Sou feminista e vivi um relacionamento abusivo? Como pode isso acontecer?

Recebo em meu consultório e escuto diversas mulheres com intenso sentimento de culpa se questionando: “Eu sou feminista, conheço sobre relacionamentos abusivos e não percebi  quando estava em um. Como pode isso acontecer? Será que eu esqueci tudo que eu sei?”

Eu arrisco em dizer para vocês que nós mulheres somos socializadas para termos relações abusivas e para aceitarmos menos do que merecemos, as famosas “migalhas”.  Trarei aqui para vocês, alguns aspectos da nossa socialização, que ficam fixados até mesmo no nosso inconsciente:

  • Romantização de violência como amor desde a infância – Passamos para nossas crianças uma visão extremamente deturpada do que é amor.

Quem ai quando era criança tinha um colega de escola do qual viviam se batendo e brigando? E que os adultos diziam “Esses ai quando crescerem vão casar”. Ou mesmo já ouviu na infância/adolescência que se tem algum menino na escola que fica te “pentelhando” constantemente é porque ele gosta de você, se não gostasse te ignoraria. Assim, passamos para nossas meninas a ideia de que se alguém te agride, esse é um sinônimo de amor “oculto”.

Outro fator importante são as personagens, nas quais nos inspiramos e que ficam internalizadas em nosso imaginário. Destaco aqui as princesas da Disney. Podemos observar o quanto de abuso existe nessas histórias fantasiados de amor, mulheres beijadas enquanto estão dormindo sem consentimento, o homem representado sempre como salvador da vida das mulheres, incentivo a rivalidade feminina, princesa que se apaixona pelo seqüestrador, mulheres sendo celebradas por serem belas e caladas e sempre o encontro do “FELIZES PARA SEMPRE”, quando se encontra um príncipe encantado para se viver o romance de conto de fadas. Mulheres solteiras e não pertencentes ao padrão de beleza, são colocadas como bruxas más e solitárias. E eu imagino que quando você era criança queria ser a princesa e não a bruxa né? Pois é, eu também!

  • Maternidade e ideal de casamento compulsórios

 Eu não sei se alguma menina já foi questionada se gostaria de casar e ser mãe, porque eu nunca vi! É sempre um “quando você for”. Me lembro de desde criança já pensar em como seria meu casamento (Que loucura né?) e colocava os nomes das minhas bonecas dizendo que estes seriam os nomes das minhas filhas no futuro. Eu já havia refletido se gostaria de casar e ter filhos? Claro que não, pois era uma criança! E imagino que vocês também não, daí vem a ideia de compulsório, é como se fosse o seu destino certo como mulher, e mais do que isso, sua OBRIGAÇÃO, é passado para nós, como o que nos faz ser mulher. Por conta disso, a menarca (primeira menstruação) é um momento tão épico, é como se somente a partir daí pudéssemos ser vistas como mulheres, “mocinhas”, pois podemos gerar filhos.

A grande ideia do casamento, não veio de um ideal romântico de “felizes para sempre”, mas sim de uma necessidade financeira, capitalista. Mulheres não tinham diversos direitos como cidadãs e não eram consideradas capazes de fazer a gestão das terras de seus pais, dos quais receberiam heranças. Até hoje, mulheres são consideradas incapazes de lidar de maneira responsável com suas finanças, imagina naquela época né? Então, os pais que não tinham filhos homens entendiam que não tinham para quem repassar seus bens, visto isso surgiu à ideia de “arranjar” casamentos para suas filhas, com homens de famílias ricas, para que a fortuna das famílias continuasse prosperando. Nada romântico né?

Assim como muitos símbolos do casamento, o branco que celebra a virgindade da mulher, o pai entregar no altar, que representa a transmissão de um homem que era “dono”, para outro homem que será “dono”. Adicionar o sobrenome do marido ao seu nome, que é a demarcação final do patriarcado de propriedade privada.

Que horror! Então está dizendo que não podemos casar? Que não podemos utilizar todos estes rituais? Claro que não! Porém, a conscientização sobre todo este significado é importante, para não nos levar ao desespero para o casamento, que o patriarcado nos prega, pois ele precisa que nos casemos, dediquemos a maior parte de nossas vidas e energia para um homem e que tenhamos filhos para que tenha continuidade.

