Por que usamos calcinha?

Essa é uma pergunta que faço desde criança. Nunca gostei de usar e continuo odiando. Fui educada pela minha mãe e irmã mais velha que tinha que usar, porque me protegeria de “bichos” e/ou “sujeiras” rsrsrrs hoje quando lembro, dou risada….

Sempre me incomodou, machucou, abafou, enfim… Nunca entendi muito o sentido de ter que usar a tal da calcinha…. Para nós mulheres gordas, além de ser difícil achar calcinhas confortáveis, ainda temos a dificuldade de achar do nosso tamanho…

É como se a calcinha fosse um acessório muito mais para a sensualidade, para sexualidade no universo masculino, do que para a mulher que é quem usa. Além de que, tudo que é sensual, “feminino” e sexy não é para um corpo gordo grande, muito pelo contrário, esse tipo de consumo nos é negado porque é visto socialmente como um corpo morto, doente que provavelmente não tem vida sexual…

Com a pandemia estou em casa desde março com raras saídas, sempre fiquei o máximo de tempo que conseguia em casa sem,  e agora na pandemia,  nem sei mais o que é usar calcinha, e posso garantir que não me faz a mínima falta….

Conversando com algumas seguidoras, amigas se usavam calcinha e se sentiam confortáveis, me surpreendeu o número de mulheres que vem abolindo a calcinha de suas vidas, magras, gordas, não gostam e já não usam mais.

Pesquisando sobre a temática, é certo que essa peça de roupa tem um valor muito maior que uso prático, confortável e de proteção, foi apenas no século XX que a lingerie passa a ser uma peça obrigatória no nosso vestuário, ao longo do tempo a “calcinha” que já foi bermuda deixa de ser “funcional” para se tornar uma arma poderosa da sedução masculina.

Ou seja, a tal da calcinha como percebemos, usamos e consumimos hoje está muito mais ligada a sedução heteronormativa do que uma peça funcional, confortável de proteção como muitas de nós ainda pensamos. Mais uma ferramenta que nos obrigam a usar para satisfazer o desejo masculino.

O mercado entorno a essa peça é gigantesco, basta você pensar nas cores, tecidos, modelos, lojas especializadas… Em algum momento de nossas vidas compramos calcinhas “belas” para agradar alguém ou não? Nosso corpo feminino sempre agradando aos outros, e nosso conforto?

Pode parecer bobeira, coisa de “feminista”, alguns dirão que é mimimi, mas nós mulheres estamos nos incomodando cada vez mais com o que usamos, com o que nos aperta, machuca, abafa, dói. E a calcinha é em definitivo uma peça complicada de agradar a todos os corpes….

Inclusive pesquisando por ai, existem marcas de lingerie feministas, como no caso dessa matéria que encontrei, “O feminismo e a volta das calcinhas extra grandes, ultra simples e mega confortáveis”, no qual apresenta algumas marcas e ideias de produção de calcinhas confortáveis, mas ainda não de abolir essa peça. Então a pergunta continua: Por que devemos usar calcinha?

Outro fator interessante é pensar porque se chama “calcinha” no diminutivo hummm? Frágil? Pequenino? Deve estar preservado? Tampado?

Outro jogo de discurso de dominação que diminui nossa vulva como algo que deve estar dentro da ideia de cuidado e proteção, valoroso, mas que deve estar guardado, vigiado e que é menor e bem mais frágil do que o pênis por exemplo, já imaginou chamar a peça intima do homem de cuequinha? Já ouvi cuecão, mas cuequinha jamaissss! Não é masculino.

O diminutivo está quase sempre relacionado ao que é menor, mais frágil, pequeno, enfim… No universo masculino ao contrário, é sempre o aumentativo ão da palavra ligada a força, poder: Ricardão, machão, gostosão, cuecão e assim vai….

Talvez esteja na hora de revisar esse uso como algo apenas sensual e não funcional para quem usa, nós mulheres.

Eu uso cada vez menos e não sei se agora depois da pandemia tem volta, porque é outra realidade, inclusive para a saúde da vulva, muitas mulheres como eu relataram que não tem mais corrimento, candidíase…, mas a medicina não dizia ao contrário, algum tempo atrás, em nome da saúde?

Lembro que um médico que fui na adolescência me disse para usar de algodão se me incomodava e desaprovou o não uso da calcinha, porque disse que o uso era higiênico, apenas a pouco tempo que tenho visto o conselho médico para dormir sem, ou usar o menos possível.

Esse é um ótimo exemplo de como nós mulheres, as dissidentes, não somos escutadas dentro dos consultórios médicos, porque penso que se reclamei de um incomodo porque não prestar atenção a ele?

O que posso dizer a vocês é que parar de usar calcinha, algo que sempre quis, me fez experienciar o quanto essa peça é uma imposição cultural masculina de controle e que não usar é libertador, vale a pena experimentar!

Como vocês percebem o uso da calcinha na vida de vocês?

 

Consultar:

 

Rosemary Hawthorne. Por Baixo do Pano: a História da Calcinha. São Paulo: Matrix, 2009.

 

Fabiana Correis. O feminismo e a volta das calcinhas extra grandes, ultra simples e mega confortáveis, 2018. Disponível em: https://thesummerhunter.com/gioconda-clothing-lingerie-feminista/

 

Sylvia Pessoa Almeida.  TCC:” Meu corpo, minhas regras”: uma análise do discurso feminista na internet. UFRJ. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/250

 

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