Porque a mulher negra é forte para o serviço doméstico e não para presidir o país?

Quando falamos sobre o sistema piramidal que compõe a nossa sociedade, estamos nos referindo à pirâmide social capitalista, que em seus nichos coloca a mulher negra na base, carregando todo o restante acima dela.

Dessa forma precisamos sempre associar a luta racial ao nosso sistema econômico- social. A luta de classes é essencial para a destruição do patriarcado capitalista, já que ele mantêm o domínio dos corpos negros, das mulheres pobres e do valor do trabalho desde a época da escravidão.

Ao estudarmos a forma de aplicação da Lei Áurea e como funcionou a abolição no Brasil, compreendemos que a falta de políticas públicas para inserção do preto na sociedade, fez com que o fim da escravidão fosse repleto de problemas que construíram a nossa sociedade.

O corpo negro foi marginalizado, suas práticas culturais e religião foram consideradas crime e o serviço doméstico era a única alternativa de trabalho remunerado para a mulher negra. Décadas depois o mercado se estendeu para os homens, mas as mulheres negras continuam tendo como única opção os serviços em casas de famílias brancas.

De acordo com o IBGE os trabalhadores domésticos já somam cerca de 6,2 milhões de pessoas só em nosso país. 92% são mulheres (5,7 milhões) e dessas mulheres 3,9 milhões são negras. 30% desses trabalhadores não possuem carteira assinada, facilitando a exploração do trabalho.

Mas, o ponto é que dentro desse sistema que coloca mulheres negras como base, toda sua fragilidade e humanidade são constantemente retiradas, fazendo com que todos acreditem que mulheres negras possuem habilidade para suportar a dor física e emocional, enquanto mulheres brancas são aceitas como mulheres delicadas e frágeis.

A patroa majoritariamente é uma mulher branca, graduada e quando não, tem poder aquisitivo o suficiente para ser considerada parte de uma classe a quem não cabe a prestação dos serviços domésticos. E a quem é designado o serviço de limpeza da casa?

Assim entendemos a diferença dos espaços e de como cada nicho dessa pirâmide está organizado para manter um sistema desigual, que rouba sonhos de meninas negras em todas as periferias do nosso país todos os dias. Indicando que elas nasceram para os serviços domésticos, roubando sua infância e obrigando que elas encontrem a saída em serviços exploratórios para contribuir com a renda familiar.

Quantas mulheres negras são cientistas? Quantas mulheres negras estão dentro da universidade?

Para refletir um pouco sobre essa questão, aconselho a pensar em todas as mulheres negras que você conhece e qual o primeiro adjetivo que vem a sua cabeça quando se lembra delas? Eu penso nas minhas avós, penso em como são fortes e como passaram a vida limpando casa de famílias com poder aquisitivo que talvez nunca iremos alcançar, é esse adjetivo que eu gostaria de levar até elas?

A nossa sociedade não modificou as estruturas hierárquicas presentes na época escravista, mulheres negras continuam sendo designadas a trabalhos de força. É ai que a discussão sobre trabalho doméstico aparece.

O serviço doméstico não é uma escolha, não podemos continuar repetindo o erro de acreditar em méritos e associar esse serviço com falta de comprometimento com estudos ou coisa parecida. Entender o significado da liberdade na vida social das mulheres negras é um passo importante para entendermos a sua relação com o trabalho, sobretudo o trabalho doméstico.

O Emicida cantou uma vez que o sonho é um tempo onde as minas não tenham que ser tão fortes, e parando pra pensar aqui, esse é com certeza o meu sonho.

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