Isolamento e violência doméstica: Aniversário da Lia

Sábado passado foi aniversário da Lia.

A gente não tem se visto ao vivo e em cores…em função do distanciamento social.

Acontece que, durante um bate papo das amigas (façam isso, é muito necessário para manter a cabeça no lugar), Lia pediu tanto para passarmos o dia com ela…que a gente acabou cedendo (ok, não façam isso). Nosso grupinho, Lia, Kaká, Marina e eu (Joana); combinamos de passar o sábado na casa da Lia.

Tivemos uma tarde super agradável, regada a vinho e muita risada. Terminamos todas juntas, esparramadas no sofá, vendo filme.

Num dado momento, o Rodrigo (marido da Lia) chamou por ela no quarto. Ela foi, nós ouvimos a porta bater e demos uma risada. Porque achamos que eles queriam ficar sozinhos um pouco…

Veio um grito ensurdecedor… sentimos o chão abrir. Era Lia gritando.

Corremos.

Porta trancada.

Um grito.

Choro da Lia.

Voz do Rodrigo gritando pra ela se calar.

Batemos na porta.

Silêncio.

Silêncio.

Medo.

Batemos na porta.

Medo.

Grito.

Pavor.

Batemos na porta.

 

Porta abriu.

 

Lia chorava acuada num cantinho. Rodrigo saiu correndo gritando que não era nada.

 

Ficamos alguns momentos caladas, olhando uma pra outra, ainda não querendo acreditar no que víamos ali. O que era aquilo?

Nos abraçamos.

Ficamos juntas.

Um choro em conjunto.

Doído.

Físico. Emocional.

Silêncio.

Medo.

Choro.

Apoio.

 

Depois de um tempo, Lia nos contou que insistiu tanto para aquele encontro, porque precisava pedir ajuda.

Como a gente não percebeu?

Como não notamos que nossa amiga de anos e anos…sofria debaixo de nossos olhos…

Agora, que tudo veio à tona, a gente consegue conectar umas coisas… A carinha triste tão presente nos últimos tempos, não era só tristeza. Aquele roxo no braço, não era só porque a Lia é a pessoa mais desajeitada do mundo e tromba em tudo…A queda do cabelo, não era stress “só” de pandemia… Como a gente não percebeu?

 

Que dia difícil.

Que dia libertador também.

Depois daquele dia, Rodrigo não voltou mais.

Fomos a delegacia, todas juntas.

E tivemos que explicar tudo algumas (dezenas) de vezes…e teve todo aquela história de que…foi isso mesmo? Porque não contou antes? O que você fez para causar isso? Triste. Foda. Mas é outra pauta.

Lia agora tenta se refazer. A gente tá junto dela o tempo todo.

Ela ainda sofre. Porque “ama” Rodrigo.

E já começa a dar sinais de renascimento…agora que já não vive com medo, se escondendo.

Tá sendo uma fase dolorida. Difícil de verdade. Pra Lia. E pra gente.

 

O que aprendemos nisso tudo…é que NUNCA é demais perguntar. NUNCA é demais questionar. Pensar que sim (infelizmente) que algum sinal que alguma amiga nos der, pode ser um “efeito colateral” de abuso, de violência…

Ainda me pergunto como a gente não percebeu…Se agora, parece tão evidente, tão óbvio.

 

Mulheres, se cuidem. Se amem. Se apoiem. Busquem ajuda.

Não apontem a outra que vive uma situação de abuso, porque acredite…ela não queria viver isso.

Fiquem atentas.

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