Produção científica e mulheres escritoras: a quem tem servido nossas leituras?

A leitura de autoras feministas é uma iniciativa que contribui para a abordagem de obras literárias. Contribui para pensarmos a pauta feminista, mas também fundamentar nossas escolhas e trajetórias de vida. Neste sentido, vale a indagação proposta pelo título deste texto: a quem tem servido as leituras que fazemos, os livros que compramos, as páginas que seguimos? Qual a fundamentação teórica ou corrente epistemolótigca defendida pelo material que consumimos cotidianamente? Quem produz? Com quais intenções?

Sem pretensões de responder a essas questões (para isso precisaria de uma pesquisa específica e de um apanhado de produções sobre os hábitos de leitura, veja mais sobre isso neste artigo), temos como objetivo  mobilizar, neste texto, reflexões sobre as contribuições das produções científicas, cuja autoria são de mulheres. Essa mobilização se justifica pela aposta em um mundo descentralizado e ancorado pela luta feminista, portanto, associada ao combate das desigualdades sociais. Haja vista que, historicamente, a centralidade das publicações estavam nas mãos de homens instituindo hierarquias, imposições e delimitações sociais (veja estes anais científicos sobre as mulheres e a escrita na história do Brasil). Atualmente, temos a oportunidade de refletir sobre nossas escolhas de leitura e referência, as opções são muitas e, incrivelmente contagiantes (veja o instagram Mulheres de Escrita).

Os textos que circulam na rede, ou estão nas estantes de sebos e livrarias permitem compreendermos nosso lugar no cenário social e reconhecer nossas histórias, alavancando processos de identificação e trajetórias de vida. Atualmente, acompanhamos temas das relações sociais a partir da desigualdade de condições encontradas, especialmente na vida das mulheres negras e em contextos marginalizados. Temos as dores de Frida Kahlo, por exemplo, que marcam não só as questões físicas, mas pelas questões sociais e políticas que encaramos como mulheres. Talvez, o caminho seja encontrar nestas dores, força para sobreviver em um mundo tão desigual. Talvez por isso, sejamos Todas Fridas e esteja alocado em nosso site, desde 2015, produções exclusivamente de mulheres.

Partindo deste pressuposto, podemos citar a autora Gloria Jean Watkings. Ela adota o nome de sua bisavó bell hooks (assim mesmo, em caixa baixa). Problematiza os três caminhos que mulheres negras de sua terra teriam (casar, trabalhar como empregada doméstica ou ser professora). Em uma escolha, dentro de uma não escolha, ingressou na carreira docente. Ato fundamentalmente político, que está associado às lutas antiracistas. Ao exercê-lo, encontra um cotidiano de reprodução da opressão, contexto de desenvolvimento de suas obras. A produção de seu conhecimento integra inúmeros livros e artigos científicos publicados. A cada leitura de sua obra, somos convidadas a refletir sobre nossas dores ao mesmo tempo em que somos convocadas à resistência contra a supremacia branca e toda a colonização racista derivada de anos de massacre.

Demonstra o quanto ainda precisamos avançar no desenvolvimento de ações que respeitem as mulheres. A professora de inglês, estadunidense, propõe o trabalho ativo, com vistas a combater a opressão sexista, por meio do convite à reflexão crítica, na prática cotidiana do feminismo, a partir de nossas experiências de vida. Suas práticas instigam a desenvolver uma formação humana, que nasce da interação entre as pedagogias anticolonialista, crítica e feminista. Questiona as parcialidades que reforçam os sistemas de dominação e é um contributo para a nossa formação engajada na luta contra o sistema racista e opressor. Leitura imperdível para quem está comprometida com o combate à opressão e seus sistemas de dominação (racismo, sexismo, exploração de classe e imperialismo), tendo no horizonte a liberdade.

Em seu livro “Ensinando a transgredir” aborda muitas questões que estão há anos engasgadas dentro da gente. É um desabafo de tudo que passamos no interior das salas de aula às festas e ruas. A autora fundamenta suas análises a partir do processo de ensino-aprendizagem. Propõe a revolução de valores por meio de uma pedagogia engajada. Defende a prática libertadora, na construção de uma comunidade pedagógica.

A partir de sua pesquisa, propõe repensar as práticas de ensino e produção de conhecimento. Analisa esta relação, inclusive no diálogo com nosso patrono da educação brasileira, Paulo Freire. A teoria como espécie de cura, entendida pela autora, também contribui para nos acalentar em processos de desespero. Sem, contudo, retirar nossos olhos das práticas de racismo, machismo e patriarcado que ocorrem em nosso sistema. Neste livro, encontramos temas que evidenciam a desumanização presente nos raça, sexo e classe. Observamos o quanto esse sistema privilegia e concedem poder a pessoas em detrimento de outras.

Só indo mesmo à vasta produção científica da autora, para ter a compreensão do tanto que podemos aprender e melhorar o mundo a partir de suas propostas. Pois a teoria proposta em seus livros, acredita na pedagógica libertadora como caminho de transformação social, por meio de um caminho prazeroso, não elitista e com linguagem acessível. Para as colegas professoras, um honroso ensino sobre o exercício da docência e a educação como elemento de transformação social.

Com isso, é possível nos fundamentarmos para debater e evidenciar temas como a cultura em que vivemos e resistimos. A leitura de autoras mulheres ao mesmo tempo que demonstra engajamento e força social, também reconhece nossas práticas culturais. Sabemos que o sistema historicamente aniquila a vida, explora e oprime, de forma especial, as mulheres negras. Assim, ler obras de mulheres escritoras é apoiar a luta que acredita em práticas revolucionárias e transgressoras da realidade.

A partir dos estudos desta e de outras obras da autora, encontramos forças para lutar contra os processos políticos colonizadores. Um exemplo disto, é a brilhante tese de doutorado defendida na Uniso em 2018 pela Profª Drª Andrea Teixeira Ramos, que focaliza as mulheres no congo capixaba. Tese repleta de referências sobre a cultura do Espírito Santo. Em sua obra a Profª. Andrea defende estes e outros elementos e nos inspira na luta em defesa da “pedagogia revolucionária como prática de liberdade” e foi ela quem me apresentou a autora em questão neste texto.

Nos estudos empreendidos com esta obra, dentre os inúmeros ensinamentos que aprendemos, podemos fortalecer os laços de ensino-aprendizagem. Com isso, mobilizar a produção científica, a cultura popular e a escuta de mulheres, em especial mulheres negras, nas comunidades de aprendizado. A comunidade de aprendizado que estabelecemos nesta rede possa se valer disto, que possamos aprender juntas, sem rivalizar e colocar a prática de classificação e segregação da voz do outro. Quais outras obras você conhece e gostaria de compartilhar conosco?

Referências:

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

RAMOS, Andreia Teixeira. Mulheres no congo do Espírito Santo: práticas de re-existência ecologista com os cotidianos escolares / Andreia Teixeira Ramos. — 2018. Disponível em: http://educacao.uniso.br/producao-discente/teses/Teses_2018/andreia-ramos.pdf. Acesso em: 26 set. 2020.

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