatística na minha vida. Mais uma vez minha dor virou número. Saí de casa pela primeira vez, para fazer o teste e ir assinar a demissão em plena pandemia. Metrôs, ruas e a própria empresa, pareciam não ter se dado conta da pademia, contribuíam para a aglomeração:

[10:54, 01/05/2020] Kallyne: Eu sem ar e queimação no peito. E não sinto cheiro de nada há três dias. Não aguento ficar sufocadaaaaa dentro dessa máscara. Já não tô respirando bem. Fora a queimação no peito. Horrível amiga, horrível!

Eu só preocupada em como ia me medicar caso meu quadro se agravasse. Sem ter o próximo salário, eu tinha que saber administrar muito bem o investimento que ia fazer. E só pensava na possibilidade de ter que escolher entre comer e comprar remédio, sabonetes, desinfetante e máscaras. Parece pouco, mas para quem ganha o mínimo essa é uma escolha árdua e real que assombra nosso pensamento. Se do alto do meu 11º andar estava com esta preocupação, quem dirá quem habita o chão socado de terra das inúmeras comunidades do País. Chegamos a um ponto em que é impossível permanecermos cegos, olhando o mundo desconsiderando as diferentes realidades (JESUS, 2005). E seria coincidência se meu sexo, cor e classe social não se somasse à milhares de outros números, sendo motivo de preocupação em massa.

Não existe remédio comprovado e de eficácia sem efeitos colaterais contra a covid-19. Isso me deixava angustiada, sem saber da evolução do vírus no meu corpo, afinal, cada um reage de um forma. Sem plano de saúde, desempregada. A maioria dos estados sem leito e respiradores, com a inauguração dos hospitais de campanha atrasadas, o que esperar quando se contrai o vírus? Eu acredito e sou usuária do sistema de saúde público e, escolher não sobrecarregá-lo era a minha opção.

Soma-se a essa sensação de impotência, as narrativas que entoavam a naturalização da morte: “não tem jeito, já ia morrer mesmo. Não é tudo isso, não precisa ter medo”. Bom, no meu humilde ponto de vista essa frase esconde um dos piores pesadelos de nossa humanidade, a falta de análise e de compaixão ao próximo, um próximo bem próximo – no caso EU, que estava ouvindo (indiretamente) que se eu morresse não haveria problema, afinal um dia eu iria morrer mesmo! Pasme! Ver minha vida tão descartável, me fez repensar o sistema e as estratégias de diálogo com as pessoas.

Parei para analisar os dados e observei que o perfil “dos que iam morrer” mesmo, tem nome e características próprias: são pessoas sem acesso a remédios, comida, saúde, afeto e política pública. É a população dos invisíveis. Ela tem cara, cor e está vivíssima fazendo o mundo girar.  Mas, nunca esteve tão explícito o quanto tem gente, que não está nem ai para isso. Um quadro atual para retomar a leitura do livro de George Orwel #arevoluçãodosbichos, pois têm ficando cada vez mais difícil distinguir quem é homem e quem é porco. 

Nesse contexto, do conforto do lar, não faltou ver gente stressada no primeiro mês da quarentena. Afinal, deve ser difícil (re)ver a desigualdade que tanto vivemos a vida toda – escancarada deste jeito. Estressa mesmo. E fugir da problematização apelando para a leveza é uma opção. Imagina, você comer bem e saber que tem gente passando fome. É atormentador. E não tem doação que cubra este buraco de dor. Defender as bandeiras que defendemos exige esforço (mental, intelectual, financeiro…), nunca foi fácil lutar pela sobrevivência e ainda ter paz interior.

Ver o tanto de entregador de comida por app cruzando a rua, o shopping com fila e os supermercados cheios enquanto boa parte do mundo passa fome, está desempregada e vive a desigualdade, às vezes me desanima. Mas também me dá fé, para pensar que o vírus talvez tenha vindo a tempo de tentarmos reverter o quadro de egoísmo e de maldade que o Planeta Terra se encontrava/se encontra. O vírus me ensinou a canalizar minha energia no meu processo de cura em conexão com o mundo.

Espero que o exercício de viver com pouco promova efeitos positivos em nossa sociedade. Me refiro à cessar a maldade com o nosso planeta, em troca de dinheiro e de poder. Inclusive, nestes dias que estive isolada, cantei, com uma entonação divina, mesmo que um pouco rouca e fanha, “O mundo é um Moinho” do Cartola, que também me fez sentir incrivelmente bem. Combinou com meu tom de cansaço e me ajudou a levantar do caminhão que passava por cima de mim. Creio que estejamos no tempo de avaliar escolhas e retomar os sentidos que atribuímos às coisas, às pessoas, aos fenômenos ao mundo (KRENAK, 2019).

