O que as crianças estão aprendendo com o isolamento?

Se você também pensa que as crianças estão perdendo tempo ao deixarem de ir para as escolas, esse texto é para você. E, sinto informar: precisamos conversar.

Estou preocupada com o seu conceito de tempo, em especial a ideia de perder. De certo, nada substitui a escola. Nada se compara aos encontros com nossos colegas de classe, com nossos professores e todo o universo escolar. Certamente estamos tendo a oportunidade de ver e sentir o quanto a escola é importante. Nisso concordamos, com certeza.

Mas, perder tempo? Será?

Escola é gente, já diria Paulo Freire e as crianças provam isso a cada dia. A escola está em nós, levamos ela para qualquer lugar, nós, adultos e as crianças também. Como nos ensina o professor Freire ao dizer que a escola é, dentre outras coisas, conviver! As crianças, no tempo que estão em isolamento estão aprendendo muito! Vamos confiar nelas e em sua infinita capacidade de aprender. O que elas estão vivendo, está longe de caber em qualquer livro didático. Com o isolamento as crianças estão aprendendo sobre tecnologias, sobre a saúde pública, perspectivas para a humanidade, cuidado com o outro, desigualdade social, política. Estamos aprendendo sobre relações e gênero no contexto das atividades domésticas, empreendendo uma luta incessante para ensinar o que a escola tenta há anos: o espírito coletivo.

De diferentes formas e, forçosamente, fomos convidadas a revisitar nossos currículos escolares e, em diálogo com as famílias estabelecer uma relação de atividades contextualizadas, levando em consideração a pandemia. Atividades estas que, com a nova rotina, dentro de casa, nos leva a problematizar sobre um grande e histórico dever de casa: as tarefas domésticas e o cuidado com as crianças. Falar desta tarefa nos leva a abordar grandes desafios: veja neste link como cresceram as responsabilidades para as mulheres durante a pandemia. Coloco cinco exemplos a seguir:

1) Como está distribuído nosso tempo? Considerando auto cuidado, lazer, trabalho doméstico não remunerado e trabalho formal, o que mudou com a pandemia? Dados indicam que a situação do isolamento agravou nosso os desafios que já eram imensos, veja neste link informações sobre isto;

2) Temos utilizado nosso tempo ensinando as crianças sobre relações mais horizontais e respeitosas a, pelo menos, às pessoas que convivem na mesma casa? Como tem ficado as tarefas domésticas, sob responsabilidade de quem? Temos refletido sobre as tarefas compartilhadas, o cuidado e a proteção da lei trabalhista às trabalhadoras domésticas? “Sem parar, o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, é título de um relatório que informa o quanto temos ainda o que aprender enquanto sociedade;

3) Como temos escutado o que as pesquisas em educação vem desenvolvendo? Importante considerar a perspectiva de currículo proposta e os encaminhamentos para a organização do conteúdo educacional, inclusive para as crianças com deficiência e suas famílias, que estão encontrando caminhos incríveis para superar a ausência da escola formal e do atendimento educacional especializado. Isso inclui pensar com quem estão as crianças com deficiência e qual assistência temos dado a isso;

4) Refletimos sobre a dependência digital, sobre os limites do uso da rede? Se nem a bateria do celular aguenta, quem dirá a nossa disposição vital. Talvez, forçosamente seremos obrigados a abrir os livros e ficar mais “off-line”, interagir com vizinhos e alimentar os diferentes saberes existentes. Recorrer à contação de histórias, escutar os idosos, valorizar as narrativas dos pequenos, experimentar brincadeiras tradicionais e acreditar que o corpo livre consegue, dentre tantas coisas, brincar, aprender e (se)respeitar. Isso inclui nos questionar quais as atividades (domésticas, de estudo, de lazer) que crianças e mulheres fazem dentro de casa, temos dados preocupantes sobre isso, acesse aqui abordagem sobre o assunto;

5) Como temos encarado o cuidado com o meio ambiente? Este momento nos convida, mais do que nunca, para ter atenção com a nossa habitação na terra, com a proteção da natureza e, isso inclui pensar como temos cuidado de nós mesmos, pois fazemos parte do meio em que vivemos. Encarar como tratamos nossa liberdade e o uso que fazemos do nosso espaço. Estamos tendo a oportunidade de aprender com nossos erros. Com isso, rever a estrutura amarrada de conteúdos que aprendemos na escola e, no horizonte, talvez fosse possível pensar que a humanidade caminha em ritmos de mudança e transformação, sendo uma aposta de um mundo mais justo e igualitário, um elemento possível de nossos sonhos (KRENAK, 2019). Isso inclui pensar como temos entendido a vida de crianças e mulheres que vivem em comunidades ribeirinhas, aldeias, favelas.