Como Silvia Federici aponta: “Imagina se as mulheres entram em greve e não produzem mais filhos, o capitalismo para! Se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho!”

O patriarcado nos leva a compreender que nosso único destino possível é o que nos mostram nas princesas: Dedicar a nossa vida em busca de um príncipe encantado, para termos nossos felizes para sempre. Engraçado que depois do casamento a maior parte das histórias acaba né? Não nos deixam saber se o feliz foi de fato tão feliz assim…

  • Padrão de beleza e incentivo ao ódio ao nosso corpo

Já existiram diversas maneiras de controlar mulheres, pelas tarefas domésticas intermináveis, controle dos homens sobre a autonomia e toda vez que qualquer estratégia se enfraquece, surge outra para fortalecê-la. A estratégia mais recente e ao mesmo tempo antiga, de controlar nossos comportamentos é a de ódio ao nosso corpo e busca incessante por um padrão de beleza inalcançável, que nos valide como mulheres interessantes e desejáveis para os homens.

Naomi Wolf já nos traz que: “O mito da beleza gera nas mulheres uma redução do amor próprio, com o resultado de altos lucros nas empresas, a ideologia da beleza mostra as mulheres que elas têm pouco controle e pouca escolha. As imagens de mulheres segundo o mito da beleza são simplistas e estereotipadas.”

Tudo isso nos faz acreditar que nunca somos suficientes para os homens e mesmo para nós mesmas. Nunca somos bonitas e interessantes o suficiente, pois não pertencemos ao padrão de beleza, e mesmo aquelas que pertencem, acreditam que não pertencem, pois nunca se vêem como as modelos nas capas de revistas.

Toda esta preocupação com a beleza reduz nossa autoestima, faz com que nos “apaguemos” em uma busca constante de algo irreal e inalcançável.

Mas o que tudo isso tem a ver com relacionamentos abusivos?

TUDO!

Todas nós mulheres, somos atravessadas por estas e tantas outras pressões e imaginários sociais, corremos atrás de tudo isso sem nem saber por quê. Nascemos e tão logo nos preocupamos com nossos casamentos, filhos, dietas (cerca de 70% das meninas de até 4 ANOS estão insatisfeitas com seus corpos), se nossos cabelos estão bonitos os suficientes e tão logo se entraremos na tão fatídica lista de “meninas mais bonitas da sala”, das quais os meninos caem de amores.

Tudo isso nos atravessa e corremos atrás de nossos casamentos, corpos perfeitos, família idealizada em moldes patriarcais sem nem saber por que e se de fato queremos, entendemos que PRECISAMOS.

Tudo isso afeta nossa autoestima drasticamente e nos faz acreditar que merecemos migalhas afetivas, ou que merecemos “pouco”. Muitas vezes, nos sentimos tão mal solteiras e recebemos tantos julgamentos que nos convencemos que é suficiente um homem abusivo que apareça em nossas vidas, ou mesmo aceitar pouco por acreditarmos nunca conseguiremos um “bom” parceiro, por não nos sentirmos bonitas e interessantes o suficiente. Por toda esta romantização da violência como amor desde a infância que se perpetra por toda nossa vida, acreditamos que a violência é normal, “ele vai mudar”, “é só uma fase” e que o divórcio e a solteirice são um fracasso.

Tudo isso que citei atravessa a vida de todas nós, mulheres, feministas ou não e exercem força maior do que imaginamos.

Se você teve ou está em um relacionamento abusivo se perdoe, considere toda esta socialização, além ainda de nossos fatores intrapsíquicos, visão que cada uma temos de amor, vivências de nossas antepassadas…

Conhecimento é poder! Que busquemos racionalizar! Não nos permitir sermos levadas pelas armadilhas do patriarcado.

Faça terapia, cuide se sua saúde mental!

Se está em um relacionamento abusivo BUSQUE ajuda para sair dessa relação quanto antes. Se vive os traumas e gatilhos pelos abusos vividos em uma relação passada, busque terapia também, para se curar.

Você não precisa de um homem, de um casamento, de filhos, de um corpo no padrão de beleza, de nada para ser incrível ou para ser mulher. VOCÊ É O SEU UNIVERSO, APRECIE-O!

 

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