Me senti presenteada, com a possibilidade de sobreviver a tudo e poder contar um pouco do que eu acho que muita gente sente a vida inteira e não consegue expor. Acho que somente sendo mulher para experienciar o lado mágico da tragédia. Temos um talento incrível para superar as dores, talvez por isso a gente goste tanto da Frida Kahlo, que dividia seus momentos de alegria com infortúnios problemas de saúde, desaguando sua dor na arte (SIQUEIRA, et. al., 2014).

Arte essa que deu pistas para a projeção de investimentos futuros. Se por um lado a enxurrada de lives demonstram que não conseguimos viver sem fazer o dinheiro girar, por outro também diz que ele pode girar de uma forma solidária. Artistas não vivem sem o povo e isso ficou muito explícito com a audiência e perfil de adesão às lives. Quem consome música e o preço que se paga por isso. Com a internet cada vez mais popular, os encontros nas lives já não podem dividir o público que consegue pagar caro e ir ao show.

Ver que estavam sendo feitas doações de toneladas de alimento e objetos de limpeza me provocavam a dar um crédito para a humanidade, mesmo que esse fazer viesse associado a uma divulgação (lembrei do meu avô e da minha mãe, com seus ensinamentos que aprendi tanto: “o que a mão esquerda dá, a direita não precisa ficar sabendo”).

Com essa frase, aprendi desde pequena sobre como lidamos com a doação, a filantropia e a relação de respeito ao outro. O que falta para mim, não é o mesmo que falta para o outro. Que a forma com que o camarada doa é diferente, não se quer nada em troca. Diferente do rico, que sempre vê uma forma de lucrar, até a situação de miséria alheia. Pode não lucrar no momento, mas essa fatura chega (e com juros!) para o pobre! Aprendi que a relação de “falta” e de “necessidade” é muito particular e não podemos pautá-la na vida do outro. Pois é, nesse período, escutei até que: “posso ajudar, mas desde que não seja escolhido o cardápio”.

Isso diz muito sobre o poder de escolha e as relações sociais que o dinheiro causa nas pessoas. Quem sente que está por cima, por mais rico de espírito que pensa que é, se mata por dentro, ao ver o pobre definir seu próprio caminho, viver na pobreza, mas feliz. Porque, eu nunca vi, mesmo em meio à uma Pandemia, uma galera para se manter tão alto astral e resiliente quando a classe popular. Mesmo com todo o preço (por vezes, o preço da própria vida), a classe popular já sabe há muito tempo se reinventar com o pouco que têm, sobrevivendo e tirando a alegria do fundo do poço, espalhando força e crença de que a dificuldade é momentânea, é só uma fase e vai passar.

Não quero romantizar a pobreza, mas dizer da nossa incrível possibilidade de nos encontrarmos com o tempo, ressignificar o uso do nosso dia, da ocupação de nosso pensamento, da nossa conexão com a fé na humanidade e com os valores de comunhão, partilha, solidariedade.

Com a pandemia, estamos tendo a oportunidade de ter acesso a conteúdos produzidos por diferentes áreas de conhecimento. Também mostrou que podemos ser mais solidários e passíveis às dores do outro. Mas porque será que sustentar esse sistema seja tão complexo? Seria tão difícil “criar comunidade amorosa, de viver juntas, realizando nossos sonhos de liberdade e justiça, vivendo a verdade de que somos todas e todos ‘iguais na criação'” (hooks, 2013).

Ver as atrocidades do (des)governo do país me faziam acreditar que as coisas poderiam piorar. E muito. Os três grandes unicórnios ensinados por BoaVentura (2020), capitalismo, colonialismo e patriarcado, nos ensinam a planejar um horizonte de caminhos mais sensíveis ao outro. Com mais compaixão às pessoas e menos cancelamento da diferença, talvez tivéssemos pistas de como encontrarmos um mundo melhor de se viver. Mais tolerante às diferenças, mesmo que esta acarrete milhares de desafios ao próprio eu e aprendizados para decisões futuras (hooks, 2013).

A sociedade já demonstrava que o caminho para muitas de nossas inquietudes seria o diálogo. Para tanto, um apontamento que nos apresenta com a pandemia é a valorização da linguagem e atenção a não banalização da palavra (KRENAK, 2019). Historicamente vivemos a dor, de diferentes formas, sabemos o quanto a palavra é importante. Palavra carregada de gestos, jeitos, manias, vícios… A palavra com toda sua dimensão social (FREIRE, 1980) nos mostra que podemos nos (re)conectar de diferentes formas, contribuindo para vivermos em harmonia.