A partir destes cinco exemplos, observamos que os desafios que já eram antigos, demonstram que temos uma longa estrada pela frente. Já dispomos de um terreno fértil para caminhar, se pensarmos no que está definido nas diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil, ao prezar pelas diferentes linguagens das crianças com o mundo. Esta ideia se desenvolve por meio das interações e brincadeiras, reconhecendo as diferentes vivências das crianças, como um caminho possível de estabelecer relações de ensino aprendizagem que nos considere por inteiros.

É sobre sonhos, um sonho que vem associado a uma aposta no presente, considerando as diversas possibilidades de escutar, observar e propor iniciativas para além das atividades que são recebidas pelas crianças em folhas impressas. A proposta de atenção ao tempo é uma aposta na projeção de um mundo melhor, por meio da sensível linha de diálogo com as famílias, que indissocia cuidado e educação, privilegiando as diferentes formas de aprender com o outro, inclusive (e essencialmente) por meio do exercício coletivo de divisão de tarefas dento de casa.

Portanto, podemos refletir que encontrar caminhos de rever o nosso tempo, também inclui pensar em nossa percepção sobre ele, na utilização do nosso tempo para cuidar das miudezas, “aparelhados para gostar de passarinhos”, como diria o poeta Manoel de Barros. Na utilização de nosso tempo para sonhar e planejar rotas, como nos inspira Krenak nesta entrevista. 

Infelizmente, o sistema do capitalismo nos afundou na lama da ganância, da qual, difícil sair, preferimos dedicar nosso tempo na produção de tarefas ininterruptas, a demandas inacabáveis enquanto a desigualdade social avança em disparada. Aprisionadas pelas redes sociais alienáveis, esquecemos de olhar para o tempo com as crianças e, nossa aposta num mundo melhor se esvai, dia após dia.

O encontro de gerações permite caminharmos em direção a um mundo que aprende com seus erros, reflete sobre falhas e, elabora seus percalços e almeja um mundo melhor. Planejar, vislumbrar um mundo mais justo e igualitário depende de um exercício diário, que é possível por meio do ato educativo entre a comunidade escolar (famílias, crianças, etc.).

Portanto, vale a pena paramos pouco para ouvir histórias, narrar e contar “causos”, cuidar da terra, soltar o corpo, dançar ou cantar. Vale dedicar um tempo refletindo sobre quem não tem acesso a moradia, família, comida. E são muitos! A perversa cultura do conteudismo acadêmico contribui para um produtivismo perdido, fortalecendo o consumismo cego, que nos impede de observar as mazelas sociais (lembrando a corrida do coelho, personagem do filme “Alice no País das Maravilhas”, que sempre está atrasado, com cara de cansado e que quase não sabe explicar porque corre tanto). A conta desta correria toda, quem arca, mais uma vez, são as mulheres, em especial as mulheres negras e pobres, veja dados que afirmam sobre a desigualdade escancarada em tempos de pandemia por meio deste link. Existem caminhos de reverter as escolhas de nosso tempo, a começar pela forma como encaramos o tempo na escola.

Assim, talvez possamos sonhar com os pés no chão, tendo como objetivo o desenvolvimento de uma humanidade mais próxima a uma ideia de renovação que, considera o contexto repleto de desafios, mas também têm esperança de sermos responsáveis por ele. Com isso, podemos pensar que não somos donos do tempo, mas parceiros da vida comum. Contemporâneos em tempos difíceis, conseguimos reverter o quadro de maldade e banalização da morte que assola e invade nossa casa todos os dias. É tempo de acreditar e sempre lembrar que toda luta se inicia com exercícios de mudança, inclusive #dentrodecasa.

Para avançar na luta feminista, que enfrenta a necropolítica, o capital, o racismo e o feminicídio, em suas diferentes formas, precisamos acreditar nas crianças e, ensiná-las a esperança de um mundo melhor. Isso só é possível se acreditarmos no tempo e no uso que as crianças podem fazer dele. Que possamos pensar nos efeitos de uma educação feminista que combata a escola imparcial, imóvel e obediente de regras. Talvez o mundo melhor possível encontra-se “no menino interno que nos dá a mão”, para lembrar da canção de Milton Nascimento e nossa incrível arte de imaginar, mudar e não se conformar!

Referências

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Cia das Letras. 2019.

 

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