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“Ser luz”: a indústria que vende felicidade enquanto o desemprego chega a 14,6%

No contexto difícil que estamos vivendo com excesso de mortes, um sistema político negacionista e uma onda avassaladora de padronização da vida, vemos o mundo tomar um caminho nocivo para nosso bem estar e equilíbrio das emoções. Essa onda está em todo tipo de texto que não considera as desigualdades sociais e acredita que o problema do mundo está dentro da gente. Não está. Como já dissemos várias vezes por aqui, temos um sistema de funcionamento (capitalismo) que não ajuda a superarmos os desafios de viver. Pelo contrário, nos força a padrões inalcançáveis e ideais inatingíveis.

Assim, num contexto assolado pela crise, as mulheres são as que enfrentam os principais desafios. Pois, com a recrudescência da pandemia e as perspectivas de desemprego, #serluz ficou cada dia mais difícil. A pesquisa desenvolvida sobre a saúde mental das mulheres em tempos de pandemia, indicam (dentre outras análises) que as mulheres estão mais expostas à riscos de comprometimento da saúde mental (SOUZA, et. al, 2020).

Um dos indicadores apresentados nesta pesquisa são os cortes salariais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas aponta a “diferença na taxa de desocupação entre homens e mulheres. O percentual foi de 12,8% para os homens e 16,8% para as mulheres. Já entre as pessoas pretas, a taxa foi de 19,1%, enquanto a dos pardos foi de 16,5%, ambas acima da média nacional. A menor taxa foi a dos brancos: 11,8%” veja mais detalhes aqui.  Demonstrando que, do total de desempregados no terceiro trimestre de 2020, a maioria foram mulheres. Isso significa que: “Mais 1,3 milhão de pessoas entraram na fila em busca de um trabalho no país no terceiro trimestre de 2020”. E a maioria delas são mulheres pretas, reforçando dados da desigualdade racial no país.

Desde muito tempo já discutíamos sobre a venda de slogans que desumanizam e aprisionam sentimentos. É a cruel sina do capital que acha-se no direito de vender até o que não está a venda. Assim como podemos conferir no filme 1,99, um supermercado que vende palavras, nosso sistema de viver entra em colapso quando o assunto é mercado. A política neoliberal que tem como objeto o consumo e o acúmulo de riquezas chegou no extremo de vender sensações. Invade os sistemas de relação entre pessoas por meio de práticas sutis como uma postagem de foto e uma legenda como “você merece ser feliz”. Legenda que disfarça disputas contextuais, relações de poder e acesso à direitos fundamentais. Por vezes, disfarçadas de um lugar paradisíaco com estado de espírito zen ou um ioga on-line por r$299,90.

Essas forças, ao invés de elevar o nosso lado espiritual e conexão com o equilíbrio e igualdade com vistas à justiça social, contribui para desempenhamos funções de máquina a serviço de um sistema movido pelo dinheiro (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Nessa estratégia, agimos como massa de manobra a serviços da “indústria da felicidade”. Um serviço que fazemos quase de graça e que vende pra caramba. Lamentável é reconhecer que fazemos isso quando consumimos o material de blogueiros e coachs que dizem, de vinte em vinte minutos, que você precisa fazer acontecer e tudo depende única e exclusivamente de você (Desconfie quando alguém coloca a obrigação da felicidade nas nossas costas. Desconfie e analise os motivos que levam a ter certos sentimentos).

A prática do excesso de positividade nas redes vão na contramão disso, encobrem o choro, disfarçam a tristeza e só mostram um pequeno lado das versões. Também satirizam as mazelas e as diferenças, riem sempre do outro e nunca de si. É como se existisse uma realidade paralela, onde ninguém paga aluguel, a conta do mercado não sobe com a inflação e o corpo perfeito é algo que só basta querer, que só depende de pagarmos R$0,99 de mensalidade de uma academia golpista. Desconfie quando te empurrarem a gratidão “goela abaixo”, porque isto pode estar disfarçando uma compreensão completamente higienista de sociedade. Essa mesma sociedade que abaixa a cabeça quando alguém pede uma moeda para comprar pão na rua.

O clima de “ser grato/ser luz”, por vezes mascara um engodo para atrair consumistas da felicidade. Com isso, associa-se à gratidão elementos de compra (e se paga caro por isso). Haja vista os pacotes caros de Yoga, Cursos, Coachs, entre outros. Ser grato nunca foi uma representação tão sutil da injustiça social. Afinal, com o vírus desmascarando as desigualdades, como parar para agradecer? Agradecer o que, exatamente? Fica fácil ser grato quando se tem alguém bancando sua conta, ou você não tem preocupações advindas com o desemprego, por exemplo.

Essa onda individualiza nosso sentimento, apartando nossas forças e propositalmente nos separando. E, em especial com as mulheres, nos rivalizando e colocando padrões estéticos e emocionais muito cruéis. Isso gera uma onda de ilusão e faz parecer que o problema está dentro da gente, que nós somos culpadas por não conseguir ficarmos alegres. Isso gera adoecimento e desumanização da vida. Como ser gratas se o sistema nos nega emprego, oportunidade de estudo e ocupação? Como ser gratas em uma circunstância em que tantas pessoas dependem de nós para sobreviver?

Tenho investido em buscar um espírito educativo que carnavalize a tragédia e provoque o riso e a ironia como combate à opressão (BAKHTIN, 2010). Um movimento que leve em conta o respeito, o direito de acesso e ação efetiva da política pública. Tenho um artigo que falo um pouco disso, inclusive (ALVES, 2017). Veja, acreditar no lado espiritual das coisas e no bem-estar comum não quer dizer que não dá para ser feliz. Pelo contrário. Dá para ser agradável e ter uma visão positiva da vida sem ser tóxico. O que não dá é para empurrar uma felicidade em quem não tem o mínimo de condições dignas de sobrevivência.

Eu adoro o lema Lua de Cristal, mas até ele prega que precisamos de forças para lutar. Na minha leitura, força política, força de mobilização social. E a Xuxa já pregava isso já há muito tempo. Saber brilhar a gente já sabe, só precisamos de um sistema que nos apoie e nos enxergue como cidadãs. Afinal, não dá para sermos gratas de barriga vazia.

Referências

ALVES, K. K. . Resistindo ao mundo triste: A brincadeira e a carnavalização como atos revolucionários. Pró-Discente (UFES) , v. 23, p. 11-121-121, 2017.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de Peter PálPelbart e Janice Caiafa. v. 5. São Paulo: Ed. 34, 1997.

SOUZA, Alex. SOUZA, Gustavo, PRACIANO, Gabriella. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.20 no.3 Recife July/Sept. 2020  Epub Oct 30, 2020. Acesso em: 12 jan. 2021. Disponível em: A saúde mental das mulheres em tempos da COVID-19 (scielo.br)

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