Harmonia que integra, inclusive, as discordâncias, afinal somos diferentes. Entender que não precisamos ser donos da razão, eleitos reis e rainhas da verdade. Cancelar o outro a troco de audiência e menosprezar a situação que estamos vivendo tem se mostrado cada vez mais desumano, informando mais uma vez a opressão em sociedade (Leia mais sobre a cultura do cancelamento aqui). Se o aumento de 50% a mais de mortes, significam muito para a humanidade o que podemos aprender com ele? Talvez seja um modo da Terra mostrar que precisamos de espírito de coletividade, responsabilidade e paciência e isso se dá no encontro, encontro de palavras e demonstrações de amor ao outro/amor ao mundo.

Por mais difícil que seja, é viável estarmos em conexão com o outro tendo tolerância aos diferentes tempos de cada um. Combater o sentimento de opressão, vigiando a linguagem e como nos dirigimos ao outro não é simples. Principalmente quando vemos morrer tanta “gente nossa”. Mas esse combate é necessário para travarmos a luta em uma arena historicamente opressora e desigual, alavancada pela sede de dinheiro e com muitos corpos no chão. Nesse sentido, chamo os ensinamentos com hooks, de valorização da nossa vida:

“Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros.
Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que
frequentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma
ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora
que libera a mente e o coração.” (hooks, 2005). A pandemia escancarou as desigualdades sociais e nossa necessidade de união. E o que fazemos a partir disso?

Ter passado pela experiência de dores do covid-19 me deu pistas para continuar a viver, fortalecendo aquilo que eu sempre acreditei, na força espiritual e na conexão com nosso eu, nosso povo. Nós, mulheres, costumamos ter conexão, intuição e sensibilidade. Por vezes, não nos dedicamos a ouvir e discernir nossos sentimentos. Fomos silenciadas pela cultura do status e da rivalidade, traços de uma cultura patriarcal que nos divide e separa, afastando nossos laços de conversação. Que possamos libertar nossos corpos em direção ao espírito coletivo.

Creio que quando começarmos a sair de nossas casas, encontraremos, a humanidade um pouco disposta ao diálogo e a viver em comunidade. Espero que menos agitada e ansiosa. Mais celebradora dos pequenos prazeres (BARROS, 2012), mais conscientes do cuidado com o meio ambiente (KRENAK, 2019) por meio da educação como prática libertadora (FREIRE, 1980).

Certamente, em tempos de pandemia tivemos a oportunidade de ver que o pior vírus é o do necropolítica (MBEMBE, 2018), que mata seres vivos a troco de dinheiro e poder. Se a dor provocada com o vírus é grande, é preciso ter compaixão à situação do outro. Visto a manifestação diferenciada em cada corpo e a desigualdade que nos encontramos. Falar que não há necessidade de ter medo ou que o “covid-19” não é isso tudo, banaliza mais uma vez a desigualdade, demonstrando nossa principal doença.

Creio que estamos tendo a oportunidade de ver escancarado tudo que sempre ocorreu e ressignificar a preocupação com o sentimento de coletividade. Não que por relatar tudo isso tenhamos deixado de ser leves e alegres, acho até que este texto conseguiu mostrar isso. Mas o fazemos com consciência, pois temos a memória viva do que se constitui o avanço da violência na sociedade.

Em mim, o vírus se manifestou de uma forma incrível, ao ponto de entender que nós mulheres, de modo muito particular, pelo que observei, manifestamos os sintomas de forma mais intensa. O vírus, ao recebemos em nosso corpo logo se manifesta. Como sempre mais afetadas, encaramos as tarefas domésticas no limite da exaustão, enfrentamos a falta de ar e queimação no peito. Sem poder doar o toque, doamos na medida do possível nossa força de trabalho.

As mãos esfoliam e exacerbadamente abusamos do uso de álcool em gel, mas elas sangram há anos com as relações de poder. E neste escrito, feito após os meus dias com os sintomas do vírus, queria dizer que, mesmo tendo melhorado ainda sinto que estamos em processo de cura. Quando aqui dentro de mim a quarentena se esvai, do lado de fora a curva sobe  – latente e na dimensão da maior montanha russa do mundo, avassaladora – indo ao encontro das políticas genocidas do presidente eleito.

Num país como o Brasil, saber de nossas limitações e dos indicativos de quem está no poder não é nem um pouco animador. Principalmente para quem sentiu a doença e sabe que os sintomas são mortais, em especial, para quem vive abandonado à sorte.

