Por uma educação feminista sob o olhar de Chimamanda Adichie

Para falar sobre Chimamanda Adichie e suas obras é difícil não começar falando sobre escrever. Chimamanda tem presença marcante, suas obras são grandes ensinamentos sobre como existir com o outro. Isso passa por escrever, acreditar na educação e na produção do conhecimento. Suas obras são repletas de sentidos e referências sobre sua vida e as possibilidades que existem no processo educativo com crianças. As questões que apresenta em seus livros incluem temas espinhosos e bem complexos, mas a forma tão simpática e agradável que desenvolve nos faz ter esperança de um mundo melhor. Um mundo melhor no presente e no futuro, a partir da análise de questões tão pertinentes em nossa sociedade.

Chimamanda é escritora e cresceu em campos nigerianos. Uma mulher incrível, de talento intocável. Sua existência reverte o que muitas pessoas ainda tem como referência do Continente Africano. Sua mãe foi a primeira mulher a se matricular na Universidade da Nigéria. Cursou medicina por um ano e meio e concluiu seus estudos diplomada em comunicação e ciência política. Concluiu mestrado em escrita criativa e a partir de suas obras observamos a beleza da arquitetônica textual, nos provocando a pensar sobre a vida e os tantos desafios que ainda temos nas discussões sobre a educação.

Suas obras contribuem para a análise de nossos contextos sociais, especialmente no que se refere aos desafios da mulher. Um dos focos que nos parece importante destacar é o quanto nos inspira a refletir sobre a formação de crianças. Chimamanda é autora de vários livros, contos e peças de teatro. Suas obras nos inspiram a acreditar em um mundo melhor, a partir da relação que estabelecemos com o conhecimento e a educação.

Os conceitos que apresenta em seus livros, nos ensinam, por exemplo, o perigo de uma história única e como educar crianças feministas. Sinalizam sobre os perigos na formação inicial dos pequenos e de como somos adestrados a aprender (e nos prender) a uma única versão dos fatos. A partir do que aponta Chimamanda, podemos perceber o quanto somos ensinados a ter uma única forma de enxergar as situações e somos acostumados e ver em apenas um único sentido, dificultando o processo de diálogo e de escuta.. Isso nos conduz a um caminho de pensamento único, consequentemente, de difícil capacidade de diálogo.

A partir do momento que formulamos reflexões sobre o mundo, passamos a tomar como referência, estabelecemos simulacros (representações da realidade), que engessam nossa visão de mundo e nos conduzem a aceitar apenas uma versão. Consequentemente, essa versão adquire caráter de verdade e todo o problema começa por aí. Se torna um problema, na medida em que passamos a não refletir sobre as diferentes possibilidades de existir e de compor nossas análises sobre o mundo.

Vejam só o seguinte exemplo: Imagine-se desenhando uma árvore, se eu pedisse a cada uma de vocês para desenhar uma árvore. Quantas de vocês desenhariam uma árvore em forma de pinheiros, ou um coqueiro, um pé de manga bem frondoso, um pé de ipê, ou um pé de jambo, com seu peculiar formato triangular? Provável que vocês tenham desenhado uma árvore com maças ou laranjas, redondinhas e um tronco retangular. E cadê a criatividade individual de cada um ou a capacidade de representar a vida como ela é, a partir de nossas próprias representações?

Isso não acontece por nossa culpa. Mas por conta de um sistema que nos ensina a versão única das coisas. O perigo disso, como nos ensina Chimamanda é acreditar que o que nos ensinaram é uma verdade inabalável, impossível de ser revista ou alterada. Dessa forma, acreditar nas infinitas possibilidades de transformação do mundo é um convite que as obras de Chimamanda nos provoca, sempre passível a outras análises, compreensões e ressignificações.

Em sua obra, como educar crianças feministas (ADICHIE, 2017), nos ensina que a criação é que um caminho de criar as crianças para que as opiniões provenham de uma base bem informada, humana e de uma mente aberta (ADICHIE, 2017). Neste livro, trata de 15 sugestões para educar crianças feministas, a começar pela primeira sugestão “ser uma pessoa completa”! E com isso, desenvolve uma teoria incrível, que nos ajuda a pensar em nossos caminhos e possibilidades de um futuro mais justo e igualitário.

Junto com sua obra que defende que todos nós sejamos feministas, Chimamanda nos ensina a acreditar em uma criação baseada em ensinar que as diferenças entre as pessoas existem e que não devemos sobrepor umas às outras, tampouco universalizar critérios ou experiências pessoais, como podemos observar na seguinte passagem:

O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são (ADICHIE, 2015, p. 29).

A quem coloca a cultura como um entrave e justifica o preconceito e a violência contra as pessoas (especialmente às mulheres e crianças) como um traço cultural, convidamos à seguinte citação de seu livro:

Tem gente que diz que a mulher é subordinada ao homem porque isso faz parte da nossa cultura. Mas a cultura está sempre em transformação. Tenho duas sobrinhas gêmeas e lindas de quinze anos. Se tivessem nascido há cem anos, teriam sido assassinadas: há cem anos, a cultura Igbo considerava o nascimento de gêmeos como um mau presságio. Hoje essa prática é impensável para nós (ADICHIE, 2015, p. 47).

Ah, e não dá para deixar de falar, que Chimamanda é um ícone de beleza e moda! Uma exemplar inspiração para corpos reais, compreensíveis de que a melhor roupa é aquela que tem um bom corte, adequado a seu corpo e que, acima de tudo, de faz feliz!

É uma alegria ver que suas obras ganham o mundo e frutificam em projetos maravilhosos, com o tema, a exemplo do Cineclube Afoxé http://cineclubeafoxe.blogspot.com/, que desenvolve um trabalho baseado em princípios educativos de difusão do conhecimento, por meio da difusão de produções cinematográficas, nos inspirando à resistência e reconhecimento de mulheres negras em diversos espaços. Leia Chimamanda!

 

Referências

ADICHIE, Chimamanda. ― O Perigo da História Única‖. Vídeo da palestra da escritora nigeriana no evento Tecnology, Entertainment and Design (TED Global 2009). Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ, V.1, n. 11, pp. 46- 59, jul./dez. 2014. ISSN: 2176-381X http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?langua ge=pt. Acesso em: 5 de maio de 2014.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi.  Para educar crianças feministas: um manifesto.São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Trad. Christina Baum. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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