A saúde da beleza é violência de gênero

Abdominoplastia para reduzir as gorduras do abdômen; Mini lifting facial para rejuvenescimento facial; Lipoaspiração para eliminar gorduras localizadas; Mamoplastia de aumento ou redutora dos seios; Blefaroplastia para rejuvenescer a aparência das pálpebras; Rinoplastia para corrigir a aparência no nariz, Otoplastia para as orelhas; Frontoplastia para remodelar a testa; Gluteoplastia para aumentar o tamanho do bumbum; Botox para rugas, marcas de expressão, sombrancelhas; Bioplastia para aumento de lábios, queixo, mandíbula, maçãs do rosto; Braquioplastia para eliminar flacidez ou pele da região do braço, Rejuvenescimento das mãos a laser ou cirúrgica; Ninfoplastia ou labioplastia cirurgia para retirada ou enchimento nos grandes lábios e de aparência da vagina; Rejuvenescimento Vaginal para o canal da vaginal ser mais apertado e estreito, etc, etc, etc…. Poderia preencher páginas e páginas com nomes de procedimentos estéticos aqui… e, inclusive acho que exagerei, mas essa introdução é apenas uma ilustração dos inúmeros procedimentos da Saúde Estética em nome da beleza existentes para o público majoritariamente Mulheres.

Essas são algumas intervenções cirúrgicas propostas pela medicina para a “saúde” e beleza da mulher no nosso país e no mundo, hoje em nome da “autoestima” e “saúde” você pode mudar qualquer parte do seu corpo, claro que se tiver como bancar, será mais rápido e seguro, já que esses procedimentos costumam ser caros e quem acaba consumindo é a classe média, alta do país. Contudo, muitas mulheres pobres impulsionadas pela mídia da beleza e da saúde como estética, acabam buscando essas intervenções com ofertas mais populares, em outros países sempre com o slogan de milagres, mas nem sempre tem o resultado desejado que viu na celebridade no Instagram, pior ainda quando termina em morte.

Segundo a Sociedade internacional de Cirurgia Plástica Estética – ISAPS, o Brasil em 2018 fez 1.498.327 cirurgias estéticas, somos hoje o país com mais procedimentos estéticos do mundo, seguido pelos Estados Unidos, Alemanha e Itália. Segundo o estudo, 87.4% dos pacientes no mundo todo, são as mulheres que mais buscam pelos procedimentos estéticos.

Uma pesquisa de doutorado da UNIFESP, defendida em 2017, antes desses dados serem divulgados pelo ISAPS, apresentou que “mais de 90% das certidões de óbito de pessoas que faleceram após passarem por lipoaspiração não trazem informações precisas. O preenchimento incorreto dificulta estabelecer a real causa da morte.”

Os dados fazem parte da tese de doutorado de Di Santis, defendida no Programa de Pós-Graduação em Saúde, baseada em evidências, na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo. O trabalho reacendeu, entre os especialistas, um antigo debate para a criação de um projeto de lei que torne obrigatória a notificação de casos de complicações e mortes por lipoaspiração em todo o território nacional.

O pesquisador Érico Pampado Di Santis explica em sua tese que falta informações precisas sobre a causa de mortes nesses procedimentos estéticos e que 98% das vítimas são mulheres.

A beleza do corpo, especialmente o feminino, é regulamentada por uma norma rígida e única: a magreza. Não existe alternativa legítima a esse modelo. Impossível realmente imaginar uma pin-up, uma estrela, uma top model, enfim, que não corresponda ao imperativo da magreza absoluta. É o modelo da hipermagreza. A moda tornou-se mais tolerante. A beleza, ao contrário, tornou-se mais despótica, autoritária e inflexível. A proliferação de imagens – cinema, televisão, fotos, publicidade – reforça o modelo dominante e castiga qualquer divergência. A consequência disso é a hiperdimensão tomada pelas dietas, pelas academias de ginástica e pelas cirurgias plásticas. Ser magro é um imperativo categórico. Toda infração à norma é malvista e criticada. (LIPOVETSKY, 2016, p.12).

Vale tudo para alcançar esse corpo construído continuamente como aquele que é sinônimo de felicidade, beleza, saúde. Conquistar esse corpo magro, enaltecido socialmente, é um tipo de status e, para lograr essa conquista, como um prêmio, vale qualquer coisa.

Nosso corpo é considerado um portfólio de apresentação, define quem somos ao outro, que nos julga através do que vê. Sendo assim, emagrecer é um imperativo central na vida da maioria das mulheres, com motivação estética e do discurso vigente de saúde.

O mercado do emagrecimento lucra com um exército industrial para atender à ordem de ter um corpo magro e malhado, são chás, shakes, pílulas, programas, dietas e receitas milagrosas que prometem resultados rápidos e sem consequências para a saúde, mas que não cumprem o que garantem.

A discussão do emagrecimento, das dietas e dos produtos para alcançar um corpo com saúde saiu dos consultórios e laboratórios e ocupou o cotidiano das pessoas. Em todos os espaços sociais existem conversas sobre receitas e controles sobre o corpo, destacando-se como atingir isso rapidamente. (JIMENEZ-JIMENEZ, 2020, p. 119)

O mercado do emagrecimento apoia-se na mídia e boca a boca, e as matérias sensacionalistas que vemos sobre a epidemia da obesidade colaboram para essa busca frenética e, consequentemente, a venda de produtos que deixem o corpo menor, magro, firme, branco, atrativo, etc.

A saúde da beleza é violência de gênero, porque em nome da saúde e da imposição desde pequenas em todas as instituições que frequentamos é exigido, ensinado e impulsionado o consumo de uma construção de corpo “perfeito” sem a verdadeira seriedade e riscos que todos esses procedimentos acarretam como violência na mulher.

Dormir com fome, ter muitas dores nas cicatrizações das cirurgias, malhar até a exaustação, etc… são alguns exemplos corriqueiros que a maioria das mulheres já experimentaram para alcançarem o corpo que nos vendem como saudável, feliz e belo… isso é violência de gênero também!

 

Para Consultar

 

– DI SANTIS, Érico Pampado. Mortes relacionadas à lipoaspiração no Brasil entre 1987 e 2015. 2017. 215 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

– Sociedade internacional de Cirurgia Plástica Estética. Disponível em: https://www.isaps.org/pt/

– JIMENEZ-JIMENEZ, Luisa, Maria. Por que a BELEZA é tão importante para as MULHERES? 2018. (Blog/Facebook). Disponível em: https://www.todasfridas.com.br/2018/11/12/por-que-a-beleza-e-tao-importante-para-as-mulheres/

– JIMENEZ-JIMENEZ, Luisa, Maria. Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos. 2020. Doutorado (Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO) – Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Cuiabá, MT, Brasil. Disponível em: http://lutecomoumagorda.home.blog/tese-de-doutorado-lute-como-uma-gorda-gordofobias-resistencias-e-ativismos/

– WOLF, Naomi. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

 

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