Com esses princípios vou finalizando esse texto consciente das desgraças que nos acometem, mas apostando em dias melhores.

Aposto em dias melhores por ter ao meu lado, mulheres da minha cor, expressando e me fazendo a acreditar na força da sobrevivência. Dessa forma, agradeço às que demonstravam preocupação com meu estado de saúde. Com isso, pude entender, a partir que, por mais valioso que seja, é de graça e tem um ponto de vista especial:
[14:54, 24/04/2020] AC: Que bom que está melhor! Fico feliz […] Não agradeça o que é de graça! Meus sentimentos por vcs são sinceros! Espero vê-los em breve!

Agradeço aos  amigos e companheiro que se mantiveram atentos e preocupados com a minha saúde. Não só a física, mas a mental também. Enviar uma mensagem, por mais simples que seja, com certa frequência, demonstra que nos importamos com o outro. Não digo daquela mensagem pronta e em massa, muito comum no WhatsApp. Mas daquele carinho às vezes demonstrado com o sentimento de comunidade afetiva (hooks, 2005).

Quando a quarentena acabar creio que terão muitos encontros de celebração da amizade. E acho que eles serão um pouco diferentes. Espero que o ser humano tenha aprendido a se encontrar para se abraçar, dançar, cantar, tocar, sorrir e não só para comer bem e reparar a roupa do outro. Espero que tenhamos percebido que as “políticas feministas libertadoras ainda são o único caminho para a justiça social que ofereça uma visão de bem-estar mútuo como consequência de sua teoria e prática” (hooks, 2013).

Durante os dias com covid pude experimentar deste sentimento e me fez entender e realocar alguns sentimentos e sentidos sobre estar em comunidade e sobre quem eu sou na sociedade. Avaliar as prioridades e o que entendemos por família, amizade, por relação social, por pessoas, pelo eu mulher na sociedade. O distanciamento físico talvez seja uma oportunidade de avaliar nossas demandas por interlocução, nossos excessos e expectativas com relação ao outro. Tudo isso contribuindo para nos tornarmos seres humanos mais confiantes e em paz com nosso interior, reflexivos sobre a dominação de uns sobre outros, isso não é algo natural e pode ser revertido (hooks, 2013).

Essas foram algumas reflexões que me ocorreram durante o tempo que estive isolada (fisicamente) de um tanto de coisa, mas muito próxima espiritualmente de outras. Ter passado pela experiência de viver as dores do covid-19 me mostrou mais uma vez que sou capaz de suportar dores, resistir à desigualdade e lutar pela vida. Ter nascido com poucos recursos capitais não nos impossibilita de tentar sobreviver à soberba e ao patriarcado.

Pior do que isso, sentindo os sintomas da desigualdade social (nosso velho vírus) nos separamos com os sintomas mortais desde que chegamos ao mundo. Mulher, da cor que parte do mundo não gosta, gorda, de classe popular e, persistente em viver, encaro os três unicórnios (SANTOS, 2020), desde que nasci.

Encaro a pandemia como, com todo respeito ao que estamos passando, um grande dever de casa ao mundo. Ensaguentadas as mãos das mulheres mais uma vez escrevem páginas na história do mundo, marcando o sentimento de opressão que nunca saiu de nós. Na selva de pedra, combatemos dia a dia o vírus do ódio às diferenças. Chegamos ao ponto de olhar cara a cara e fazer nossas escolhas, projetando no horizonte um futuro melhor, para nós e para quem fica na terra.

Referências
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 10. ed. -. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 25 ª ed. (1ª edición: 1970). Rio de Janeiro:
Paz e Terra. 1998.

HOOKS, Bell. Mulheres negras: moldando a teoria feminista. Rev. Bras. Ciênc. Polít. [online]. 2015, n.16, pp.193-210. ISSN 0103-3352.  http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151608.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada.
8ª ed. Série Sinal Aberto. São Paulo: Ática. 2005.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Cia das Letras. 2019.
SANTOS, Boa Ventura de Souza. A cruel pedagogia do vírus. Coimbra, Almedina. 2020.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018.

ORWELL, George. A revolução dos bichos. 37.ed. São Paulo: Globo, 1993.

SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo; MENDES, Plínio Duarte; FONSECA, Julia de Oliveira and MACIEL, Marina de Souza. Arte e dor em Frida Kahlo. Rev. dor [online]. 2014, vol. 15, n.2, pp.139-144. Acesso em: 21 de maio de 2020. Disponível em: [https://doi.org/10.5935/1806-0013.20140018].

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